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Facebook, Google e Twitter na corrida para parar a desinformação sobre o coronavírus

“Óleo de orégãos é eficaz contra o coronavírus”. Alguma da desinformação circula por grupos privados no Facebook – vias difíceis de monitorizar – que apareceram mal saíram as primeiras notícias sobre o coronavírus.

As empresas enfrentam o seu grande teste perante uma potencial pandemia EPA/CARMO CORREIA

A rápida propagação do coronavírus pela China e por todo o mundo lançou o Facebook, o Google e o Twitter numa corrida para prevenir um tipo de doença diferente – um surto de meias verdades e mentiras completas sobre a epidemia mortal.

Os três gigantes tecnológicos de Silicon Valley há muito que travam uma luta para limitar desinformação perigosa sobre saúde, incluindo posts, fotos e vídeos que procuram assustar as pessoas sobre as muito necessárias vacinas. Mas as empresas enfrentam o seu maior teste perante uma potencial pandemia, agora que o coronavírus já infectou 4400 pessoas na China, matando pelo menos 100, tendo também infectado outras cinco nos Estados Unidos.

O Facebook e outros estão já a tentar lutar contra teorias da conspiração, incluindo uma que declara erroneamente que funcionários do governo dos EUA criaram ou obtiveram secretamente uma patente da doença. Alguma da desinformação tem circulado por grupos privados no Facebook – vias difíceis de monitorizar em tempo-real para os investigadores – que apareceram mal saíram as primeiras notícias sobre o coronavírus.

“Óleo de orégãos é eficaz contra o coronavírus”, lia-se num post que na segunda-feira já tinha sido partilhado pelo menos 2 mil vezes em múltiplos grupos. O post original já tem uma década e é proveniente de um site de tratamentos holísticos – e os cientistas já afirmaram que não existe tal cura para o coronavírus.

Sete organizações parceiras do Facebook emitiram nove fact checks nos últimos dias, declarando falsas uma série de afirmações sobre o coronavírus, incluindo a promoção de falsos tratamentos, informou a empresa na segunda-feira. O Facebook disse que identificou a informação errada e que baixou o seu ranking nos feeds dos utilizadores.

Na segunda-feira, o Twitter começou a encaminhar utilizadores norte-americanos à procura de hashtags relacionadas com o coronavírus para os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças. E o YouTube, detido pelo Google, disse que o seu algoritmo também dá prioridade a fontes mais credíveis. Não obstante, há vídeos na plataforma – incluindo um com mais de 430 mil visualizações – que dão informação duvidosa sobre a origem do coronavírus e os meios de transmissão.

A ameaça de mentiras que invadem rapidamente o espaço público ilustra, novamente, como as poderosas ferramentas das redes sociais para organizar e criar comunidades podem tornar-se câmaras de eco problemáticas durante crises de saúde pública. Quer seja por má-fé, medo ou confusão, os utilizadores podem facilmente partilhar e reforçar a desinformação em tempo real, complicando o trabalho dos médicos e oficiais do governo durante estas crises.

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“Captou a atenção do público e tem estado popular nas redes sociais, à medida que as pessoas procuram mais informação”, descreve Renee DiResta, investigadora no Stanford Internet Observatory. “Portanto, as plataformas deveriam estar a apostar nos seus serviços de fact-checking e nos algoritmos para travar o conteúdo conspirativo.” DiResta acrescenta que “este tipo de dinâmica não é uma novidade – aparece a cada nova epidemia, a esta altura.”

Na senda para evitar desinformação sobre o coronavírus, o Facebook, o Google e o Twitter debatem-se também com as suas responsabilidades como gatekeepers (guardiões) do online.

Por um lado, estes e outros gigantes da tecnologia argumentam contra terem de actuar como “juízes da verdade”, nas palavras do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, decidindo o que os utilizadores podem dizer online. Ao mesmo tempo, também reconhecem que o discurso sem quaisquer restrições acarreta riscos imensos, particularmente nas áreas da saúde e da medicina, em que os posts, fotos e vídeos que as pessoas partilham podem moldar como os doentes pensam e e as suas decisões sobre procurar e obter o tratamento que precisam.

No geral, todas as três gigantes da tecnologia têm políticas específicas para posts relacionados com saúde, destinados a assegurar que debates digitais não causam danos no mundo real. Mas os serviços mais populares de Silicon Valley, ainda assim, têm penado para atingir o balanço certo aos olhos dos reguladores e profissionais de saúde. Foram precisos meses de críticas, por exemplo, antes de o Facebook agir em relação a conteúdo que ligava erroneamente as vacinas ao autismo. Muitos desses grupos que promovem curas “naturais” ainda continuam a existir, mas agora o Facebook avisa as pessoas antes de entrarem.

Igualmente inundados com vídeos antivacinação, o Google ajustou os seus algoritmos do YouTube para fazer com que muito do conteúdo nocivo não apareça nas pesquissa, e o Twitter fez esforços semelhantes para redireccionar os utilizadores à procura de tópicos sobre antivacinação para conteúdo mais credível. Mas desinformação perigosa ainda continua disponível nessas plataformas, levando a repreensões de oficiais de saúde dos EUA que ainda vêem as redes sociais como uma vulnerabilidade.

Grandes surtos epidémicos ameaçam servir de terreno fértil para ainda mais desinformação perigosa, dizem os especialistas. Há quase quatro anos, posts com informação incorrecta sobre o Zika diminuíram a popularidade de fontes de informação mais credíveis sobre o surto, de acordo com investigadores no Medical College do Wisconsin, em Milwaukee. As suas conclusões de 2016 levantam novas preocupações para o Facebook, o Google e o Twitter, à medida que o coronavírus emerge como uma nova potencial pandemia.

“Estamos numa altura de pouca informação. Os cientistas têm estado a investigar, mas ainda não há muitos padrões definidos sobre como se propaga este vírus em particular”, confessa Joan Donovan, directora do Technology and Social Change Research Project no Shorenstein Center, no estado americano do Massachusetts.

À medida que a contagem de infectados aumentava, durante o fim-de-semana o Facebook e o Twitter registaram uma explosão de posts populares que sugeriam que os EUA ou outros governos estrangeiros já tinham obtido patentes para o coronavírus. Um tweet que apelidava o coronavírus de “doença da moda” – repetindo também que tinha sido patenteada – já tinha sido partilhado cerca de 5 mil vezes na segunda-feira.

Parceiros do Facebook dedicados ao fact-checking classificaram essas afirmações como falsas, apontando para o facto de que os investigadores já tinham patenteado sequências genéticas para outros vírus, mais antigos. Mas grupos privados, e fechados, do Facebook, com milhares de membros – sobre tópicos como “curas naturais”, que põem em questão conclusões científicas sobre medicina – têm ajudado a incubar o boato.

Milhares de utilizadores do Facebook juntaram-se a comunidades criadas recentemente, especificamente para trocar opiniões sobre o coronavírus, mostra uma pesquisa na rede social. Isto cria bolhas de potencial desinformação que os investigadores dizem que podem ser difíceis de penetrar.

Mais de 1100 utilizadores do Facebook, aparentemente com medo da doença mortal, juntaram-se ao grupo Coronavirus Warning Watch (“Vigia do Coronavírus”). Ali, têm trocado teorias sobre a sua propagação – em alguns casos sugerindo que se trata de “reduzir a população” – juntamente com links sobre onde comprar máscaras e outro material médico. Como em todos os grupos, posts, fotos e vídeos partilhados são empurrados para o topo dos feeds de notícias dos participantes, aumentando o seu alcance.

“Esta situação está a evoluir rapidamente e vamos continuar a abordar as organizações de saúde globais e regionais, para oferecer apoio e assistência”, disse em comunicado o porta-voz do Facebook, Andy Stone.

Ainda assim, outros têm usado grupos privados e focados no coronavírus para apregoar teorias de que óleo de orégão ou a prata coloidal podem tratar estas doenças, o que é falso. Em alguns casos, os posts têm links para vídeos do YouTube, incluindo um de 11 minutos – já com mais de 20 mil visualizações – que erroneamente afirma que o vírus já causou “180 mil mortos” na China, enquanto vende curas falsas.

Farhad Shadloo, um porta-voz do YouTube, informou que a empresa está “a investir fortemente no aumento de conteúdo de fontes oficiais, e a reduzir a difusão de desinformação no site”, assegurando, por exemplo, que pessoas à procura de notícias vejam primeiro nos resultados vídeos com informação fiável. O YouTube declinou detalhar se está a tomar quaisquer outras medidas específicas em torno de vídeos relacionados com o coronavírus.

No Twitter, entretanto, alguns utilizadores com muitos seguidores têm partilhado alegações infundadas de que o coronavírus chegou aos humanos devido aos hábitos alimentares chineses. Os tweets e vídeos – muitos com milhares de partilhas na rede social – assentam em preconceitos racistas sobre os chineses, dizem os especialistas, numa altura em que os cientistas ainda não apontaram para uma origem específica para o contágio.

Em resposta, a porta-voz do Twitter, Katie Rosborough, salientou as políticas que proíbem as pessoas de orquestrar esforços para enganar os utilizadores. Avançou que a empresa também está a ampliar uma funcionalidade na região da Ásia-Pacífico, para que “quando alguém procurar uma hashtag se depare imediatamente com informação oficial das autoridades de saúde, logo no topo”.