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Opinião

Vencemos algumas batalhas, mas a luta ainda não está ganha

É agora preciso que os países da UE mostrem vontade política suficiente para combater as causas culturais mais profundas que estão na origem das desigualdades de género, o que não é tarefa fácil numa União tão diversificada.

Mais de 100 anos: é quanto demora alcançar a igualdade entre mulheres e homens na Europa se continuarmos a avançar ao ritmo atual. Urge, pois, passarmos a uma velocidade superior.

Quando comparada com outras latitudes, a Europa é um sítio bom para as mulheres, mas ainda assistimos diariamente a demasiados casos de injustiça, discriminação e violência.

O Índice de Igualdade de Género recentemente publicado confirma este facto: a pontuação geral da UE é de 67,4 em 100, o que representa um aumento em relação a dois anos atrás, embora se trate de um aumento de apenas um ponto. Por sua vez, a pontuação obtida por Portugal é de 59,9, o que corresponde a um aumento de 3,9 pontos em relação a 2017.

Demasiadas mulheres não dispõem de condições para equilibrar o trabalho e a vida familiar. Em 2018, quase quatro em cada dez mulheres declararam ter adaptado o trabalho às suas responsabilidades familiares, face a menos de dois em cada dez homens. Foi por isso que a UE decidiu adotar legislação para promover a flexibilidade e permitir um melhor equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar, bem como uma partilha mais equitativa das responsabilidades familiares.

Apesar de serem cada vez mais qualificadas e de, estatisticamente, terem um nível educacional superior ao dos homens, as mulheres representam apenas 17 % dos quadros dirigentes. E, no caso dos diretores executivos, esta percentagem desce ainda mais, para 6,9%.

O que é incrível é o facto de as mulheres ainda hoje continuarem a ser pagas muito menos, em média e por hora, do que os homens. As disparidades salariais entre homens e mulheres elevam-se ainda a uma percentagem assombrosa: 16% na Europa e 16% em Portugal.

É por esta razão que a Comissão Europeia fez questão de elaborar um plano de ação com medidas concretas para fazer face às disparidades salariais.

É agora preciso que os países da UE mostrem vontade política suficiente para combater as causas culturais mais profundas que estão na origem de alguns destes desequilíbrios, o que não é tarefa fácil numa União tão diversificada.

É preciso investir em debates e na educação, para que tanto as mulheres como os homens se sintam à vontade nos seus novos papéis, se apoiem mutuamente e percebam que existe uma alternativa. Também temos de apoiar este debate na Europa a vários níveis, para que as autoridades nacionais e locais percebam quão importante é apoiar infraestruturas que permitam às famílias tomar as decisões mais adequadas às suas necessidades.

Este aspeto é particularmente importante, uma vez que em certos sítios se regista uma tendência preocupante e atitudes regressivas quanto à igualdade, especialmente por parte dos populistas. A questão dos direitos das mulheres é utilizada indevidamente para alimentar debates fraturantes e fazer da igualdade uma questão ideológica. Esta oposição aos nossos esforços dificulta ainda mais o combate para fazer avançar as coisas.

Por conseguinte, é extremamente importante que a presidente eleita Ursula von der Leyen tenha fixado o objetivo de atingir a igualdade de género nas suas prioridades políticas iniciais.

Este compromisso traduz-se numa equipa de comissários mais equilibrada em termos de género e em serviços administrativos onde o nível de dirigentes do sexo feminino acaba de atingir 40%, pela primeira vez na história da UE. É de realçar, porém, que este feito não foi conseguido de um dia para o outro e que este objetivo, fixado em 2014, implicou que fossem envidados esforços sistemáticos para o alcançar.

A desigualdade também tem um preço. As mulheres são, em média, mais qualificadas do que os homens, mas as suas competências não são utilizadas em todo o seu potencial. Até 2050, a melhoria da igualdade de género poderá contribuir para a criação de 10,5 milhões de empregos e para um aumento do PIB da UE que pode ir até 9,6%, o que equivale a 3,15 biliões de euros. Em última análise, ao criarmos uma sociedade mais justa e mais aberta, onde homens e mulheres sejam considerados iguais, estamos a beneficiar não só as mulheres, mas todos os cidadãos da UE.

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