Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Opinião

Sim, há culturas que são superiores a outras

Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta, nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado.

O bom de vivermos numa sociedade aberta é que aos textos infelizes podemos contrapor textos felizes. Querem uma lista? João Pires da Cruz, Marisa Morais, Francisca Van Dunem, Gabriel Mithá Ribeiro, Marta Mucznik, Susana Peralta, António Maria Saldanha, Adolfo Mesquita Nunes, José Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, Henrique Raposo, Paulo Mendes, Pedro Picoito. A lista está longe de ser exaustiva, mas todos escreveram bons artigos a propósito do caso Maria de Fátima Bonifácio. Não concordo com tudo o que li, como é óbvio, até porque há argumentos contraditórios entre si. Mas a todos li com proveito.

Uma das melhores provas de que não é preciso levar ninguém a tribunal para que as ideias com que não concordamos sejam combatidas está aqui. Se um mau artigo deu origem a vários excelentes artigos, a sociedade perdeu o quê, exactamente? Nada. Só ganhou. Deixemos, pois, os polícias do pensamento em casa – as batalhas das ideias travam-se no espaço público. E hoje eu quero travar mais uma, na sequência de um texto do sociólogo Paulo Mendes no PÚBLICO, onde sou acusado de ter cometido “um erro” ao dizer que acreditava na existência de “culturas superiores a outras”. “O pressuposto de defender que a minha cultura é superior à tua dá quase sempre barraca”, escreveu ele.

Atenção: eu percebo bem os cuidados de Paulo Mendes. É verdade que o pressuposto da superioridade cultural deu historicamente barraca, e que em última análise foi o pano de fundo que permitiu a escravatura. Mas o pressuposto de que nenhuma cultura é superior à outra também já deu bastante barraca nas últimas décadas, nomeadamente na Europa, onde a paixão multiculturalista produziu os guetos que alimentaram o terrorismo. A superioridade que eu reclamo nada tem a ver com a do século XVII – ela nasce, em exclusivo, do desejo de defender a cultura que literariamente, economicamente, cientificamente e tecnicamente mais deu ao mundo, desde que o Homem é Homem. E não deu por acaso.

Não sou relativista. É evidente que podemos perder horas a discutir o significado da palavra “cultura” ou do adjectivo “superior”. Proponho que as tomemos aqui nas suas acepções mais comuns: “cultura” como o conjunto de valores, leis, crenças ou costumes que caracterizam uma determinada sociedade; “superior” no sentido de acreditar que há certo tipos de cultura que oferecem às sociedades que a cultivam mais oportunidades para todos os seus membros e uma maior liberdade para cada indivíduo poder ser aquilo que deseja. A superioridade cultural de uma dada sociedade não tem relação com a superioridade intelectual dos indivíduos que a compõem, porque a diferença não está no Q.I. mas na qualidade das instituições. Os noruegueses não são mais inteligentes do que os sudaneses. As suas instituições, a sua educação, a sua organização política e económica é que são muito melhores.

Se os homens produzem cultura como as abelhas produzem mel, então é fácil saber quais são as melhores culturas: é aquelas que mais homens desejam consumir. Mostra-me para onde as pessoas querem emigrar, e eu digo-te onde elas estão. Esta regra não funciona apenas entre África e Europa ou entre a América do Sul e do Norte. Funciona também dentro da própria Europa (e Portugal faz bastante má figura). Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta, nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado. São necessárias condições sociais, políticas, económicas e culturais. Uns têm-nas, outros não.