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Lisboa lembra migrantes que morreram no mar Mediterrâneo

Os nomes dos milhares de migrantes que morreram no Mediterrâneo foram dispostos este sábado na calçada da Praça Luís de Camões, numa altura em que aquele mar continua a ser rota de entrada de migrantes da África Subsariana e do Médio Oriente na Europa.

A Polícia Marítima portuguesa ajudou a resgatar 48 migrantes do mar esta sexta-feira Rui Gaudêncio

Lisboa lembrou hoje os cerca de 16 mil migrantes que morreram no mar Mediterrâneo nos últimos cinco anos, numa acção de rua promovida pela plataforma HuBB, sigla para Humans Before Borders (Humanos antes das Fronteiras, em tradução livre), que concentrou a atenção de alguns transeuntes. 

O local escolhido foi a Praça Luís de Camões, onde, sobre a calçada, foi disposta uma carreira de papéis com a listagem dos milhares de migrantes que morreram quando tentavam chegar por mar à Europa. Barquinhos de papel, simbolizando as precárias embarcações em que viajam, estavam pendurados em estendais. Junto à estátua de Camões amontoavam-se alguns coletes salva-vidas e revezavam-se membros da organização da iniciativa, que, ao microfone, iam enumerando o número das vítimas, a sua origem e as circunstâncias em que morreram. Alguns transeuntes, sobretudo turistas, paravam momentaneamente e tiravam fotos às “listas de migrantes” colocadas no chão, onde se lia em inglês: “Não vamos esquecer-vos”.

A rota do Mediterrâneo é via de entrada, por mar, de migrantes da África Subsariana e do Médio Oriente na Europa. Portugal tem participado, desde 2014, em acções de resgate de migrantes no mar Egeu, no âmbito da operação europeia Poseidon. Só esta sexta-feira, a Polícia Marítima Portuguesa ajudou a resgatar um bote com 48 migrantes a bordo que estava a a cerca de sete quilómetros de terra, na zona de Ormos Mourtias​, depois de o avistar e alertar outra embarcação mais próxima.  ​

Criada em 2018, a HuBB visa “sensibilizar para o tratamento ilegal e desumano de migrantes e refugiados”. Um dos membros, José Cortez, que ia abordando as pessoas que passavam na Praça Luís de Camões com panfletos justificou à Lusa a acção com a necessidade de “mostrar que todas as pessoas que morreram ao tentar chegar à Europa, a um porto seguro”, fugindo de uma guerra ou em busca de melhores condições de vida, “são vidas humanas, não apenas números”.

Para José Cortez, “os direitos humanos devem estar na base de qualquer decisão tomada pela União Europeia”, que acusou de incentivar o controlo de fronteiras e “criminalizar as pessoas que tentam salvar” os migrantes, numa alusão ao voluntário português Miguel Duarte, indiciado pela justiça italiana de auxílio à imigração ilegal.

Portugal mantém resgates na Grécia

Na quarta-feira, o Governo português anunciou que estendeu, por mais um ano, até Janeiro de 2021, a missão da Polícia Marítima na Grécia, ao serviço da agência europeia de fronteiras. Em declarações à agência Lusa, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, afirmou que a Polícia Marítima, “ao longo destes últimos anos, fez um trabalho extraordinário na Grécia, um trabalho que não tem valor, dado que salvou a vida de centenas de pessoas”, e retirou “cerca de sete mil pessoas” do mar.

“Esse trabalho tem sido muito reconhecido pelas autoridades gregas e pelos outros países com quem trabalhamos na operação da Frontex e foi pedido que ficássemos mais um ano”, disse João Gomes Cravinho

O resgate desta sexta-feira foi feito por uma embarcação da Letónia, que patrulhava a área onde estava o bote, depois de um alerta da equipa portuguesa. Os migrantes foram desembarcados na região de Vathy e entregues às autoridades gregas em segurança.

De 2015 a 2019 morreram cerca de 16 mil migrantes no mar Mediterrâneo, segundo o projecto “Missing Migrants” (Migrantes Desaparecidos), da Organização Internacional das Migrações, que reúne dados seus, das autoridades nacionais e dos media. Este ano já foram contabilizadas 63 mortes.