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Hells Angels são liderados em Portugal por mestre de artes marciais de 69 anos

Megaoperação policial destinou-se a evitar confrontos no encontro motard que se realiza em Faro para a semana. Judiciária fala em criminalidade violenta e organizada.

Tem 69 anos, é mestre de artes marciais e tem o cadastro limpo o líder do grupo de motociclistas que foram ontem alvo de uma megaoperação liderada pela Polícia Judiciária, na qual foram detidas 58 pessoas. Igualmente detido foi um antigo skinhead conhecido pela alcunha de Rambo, que esteve envolvido nas agressões racistas ocorridas na noite em que morreu o cabo-verdiano Alcindo Monteiro em 1995. Trata-se do homem que chefia a filial da Margem Sul da mesma organização.

Em causa estão crimes que vão da tentativa de homicídio a ofensas à integridade física graves. A Judiciária refere-se ao ramo português do gang internacional Hells Angels como “uma estrutura criminosa, constituída por indivíduos extremamente perigosos, com vastos antecedentes criminais e larga experiência na área da criminalidade violenta e organizada." Um grupo que não terá mais de uma centena de verdadeiros membros, embora conte com mais apoiantes.

Para a coordenadora de investigação criminal da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da Judiciária, Manuela Santos, foi em Março passado que se deu um ponto de viragem na actuação dos Hells Angels. Cientes da recente criação em Portugal de uma filial da sua grande rival a nível internacional, a Los Bandidos, ligada ao ex-líder de extrema-direita Mário Machado, os membros da organização chefiada pelo mestre de artes marciais muniram-se de armas brancas e tacos de basebol para atacarem os seus membros, que se encontravam reunidos num restaurante do Prior Velho, em Loures. Resultado: seis feridos, três dos quais graves.

Entre as autoridades há quem ponha a hipótese de os dois grupos disputarem negócios ligados ao tráfico de droga e armas e ainda ao exercício de segurança privada. Mas também quem entenda que na origem da disputa nacional podem estar razões bem mais comezinhas, como a perda de influência no panorama nacional de motociclismo.

Uma coisa é certa: a operação policial, que decorreu de Norte a Sul do país, nas cinco filiais dos Hells Angels, e contou com a colaboração da PSP, da GNR e ainda dos serviços secretos, ocorreu a uma semana do habitual encontro anual de motociclistas em Faro. As autoridades temiam que aquele que é um dos maiores eventos do género da Europa, atraindo muitos milhares de pessoas, pudesse vir a servir de palco a novos confrontos entre os Hells Angels e o grupo de Mário Machado, que assumiu o nome de Red & Gold. Problema que podia ser agravado pelo facto de haver na altura já muitos polícias a gozar férias.

Com os líderes do Hells Angels fora de circulação – a Polícia Judiciária espera que seja decretada prisão preventiva a parte significativa das pessoas detidas, dados os indícios da prática de crimes que recolheu – o risco de rixas é reduzido.

A investigação está a cargo do Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Segundo Manuela Santos, o ramo português do Hells Angels não tem quaisquer motivações político-ideológicas, movendo-se por propósitos meramente criminosos. 

Desde sempre ligado ao universo do motociclismo e senhor de algum desafogo financeiro, foi o mestre de artes marciais quem fundou há década e meia em Portugal a primeira sede do grupo, nos Olivais, em Lisboa. Não se trata de uma pessoa tida por violenta, antes pelo contrário: no passado este atleta premiado chegou a colaborar com as autoridades, embora de forma esporádica. Mas marcou presença no ataque do Prior Velho, razão pela qual é um dos detidos.

Os confrontos já se voltaram a repetir desde aí pelo menos uma vez, embora com menor grau de gravidade. Durante a operação de ontem foram apreendidas algumas armas de fogo, uma das quais de maiores dimensões, e algum produto estupefaciente. Também foram emitidos dois mandados de detenção europeus. Cinco dos detidos são estrangeiros que vivem em Portugal: três alemães, um inglês e um finlandês. Este último terá um papel importante na hierarquia da organização.

Nascidos na Califórnia há 70 anos, os Hells Angels desde cedo se fizeram notar pelas suas actividades à margem da lei. Estão presentes em todo o mundo, tendo sido proibidos nos últimos anos em vários pontos da Alemanha. A Europol considera-os perigosos, enquanto o departamento de Segurança norte-americano os classifica como uma organização criminosa.