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Fraudes aos serviços sociais britânicos financiariam célula terrorista com portugueses

Ministério Público acusa oito portugueses de três crimes: apoio, recrutamento e financiamento de organização terrorista, neste caso o Estado Islâmico. Parte dos acusados pode já ter morrido.

"O processo foi instaurado após informações recebidas das autoridades britânicas, que davam conta “do envolvimento de cidadãos portugueses no rapto de dois jornalistas, um britânico, John Cantlie [na foto], e outro holandês, Jeroen Oerlemens, ocorrido na Síria em Julho de 2012” DR

Seria através de diversas fraudes aos serviços sociais britânicos que uma célula terrorista da qual faziam parte vários cidadãos de nacionalidade portuguesa, a maior parte dos quais radicados em Londres, conseguia financiar as actividades jihadistas que levava a cabo. O dinheiro serviria para pagar viagens de avião para a Turquia, deslocações noutros meios de transporte até à Síria, pagamento de estadias e alimentação durante o percurso e “luvas” para conseguir passar a fronteira síria, além de ter alegadamente financiado a compra de armas.

Isso mesmo consta na acusação do Ministério Público que imputa a oito portugueses três crimes ligados ao terrorismo, um de adesão e apoio a organização terrorista, outro de recrutamento para este tipo de organismo e por fim um de financiamento a estas entidades.

A acusação diz que quatro dos arguidos, recorriam a documentos forjados, para obter “subsídios estatais junto dos serviços sociais britânicos, o que lhes proporcionou proveitos económicos consideráveis, tendo suportado financeiramente, deste modo, as actividades de todo o grupo”.

Para não levantar suspeitas o principal autor do esquema, S.T., solicitava os subsídios não só em seu nome mas utilizando a identificação de familiares, amigos e colaboradores. Essas suspeitas de fraude motivaram em 2013 um processo-crime no Reino Unido, no âmbito do qual o português, nascido na Guiné-Bissau, chegou a ser detido. Acabou, contudo, por ser libertado sob fiança, tendo mais tarde conseguido iludir as autoridades britânicas para se dirigir à Síria, onde, segundo informação que chegou a um dos outros arguidos, terá morrido. 

S.T. seria também um facilitador da obtenção de vagas para estrangeiros no ensino superior britânico, usando para tal documentos de identificação e certificados de habilitação forjados. Organizava também os processos de financiamento das candidaturas dos estudantes estrangeiros e ficava com uma percentagem quando era bem-sucedido.

Esta investigação foi aberta em 2013, na sequência de informação das autoridades britânicas, na qual se dava conta do envolvimento de cidadãos portugueses no rapto de dois jornalistas, um britânico, John Cantlie, e outro holandês, Jeroen Oerlemens, ocorrido na Síria em Julho de 2012. Os repórteres foram libertados uns dias mais tarde, tendo regressado mais tarde à Síria, onde acabaram por ser novamente raptados. Por ordem do Departamento Central de Investigação e Acção Penal vários suspeitos foram colocados sob escuta. Apresentaram uma linguagem codificada que obrigou os três procuradores que assinam a acusação, Vítor Magalhães, Cláudia Porto e João Valente – os mesmo que concluíram a investigação ao caso de Tancos – a fazer um glossário com cinco páginas, para tornar compreensiva a linguagem que adoptavam. “Cães”, por exemplo, era uma das palavras usadas para identificar não muçulmanos ou polícias. “Bola” significava dinheiro e “vermelho” ou “vermelhoso” eram usadas para se referirem a passaporte. Dar um “beijinho na boca” era passar a fronteira e “sócios do Orochimaru” ou “bongofi”a formas de se referirem à polícia britânica.

Ataque na maratona de Boston

Nessas conversas, que serviam essencialmente para combinar a logística das viagens para a Síria, também se faziam elogios a actos terroristas. Numa conversa a 16 de Abril de 2013, um dia após o ataque ocorrido na maratona de Boston, que fez três mortos e mais de duas centenas de feridos, um dos suspeitos lamentava que o acto não tivesse feito mais vítimas. “Ainda assim foi bom, muito bom”, respondia S.T..

Este recrutador terá conseguido enviar pelo menos três britânicos para a Síria. Segundo o relato pormenorizado feito na acusação, estes três elementos que aderiram ao Estado Islâmico passaram antes por Portugal, tendo sido acolhidos por um dos três irmãos acusados neste caso. Este acolhia-os e dava-lhes os bilhetes para prosseguirem viagem, normalmente até à capital turca, onde depois apanhavam um autocarro até Reyhanli, junto à fronteira com a Síria, onde entravam neste país com a ajuda do Estado Islâmico.

Quando a maior parte dos jovens se radicalizaram, entre finais de 2011 e início de 2012 (alguns até eram oriundos de famílias católicas) em Londres, ainda não existia o Estado Islâmico, tendo estes integrado uma outra organização fundamentalista islâmica conhecida como Brigada dos Emigrantes.

Dois dos arguidos acusados foram este ano encontrados e interrogados em Portugal e um deles está desde Junho em prisão preventiva na cadeia de Monsanto, em Lisboa. O Ministério Público pede que se mantenha preso preventivamente e que o outro, que está apenas sujeito a Termo de Identidade e Residência, continue com a medida de coacção mínima. Dos outros não se sabe o paradeiro. Por exemplo, não se sabe nada sobre dois dos três irmãos que viajaram para a Síria (o terceiro é o que está preso em Portugal) desde finais de Dezembro de 2018. Isso mesmo admitia o suspeito numa conversa com o pai de todos, em Maio deste ano, e em que os dois conversavam da necessidade de trazer para Portugal as mulheres e filhos dos familiares que estarão em campos de refugiados naquela zona. Há informações que dão conta de que um outro suspeito estará num campo de detenção no estrangeiro perto da zona de conflito.