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Reportagem

Começou a chover lume e Dora pediu a Dulce que lhe levasse os filhos para os salvar

As chamas podem ter deixado a aldeia de Vila Facaia, em Pedrógão Grande, mas não a região.

Dora não sabia se os dois filhos, de 12 e 7 anos, que agora brincam à sua frente, se tinham salvado. Na aldeia de Vila Facaia, em Pedrógão Grande, olhos raiados de falta de sono e de lágrimas, a mulher está sentada num muro, acompanhada de familiares que se salvaram, observando a casa do vizinho que morreu na estrada, com a mulher, a mãe e o padrasto, explicando, sem o saberem, aquilo que tantos se perguntam: como foi possível que 61 pessoas tenham morrido no grande incêndio de Pedrógão Grande, 30 das quais na estrada, quando tentavam fugir. É só ouvi-las com atenção, sob o céu negro de fumo, anunciando que as chamas podem ter deixado a aldeia, mas não a região.

Lídia Antunes, 54, ainda não consegue afastar as lágrimas quando pensa na noite anterior. “Quando começou a fazer escuro, começou a chover lume.” Foi aí que ela achou que era preciso fugir. Mas não partiu logo. A filha, Dulce, de 24 anos, pegou na avó e nos dois filhos pequenos da sua prima Dora, que lhe pediu que os salvasse, enfiou-os no carro e fugiu, aldeia abaixo, para onde pensavam que não havia fogo. O resto da família ficou em Vila Facaia, a tentar salvar as casas, os animais, qualquer coisa. Mas rapidamente perceberam que não era possível.

Lídia sairia pouco depois, na direcção oposta. Na aldeia das Várzeas, alguns quilómetros à frente, houve um carro que parou, com medo de seguir, perante as chamas que se agigantavam por todo o lado, mas ela continuou. “Era cada vez mais lume. Não se via nada. Seguíamos a linha branca da estrada. Bati com o carro, mas ele voltou a andar. Nossa Senhora de Fátima ajudou-nos. Encontrei um casal, com o carro a arder, que me pedia ‘Socorro, Lídia, salva-nos’, e a porta do meu carro não abria. Mas, depois, lá abriu, eles entraram e seguimos não sei como. Não se via nada, meu Deus. Mas lá fomos ter a Castanheira [de Pera], sem saber nada da minha família.”

Sem comunicações, Lídia não sabia que a filha, que tinha seguido para o interior da aldeia, na direcção que parecia a salvo, tinha visto a fuga ser travada pelas chamas, regressando a Vila Facaia com a avó e os pequenos Afonso e Tomás, onde passaram parte da noite, ao relento, junto a um tanque com água. “Voltei para trás e foi a minha sorte”, diz a mulher de 24 anos. Nem Dora sabia dos filhos, que estavam com Dulce. A tentativa de fuga acabou nas Várzeas, onde ela e a mãe, Hermínia Costa, de 60 anos, se refugiaram numa capoeira, com água, até que foi possível sair. Só este domingo, a meio da tarde, conseguiram saber uns dos outros. Só nessa altura souberam que as várias rotas de fuga não tinham tido o desfecho trágico de tantos familiares, amigos e conhecidos dali e de aldeias vizinhas. Porque todos se conhecem e a tragédia de cada um é a tragédia de todos.

Hermínia perdeu o sobrinho, Mário, madeireiro, que morreu também com um sobrinho, na beira da estrada da aldeia de Nodeirinho, quando os dois tentavam ver como estavam as máquinas de que precisavam para trabalhar. Nessa aldeia, morreu uma menina com a avó e a mãe e há relatos de outras vítimas. O domingo negro, com um céu que parece cinza, mas que depois revela um sol vermelho-sangue, escondido por trás da nuvem de fumo, foi levando, a conta-gotas, as terríveis notícias. Nas Várzeas, Cristina Santos, 45 anos, diz que não pode ser. “É um dia a que nunca quero voltar. É a quarta vez que o fogo cá anda, mas nunca nada assim, com as notícias de mais mortos a chegar pelo telefone de hora a hora, de meia em meia hora.” Depois de horas sem comunicações, água ou electricidade, os serviços começam a ser repostos e, com os contactos restabelecidos, chegam mais más notícias. A última chamada que a fez chorar foi a que a informou da morte de uma colega da filha, na casa dos 20 anos, da aldeia da Cruz.

Ali nas Várzeas também há vítimas. Um homem que mora para os lados de Lisboa, e que fora passar o fim-de-semana à terra natal, perdeu a mulher e as duas filhas adolescentes, que seguiam numa viatura diferente daquela em que ele tentou fugir com os pais idosos. “Ele deve ter pensado que a mulher vinha atrás dele, mas não se via nada e quando cá chegou de volta, elas não apareceram mais”, diz Cisaltina Silva, 76 anos, a repousar num banco de pedra de frente para a carrinha ardida, que ficou abandonada na entrada da aldeia. É de um morador que também tentou fugir, mas que teve de dar meia volta perante a magnitude das chamas. Com ele, ainda trouxe uma vizinha, cujo carro ardido continua parado na aldeia de Barraca da Boavista, onde um jovem veado está morto na beira da estrada e três viaturas calcinadas parecem colocadas para comporem um cenário de horror: um veículo de nove lugares no largo que marca a entrada da localidade, um camião num acesso à esquerda, outro carro no acesso à direita, junto a uma casa a que as chamas arrancaram parte do telhado e onde o jardim é ainda um braseiro vivo.

É por aqui que se vai ter rapidamente à aldeia de Pobrais. E é por esse acesso que Maria Emília Matias, 73 anos, desce a pé, depois de ter ido espreitar o terreno destruído que já não irá cultivar diariamente, como o fazia, com a prima Fátima de Carvalho. Fátima morreu na estrada, com o marido, o filho e a nora — o tal casal que morava em Vila Facaia. O homem correu à aldeia da mãe para a tirar de casa, perante o cenário dantesco. Emília ainda se lembra dos seus apelos incessantes: “Ó, mãe, vamos embora. Anda, mãe, anda.” Ela ouviu o filho da prima a preparar a fuga e quis fazer o mesmo. “Eu também ia embora, mas o portão da garagem encravou, não abria. Acabámos por ficar”, diz, olhos rasos de água.

Os quatro ocupantes da viatura em que seguia a prima não sobreviveram, depois de o carro ter sido apanhado pelas chamas. A estrada 236-1, por onde tantos tentaram fugir, era um cemitério de veículos irreconhecíveis, que, pouco a pouco, foram sendo retirados ao longo do dia. A casa de Fátima, em Pobrais, é um amontoado de escombros. Ardeu toda, é certo, mas a casa de uma irmã emigrada, enorme e com ar novo, mesmo em frente à velha habitação ardida, está intacta. “Porque é que ela não foi antes para ali”, chora Emília. Na aldeia, há mais vítimas: um homem foi encontrado carbonizado em casa, um casal foi apanhado pelo fogo, também a tentar fugir. Há quatro pessoas cujo paradeiro era ainda desconhecido ao final da tarde, deixando todos a pensar que talvez já não voltassem.

Sentada no muro, com os filhos ao pé, Dora sabe que os próximos dias não vão ser fáceis. Todos os que a rodeiam sabem. Por todo lado, há demasiados funerais para realizar. “Agora, é tempo de enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, diz, olhos pegados nos dois rapazes risonhos. E combater o incêndio assassino, que continua a percorrer os montes e vales em redor, fechando e reabrindo estradas. Até quando, ninguém arriscava dizer, ao final do dia de domingo, enquanto ao local continuavam a chegar viaturas de todo o país. Os bombeiros não têm, para já, tempo para chorar os mortos.