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Opinião

“Quando alguém te mostra o que é, acredita”

Se temos dificuldade em identificar uma agressão onde há uma agressão, estaremos a tornar o nosso problema muito mais intratável do que já é.

A frase que dá título a esta crónica é da grande escritora, jornalista, ativista e poeta afro-americana Maya Angelou, e desde 2016 que tenho pensado cada vez mais nela. A nossa vida seria muito mais simples se a levássemos a sério, em vez de tentar inventar desculpas para não ver o que está à frente dos nossos olhos.

Um exemplo: os últimos anos têm sido passados a discutir se a vaga nacional-populista é ou não um regresso do “fascismo”. A discussão é em si circular porque a resposta é, e só pode ser, ambivalente: ao mesmo tempo, o nacional-populismo é e não é o fascismo que irrompeu na história europeia nos anos 1930. Se estamos à espera que os nacional-populistas se vistam de camisas castanhas para os identificarmos, esperaremos em vão, porque é da natureza dos fascismos disfarçarem-se após a sua derrota histórica. Mas se passamos a vida a negar as homologias básicas e evidentes entre o que se passa e os autoritarismos do século passado estaremos a desperdiçar algumas das nossas melhores aprendizagens na luta para salvar a democracia.

Um exemplo: foi preciso na semana passada aparecer um vídeo de um ministro da cultura de Bolsonaro a plagiar diretamente Goebbels para que as pessoas se convencessem que, sim, o fascismo é uma inspiração direta do governo brasileiro. Mas o ministro foi demitido por ter sido “infeliz” (ou seja: por não saber disfarçar) e lá voltaremos à discussão do costume que não quer nomear aquilo que vê.

Em Portugal não temos esses problemas (ainda) mas temos outros. E um deles ficou evidente com o caso de Cláudia Simões, a mãe que acusa a polícia da Amadora de agressão e racismo e que foi apresentada aos bombeiros locais cheia de hematomas por causa daquilo que a polícia da Amadora alega ser uma “queda”. Se temos dificuldade em identificar uma agressão onde há uma agressão, uma mentira policial onde há uma mentira policial, e se recusamos ver racismo onde muito provavelmente há racismo, estaremos a tornar o nosso problema muito mais intratável do que já é.

Que nem todas as agressões entre duas pessoas de raças diferentes são racismo é por demais evidente. E é por isso que é importante ser cuidadoso, em casos como o do assassinato de Luíz Giovanni dos Santos em Bragança, para não precipitar conclusões. Mas ainda antes de chegarmos aí no caso de Cláudia Simões, é preciso notar uma diferença básica: é que na Amadora o que se terá passado foi com um agente da autoridade. E se a polícia age em nome do Estado, e portanto de todos nós, ela tem regras muito claras sobre a forma como pode ou não agir.

A primeira dessas regras chama-se proporcionalidade. Tal como há uns anos o país ficou indignado ao ver um pai agredido em frente ao filho num jogo de futebol em Guimarães, agora o país não pode ficar menos indignado ao saber de uma mãe agredida em frente à filha, supostamente por não fazer nada de incorreto, uma vez que a filha viajava sem passe por ainda ter apenas oito anos de idade, abaixo dos treze exigíveis.

A segunda regra chama-se verdade. Que os hematomas de Cláudia Simões não são produto de uma queda conclui-se à vista desarmada. A polícia da Amadora deve-nos a todos uma explicação fidedigna sobre o que se passou, e se não a der, merece uma sindicância séria à sua forma de comunicar.

A terceira regra chama-se respeito, e ela obriga também a todos aqueles que exercem funções em nome do estado, dentro e fora dessas funções. A publicação, por parte de uma estrutura sindical de polícias, de um texto trocista de suposta solidariedade com o polícia acusado de agressão, sugerindo que Cláudia Simões lhe pudesse ter transmitido doenças, e tentando acicatar o ódio racial no nosso país, é simplesmente uma infâmia. Não se percebe como não houve já consequências assumidas pelos responsáveis sindicais por esta publicação.

Ou melhor, percebe-se infelizmente demasiado bem. É que existe já um problema em Portugal, esperemos que apenas ainda limitado, de infiltração de extrema-direita nas forças policiais. Não é nada que não tenha acontecido já em outros países, como a França. Não é nada que não esteja na cartilha dos políticos de extrema-direita de toda a Europa. E não é nada que nos deva surpreender que ocorra em Portugal. O que nos deve alarmar é a passividade perante a ocorrência (esperemos que ainda inicial) do fenómeno.

Assistimos ainda há poucos meses a uma manifestação de polícias em que um político de extrema-direita falou e foi aclamado pelo movimento inorgânico que a organizou. Assistimos, mas não quisemos ver.

Daqui a uns anos poderá acontecer que estes fenómenos estejam de tal forma enquistados que já não seja sequer possível ao poder político criticá-los, como acontece noutros países europeus de que a França é talvez o maior exemplo atual. A partir daí, gera-se um contexto de temor no qual tudo o que a polícia fizer está por definição bem feito para os políticos. A partir daí, é o próprio estado de direito que está em causa.

Se não formos todos Cláudia Simões hoje, pelas boas razões, é bem possível que venhamos a ser, amanhã, pelas más razões.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico