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Opinião

Reaprender a contar histórias na era da opinião

Como se chega à sabedoria na época do excesso de informação? Não há mapas. Mas há um atalho, que sempre houve: contar uma história, ouvir uma história.

Ponta Delgada, São Miguel, Açores. — Estou aqui a convite de um festival de literatura, Arquipélago de Escritores, organizado por Nuno Costa Santos com Hugo Gonçalves. A minha função é falar da Europa, atual e passada, dos seus problemas e das suas soluções. Alguém me pergunta sobre o colapso do estado de direito na Europa de Leste. Eu conto uma história. Refugiados. Outra história. Crise da ideia de Europa. Mais uma história. Pode ser a história de Átila, de Hannah Arendt ou de Damião de Góis. Mas não são teses, máximas ou proclamações. São sempre histórias.

A certa altura sinto um certo desconforto com a minha estratégia de responder a cada pergunta com uma história — em vez de avançar com uma teoria, uma opinião ou uma explicação. Por que raio faço eu isto? São perguntas às quais conheço as respostas, sobre as quais tenho opiniões, posições políticas, relatórios e documentos programáticos até, o diabo a sete. O problema é que não se trata uma estratégia, é uma compulsão: enquanto penso nas respostas a dar às perguntas que me estão a fazer, percorro antecipadamente as várias hipóteses de resposta, e a que me parece melhor é sempre uma história. Pouco importa que sejam contemporâneas ou da antiguidade, com pessoas famosas ou anónimos, que sejam a história de uma ideia ou a história de uma palavra. São histórias, ou seja, são narrativas em vez de sistemas e, no fim, as pessoas fazem o que quiserem delas. O segundo problema é que eu não me sinto mal com isso: pelo contrário, a cada momento acho que as pessoas ficam melhor servidas com uma história.

Um dos meus parceiros de mesa, o vulcanólogo Visto Hugo Forjaz, fala de ficar encalhado na Ilha Terceira, e essa mera menção lança-me na história de um naufrágio ao largo dos Açores no século XVII. No barco ia uma das personagens mais fascinantes do tempo, o Inca Garcilaso de La Vega, o filho de um conquistador espanhol e de uma princesa inca, descendente de Tupac Amaru. O Inca foi salvo por um marinheiro português, aprendeu a língua, e depois passou para a Europa. Em Espanha pegou no livro de um judeu português que vivera em Itália cem anos antes — Leão Hebreu, filho de Isaac Abravanel — e traduziu-o do latim. O título era Diálogos de Amor, e é uma autêntica súmula filosófica do neoplatonismo. Miguel de Cervantes cita-o logo no início do seu Dom Quixote. Mal me lembro desta história, ela torna-se irresistível. Tenho de a contar. As pessoas na plateia têm todo o direito a sentir-se defraudadas quando esperavam opiniões sobre a política na Europa atual. No fim da sessão, certamente por simpatia, asseguram-me que não foi o caso.

Mas que quero dizer ao contar esta história? O Inca que falava espanhol e o judeu que falava português, e que estabeleceram um diálogo de amor — amor pelo conhecimento, mas acima de tudo pelo próprio amor (“o amor ama amar o amor”, como escreveu James Joyce) — com um século de permeio? Parece distante e estranho. E é distante de nós, pelo menos até nos lembrarmos que o amor do inca espanhol e do judeu português era pelas ideias de um grego chamado Platão que viveu dois mil anos antes deles, o que quer dizer que nós somos menos distantes deles do que eles de Platão. Então aí está um primeiro fiozinho de significado: a história que estou a contar é sobre como é possível dialogarem entre si mentes de lugares diferentes, de culturas diferentes, com vidas aparentemente radicalmente diferentes, através de milénios diferentes. Uma banalidade, então. Mas uma banalidade importante, nesta nossa época em que parece que às vezes não conseguimos dialogar sequer com o vizinho do lado ou com a pessoa que vive no mesmo apartamento, que são da mesma cultura, do mesmo país, da mesma época, do mesmo idioma e até por vezes da mesma ideologia, mas que andam — andamos todos, parece às vezes — à procura da pequena diferença que nos faz não poder partilhar a opinião da pessoa ao lado.

Cá está outro bocadinho de significado a acrescentar ao que foi dito atrás. Na Antiguidade platónica, os filósofos (“amantes da sabedoria”) eram muito cuidadosos a distinguir entre a informação que era sabedoria e a informação que não o era. Hoje não o fazemos: aplanámos tudo numa categoria única a que chamamos “dados”. Dados valem dinheiro. Por vezes, quando conseguimos amalgamar dados numa coisa que distrai as pessoas, chamamos-lhe “conteúdos”. Quando agregamos dados num conteúdo noticioso, chamamos-lhe “informação”. Quando agregamos dados num conteúdo instrutivo, chamamos-lhe “conhecimento”. Mas em nenhum momento nos lembramos daquilo que era suposto ser o ápice desta pirâmide que começa pelos dados e vai subindo pela informação e o conhecimento acima até àquilo que verdadeiramente importaria: a sabedoria. Como se chega à sabedoria na época do excesso de informação? Não há mapas. Mas há um atalho, que sempre houve: contar uma história, ouvir uma história.

Hoje, segunda-feira de um início de semana de leitores ativos, informados e contemporâneos, era suposto esta coluna de opinião, de um opinador, numa secção de opinião, dar-vos uma opinião. Mas hoje não. Não é que esteja de greve, mas recuso-me a pôr mais uma opinião ao mundo. Olhem pelo écran do vosso telemóvel: ele está cheio de opiniões. Vocês não precisam de mais uma. Mas já histórias, isso sim — vamos sempre precisar de mais uma história.