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Entrevista

“O partido vai conseguir recuperar” de Joacine, acredita dirigente do Livre

Em conversa com o PÚBLICO, o reeleito dirigente do Livre Pedro Mendonça rejeita as acusações “absurdas” feitas por Katar Moreira e recusa perpetuar o tribunal popular. Mas confirma que as tensões já se arrastam desde a campanha eleitoral.

Pedro Mendonça foi reeleito para a direcção que conduzirá o partido durante os próximos dois anos Daniel Rocha

Pedro Mendonça tinha 41 anos e alguma experiência parlamentar quando chegou ao Livre. Este domingo, cinco anos depois, o “ateu” que espera pelo “milagre” da resolução do conflito entre o Livre e Joacine Katar Moreira foi reeleito para a direcção do partido. Lembra que o Livre já passou por outras dificuldades e que se reergueu, apesar de primaveras mais complicadas. Fala com distância de Joacine Katar Moreira, a quem não reconhece um esforço para a resolução dos conflitos que foram crescendo desde a campanha eleitoral.

Ainda assim, acredita nas sementes lançadas pelo partido. E mesmo não sendo um homem de fé - nem alguém que se arrisca em futurologias -, quando olha para o horizonte continua a ver um Livre forte. Os resultados deste domingo são a prova da “continuidade” e estabilidade interna do partido.

Foi uma “vitória” de Joacine Katar Moreira?
De modo algum. Joacine Katar Moreira reescreveu a história. Não é nada que nos surpreenda, mas fê-lo. O que este congresso decidiu foi enviar a decisão para os próximos órgãos eleitos. E entre os 52 votantes que apoiaram essa decisão estava eu. E eu não votei [manter] confiança política em Joacine Katar Moreira. O que eu votei foi para que não acontecesse um tribunal popular neste congresso. Quando nos apresentamos em público é para ter discussões sérias e elevadas. A eleição para os novos órgãos mostra que o partido se mantém estável. A direcção, apesar de renovada em 50%, mantém as mesmas ideias, os métodos de trabalho. A assembleia, apesar de bastante renovada, também. Não entendo porque é que Joacine Katar Moreira disse que obteve uma espécie de vitória. Neste congresso, neste assunto em concreto, não há vitórias, nem derrotas. O que aconteceu foi a passagem para a decisão dos próximos órgãos.

Pedro Mendonça esteve ao lado de Rui Tavares durante todo o congresso Daniel Rocha

No sábado, Joacine Katar Moreira afirmou que o Livre tinha apoiado a sua candidatura por ser uma mulher negra e gaga, o que tinha ajudado na subvenção. Como é que responde a esta acusação?
Acho um absurdo. Nós apoiámos Joacine Katar Moreira porque ela trazia um discurso muito bem preparado sobre uma série de questões de justiça social, da luta anti-racista, da luta feminista e que são assuntos que interessam ao colégio eleitoral, como ficou provado nas primárias [método pelo qual o Livre escolhe os candidatos]. Obviamente, ficámos contentes por receber a subvenção. Seria hipócrita da minha parte não o dizer. Temos dívidas e ainda somos um partido muito pequeno, que estava a viver com base no voluntariado e nas contribuições que dávamos ao partido. Mas essa é uma acusação injusta, não é mais do que um processo de intenção que ela nos está a fazer. O Livre liderado por Rui Tavares nas eleições europeias teve 60 mil votos [mais 10 mil votos do que o necessário para receber a subvenção nas legislativas]. Além disso, em Outubro havia um novo quadro político [face às legislativas de 2015] e as pessoas não tiveram aquela tentação do voto útil, como há quatro anos. Desta vez já esperávamos receber a subvenção, mas não era esse o objectivo. O objectivo era a eleição. Essas afirmações entristecem-me. Também por todos os meus camaradas: alguns deles tinham sido pais e, antes de irem à maternidade ver o filho, estavam a entregar tempos de antena, outros que meteram férias para trabalhar para este projecto. As acusações de Joacine Katar Moreira são muito injustas. São acusações que batem muito fundo no coração das pessoas que estão nestes partidos pequenos.

Quando é que as fricções começaram?
Como saberá, o PÚBLICO tem perguntado várias vezes ao grupo de contacto e temos estado calados. Achámos que primeiro deviam saber os membros e militantes do Livre. Foi ainda a meio da campanha eleitoral que as coisas começaram a azedar. Nós tínhamos mais experiência em campanhas eleitorais do que Joacine Katar Moreira, e sabemos que as campanhas são situações tensas, em que não podemos avaliar as pessoas e onde é natural que certas quezílias aconteçam. Não valorizámos. Houve situações desagradáveis que não vou comentar. Após a eleição, as coisas azedaram tal e qual como está descrito na resolução da assembleia. Por respeito ao partido, à pessoa de Joacine Katar Moreira, a mim próprio e aos portugueses, não vou revelar os detalhes. Posso revelar que houve um corte de relações pessoais por parte da deputada que até hoje não foi reposto.

Qual foi o maior ponto de ruptura?
Foi sendo cumulativo. Foram feitas tentativas de adiar isto, tal como fizemos neste congresso. Se por um lado não varremos os problemas para baixo do tapete, como fazem muitos partidos em que mandam os deputados para a última fila, e enfrentámos os desafios, por outro, essa exposição tem sido difícil. Agora vamos seguir todos os regulamentos e vamos esperar um milagre. Eu, como ateu, aguardo.

Foi o “pontapé no estaminé” de que estavam à espera?
Não. O “pontapé no estaminé" era uma agitação que era necessária para chamar a atenção para certos temas. Não era para afrontas. Nem era para criar divisões no partido. Felizmente, as divisões não surtiram efeito, como se nota no resultado eleitoral de ontem, porque esta nova direcção foi eleita com mais de 85% dos votos.

O dirigente do Livre afirma que as tensões começaram ainda na campanha, mas agravaram-se depois das eleições Daniel Rocha

Percebemos pelo discurso de vitória que as primárias do partido vão “ser melhoradas”...
Sem nunca serem postas em causa, até porque o modelo é ideológico. É um modelo que pretende dar acesso a cidadãos comuns, que se possam apresentar e ser candidatos. Para o Livre, trata-se de oferecer uma escolha o mais democrática possível. Mas o modelo terá obviamente de ser melhorado. Vamos trabalhar nisso, nos nossos grupos de trabalho e círculos mediáticos. Haverá um congresso para a alteração de estatutos e de regras. Só não aprende com os erros quem é burro.

Que balanço faz do congresso?
Com excepção de uma ou outra situação que me escuso a comentar, faço um balanço muito positivo. Sem estar habituado a este mediatismo, com uma sala cheia de jornalistas e observadores e com uma tensão emocional que poderia levar a algum descambar, o partido, ao qual senti muito orgulho em pertencer, mostrou ter pessoas que sabem discutir, que sabem discordar, mas que sabem trabalhar juntas para um mesmo objectivo que é criar a esquerda verde europeísta em Portugal.

O Livre vai conseguir recuperar deste momento?
O partido vai conseguir recuperar. Tem membros e quadros suficientes, e felizmente a aumentar e sem abandonar o barco, com qualidade suficiente para continuarmos por cá e darmos os nossos contributos, a nível local, nacional e europeu. Pode-nos correr mal a curto prazo ou médio prazo, mas este partido e estas ideias são para continuar. As pessoas assim o querem. Quando se lança uma semente, uma ideia nova, transformadora e diferente, dificilmente essa semente morre. Às vezes demora mais tempo a brotar nova flor. Nem em todas as primaveras a colheita é boa. Mas a procura de mais liberdade, de uma Europa melhor, de uma ecologia verdadeira e de uma esquerda com redistribuição não estalinista e não comunista é uma ideia que há-de tornar a dar fruto.