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Militares portugueses já salvaram mais de 14 mil migrantes no Mediterrâneo

Marinha, Polícia Marítima e Unidade de Controlo de Costa da GNR estão ao serviço da agência Frontex, da União Europeia, e operam no sul de Espanha e de Itália e em várias ilhas gregas.

LUSA/JOSE SENA GOULAO

A Armada a operar no sul e de Espanha e de Itália, a Polícia Marítima (PM) na ilha grega de Lesbos e a GNR nas de Samos e Chios, todas ao serviço da agência Frontex da União Europeia (UE), já salvaram 14.151 migrantes desde 2014 das águas do Mediterrâneo. Os primeiros já resgataram 1600 migrantes; os segundos salvaram 6676 — destes, os últimos 40 foram resgatados na madrugada da passada sexta-feira; e a Unidade de Controlo Costeiro da GNR 5875

Proteger as fronteiras da UE, combater os passadores de migrantes e resgatar as pessoas em perigo, são os pilares centrais destas missões de segurança marítima em que participam as forças portuguesas.

A Marinha está neste tipo de missões no sul de Itália e no sul de Espanha desde 2005, mas só em 2014, quando começou a grande crise dos migrantes, resgatou do mar as primeiras pessoas, com o Navio Patrulha Oceânico Viana do Castelo a recolher 585 no âmbito da operação Triton. Já em 2015, na missão Indalo, o mesmo navio salvou mais dez migrantes.

O número mais elevado de salvamentos registou-se já em 2018, com o navio Francisco de Almeida a salvar 802 pessoas, no âmbito da operação Themis.

Nas operações de segurança Marítima em que esteve envolvida no Mediterrâneo Central e Oriental, desde 2005 até hoje, a Marinha Portuguesa empenhou dez navios diferentes, cinco deles por mais de uma vez, envolvendo cerca de 1200 homens e mulheres da Armada. Os navios da Marinha Portuguesa já percorrerem cerca de 383 mil milhas marítimas nestas operações, o equivalente a uma volta ao mundo.

“São missões que a Marinha encara com grande profissionalismo e não são apenas de protecção de fronteiras. São também de busca e salvamento, envolvendo pessoas muito fragilizadas”, disse ao PÚBLICO o comandante da Marinha Madaleno Rocha.

Este oficial, que já participou em três missões da UE — uma no terreno, no sul de Itália, e duas em centros de comando, em Roma e Madrid , diz que as maiores dificuldades neste tipo de operações são de nível emocional. “Resgatamos crianças que podiam ser nossos filhos, mulheres que podiam ser as nossas e pessoas mais velhas que podiam ser os nossos pais. Gente muito fragilizada e em grandes dificuldades. Somos profissionais, mas isto mexe muito com as pessoas”, explica Madaleno Rocha.

Por isso os homens e mulheres da Marinha têm apoio psicológico sempre que o solicitarem e, antes de cada missão, têm acções treino em que são simuladas todas as situações que possam ocorrer no mar. “Os militares já levam ferramentas para estarem preparados para tudo e isso facilita o trabalho na missão, mesmo na questão emocional”, acrescenta o oficial.

PM salvou 73 migrantes só na semana passada

Na sexta-feira, a Polícia Marítima dava conta dos resultados da sua última missão no Mar Egeu, junto à ilha grega de Lesbos, no Mediterrâneo central, onde a força portuguesa está baseada. Na madrugada deste dia, resgatou 40 migrantes: 11 crianças, dez mulheres e 19 homens.

Já quarta-feira tinha interceptado um bote com 33 migrantes a bordo, dos quais 12 crianças (incluindo um recém-nascido), 11 mulheres e dez homens, que entregou às autoridades gregas. A presença de crianças e de recém-nascidos é uma constante nos botes dos traficantes de pessoas nestas operações de busca e salvamento.

Estas duas operações elevaram para 6676 o número de migrantes salvos por esta força desde 2014, quando entrou ao serviço da operação Poseidon.

Polícia Marítima

O número muito mais elevado de migrantes salvos pela PM relativamente à Marinha fica a dever-se ao facto de o tráfico de migrantes que tentam chegar à Europa ser muito mais fácil naquela zona do Mar Egeu, do que o realizado nas regiões do Mediterrâneo onde opera a Armada. E a principal razão deve-se ao facto de parte da costa da Turquia, de onde saem os migrantes, ficar a apenas 4,1 milhas marítimas da costa norte da ilha de Lesbos.

Também por isso, os meios usados pela PM são muito diferentes dos da Armada. A Marinha opera com navios de grande porte, enquanto os da PM são de pequeno porte, as chamadas embarcações de patrulha costeira.

A Polícia Marítima actua com duas embarcações e com a viatura rodoviária de detecção. A maior parte das operações é feita de noite e a viatura de vigilância costeira assume um papel fundamental, pois é ela que, através de um sistema de radar, identifica os movimentos no mar e os transmite para as lanças de patrulha costeira, que iniciam então o salvamento.

Polícia Marítima

Nos quase seis anos em que já opera no Mar Egeu, o ano de 2015, no auge da crise migrantes, foi aquele em que a PM resgatou mais gente, salvando 1838 em apenas cinco meses de missão. Este número deverá ser ultrapassado ainda este ano, já que, com o salvamento de sexta-feira, o número de pessoas resgatadas no mar já vai em 1827 em quase 11 meses de missão (de 1 de Janeiro a 15 de Novembro).

GNR fez mais de 900 patrulhas este ano

A Unidade de Controlo Costeiro da GNR participa na operação Poseidon, também no Mar Egeu, desde Abril de 2016, actuando nas ilhas de Samos e Chios, tendo já mobilizado mais de 500 militares nestas missões.

Operando com uma lancha de patrulhamento e vigilância, apoiada por um semi-rígido de alta velocidade e uma viatura de controlo costeiro equipada com câmaras de visão térmica, os militares da GNR já salvaram 5875 pessoas.

Até Outubro deste ano, os militares da Unidade de Controlo Costeiro na Grécia efectuaram mais de 900 patrulhas, o que corresponde a cerca de 5700 horas de empenhamento, detectaram mais de 220 embarcações e auxiliaram 2197 migrantes. 

Onze mil mortos no Mediterrâneo

Segundo a União Europeia, entre 2015 e 2019, já foram salvas nas operações no Mediterrâneo 470 mil pessoas. Até Outubro deste ano foram resgatados cerca de 96.100 migrantes.

Também desde 2015, mais de 11 mil pessoas morreram no mar na tentativa de chegar à Europa. A maioria dos migrantes é proveniente da África subsariana e do Norte de África.

De acordo com um relatório conjunto da Europol e a Interpol de 2016, mais de 90% dos migrantes pagaram a traficantes para tentarem chegar à Europa. Trata-se de um negócio extremamente lucrativo para as redes criminosas e com um baixo nível de risco de detecção da infracção. Só na operação Sophia, que começou em Maio de 2015, que pretende acabar com o modelo de negócio dos passadores e traficantes de seres humanos no Mediterrâneo, já foram detidos 143 presumíveis passadores e destruídas 545 embarcações.

Estima-se que a introdução clandestina de migrantes tenha gerado um volume de negócios de três a seis mil milhões de euros só em 2015. Segundo números apurados pela Marinha portuguesa ao longo das operações em que participou, cada migrante paga entre 3500 e 5000 euros aos traficantes para tentar chegar à Europa.

Só no Mar Egeu, mais de 50 pessoas morreram por afogamento desde o início do ano, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

A Grécia acolhe cerca de 70 mil migrantes, principalmente sírios que fugiram do seu país desde 2015, muitos atravessando a vizinha Turquia para depois chegarem à Europa.