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Costa não aceitou a disponibilidade de Pedroso

Interessado em voltar à actividade partidária, Pedroso fê-lo saber a Costa numa conversa entre ambos. Sem resposta concreta, saiu do PS antes das legislativas.

Paulo Pedro saiu do PS em finais de Agosto, início de Setembro Rui Gaudencio

A razão que levou Paulo Pedroso a sair de militante do PS é o facto de a disponibilidade que manifestou ao secretário-geral, António Costa, para voltar à vida partidária não ter tido resposta, soube o PÚBLICO.

Cansado de não ser solicitado nem incluído na nova fase que ia começar com as legislativas de Outubro, enviou para a sede do PS, por carta, o seu pedido de desfiliação, antes do arranque da campanha eleitoral, em final de Agosto, início de Setembro.

O PÚBLICO sabe que Pedroso teve um encontro com Costa já em 2019, em que lhe explicou que tencionava voltar a Portugal e estava interessado em regressar à actividade político-partidária. Nessa conversa, disponibilizou-se para participar na vida do PS a vários níveis e envolver-se totalmente nas actividades e objectivos do partido. Costa ouviu, conversou e não recusou a oferta, deixando no ar a hipótese de que seria analisada a melhor forma de Pedroso regressar. Os meses foram passando e Pedroso não teve respostas concretas.

A única iniciativa em que a sua colaboração foi pedida foi para o programa eleitoral. Pedroso deu contributos, fez comentários às versões iniciais do documento. Mas quando viu o programa divulgado não se reviu no texto. E quando as listas de candidatos do PS à Assembleia da República foram divulgadas, é um facto que o seu nome não constava. Também não recebeu nenhuma solicitação nem foi sondado para qualquer outro lugar no ciclo político que se anunciava com a previsível vitória do PS.

Acabou por sair antes das legislativas, embora não tenha rompido pessoal e ideologicamente com o PS. Manteve o silêncio sobre a decisão que só tornou pública na segunda-feira, através da sua página no Facebook, num texto de apoio a Carlos Silva, secretário-geral da UGT, que anunciou, em entrevista ao Porto Canal, não ser candidato a novo mandato no congresso do próximo ano, por divergências com António Costa.

Ao afastar-se do PS, Pedroso optou por passar a fazer intervenção cívica e ser publicista no Diário de Notícias, mas esperou pelo resultado das eleições para escrever a primeira crónica. Durante os meses em que esperou, Pedroso amadureceu a decisão de sair ao ir sentido um progressivo afastamento do PS, partido de que foi membro da comissão política na liderança de Ferro Rodrigues, de quem era olhado como o sucessor.

Isto depois de ter sido secretário de Estado do Emprego e Formação e depois ministro do Trabalho e da Solidariedade Social nos governos de António Guterres (1995-2002). Foi ele, como secretário de Estado, quem preparou a introdução em Portugal do Rendimento Mínimo Garantido.

O percurso político de Pedroso foi interrompido a 21 de Maio de 2003, ao ser detido dentro do edifício do Parlamento, como arguido no processo Casa Pia, sob acusação de crimes de abuso sexual de menores. A 8 de Outubro foi libertado, por decisão do Tribunal da Relação. Mas em Dezembro, foi formalmente acusado pelo Ministério Público, uma acusação que não fez caminho.

Em Maio de 2004, a juíza de instrução criminal​ conclui não haver matéria para levar Pedroso a julgamento. Já em 2018, a 12 de Junho, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para o qual Pedroso recorreu, condenou o Estado português pela forma como o então deputado foi mantido em prisão preventiva, e decretou o pagamento de uma indemnização de 68 mil euros.

Afastado da política há 17 anos, Pedroso fez uma tentativa de regresso, em 2009, ao ser o candidato do PS à Câmara de Almada, sob a liderança de José Sócrates. Perdeu para a reeleita candidata do PCP, Maria Emília de Sousa, e afastou-se de novo.

Desde que o seu nome foi associado ao processo Casa Pia, Paulo Pedroso sofreu uma espécie de ostracismo em Portugal, optando por uma carreira internacional. Actualmente, é o administrador nomeado pelo Governo português no Banco Mundial desde 2018, cargo que deixará em Fevereiro para voltar a dar aulas no departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE.