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Cavaco quer saber por que razão Portugal cresce menos que o Leste

Em entrevista à Rádio Renascença, o ex-Presidente da República admite que o aumento da idade da reforma se pode estender até aos 80 anos e defende que Portugal não será muito prejudicado com o “Brexit”, sobre o qual se confessa desiludido politicamente.

Miguel Manso

“Porque é que países do leste europeu estão a ultrapassar Portugal em termos de desenvolvimento? Porque é que Portugal está a crescer menos do que países como a Espanha, Chipre e a Irlanda, que também estiveram sujeitos a programas de ajustamento? Porque é que as previsões de crescimento da Grécia são superiores a Portugal?”

Estas são as “questões-chave” que se colocam à economia portuguesa neste momento na leitura de Aníbal Cavaco Silva, que está preocupado com o facto de a taxa de crescimento portuguesa ser “muito, muito inferior” à dos países do seu pelotão - os do Leste. O ex-Presidente considera que o assunto deveria ser o “tema central do debate entre as forças políticas”, que têm que se questionar sobre as causas deste cenário tão desfavorável.

Cavaco Silva insiste no aviso que já fizera há dois meses: se as previsões de abrandamento do crescimento se concretizarem, Portugal “dá mais um passo que pode fazê-lo chegar a ser a ‘lanterna vermelha’ dos 19 países do euro”.

Numa entrevista à Rádio Renascença, o antigo chefe de Estado adianta também as suas explicações para esse fraco desempenho nacional: “Opções erradas feitas no domínio fiscal, opções erradas no domínio da despesa pública, a baixa produtividade de Portugal, a falta de investimento que está ainda muito aquém da trajectória que tinha antes de 2011.”

Defende que a presença de Portugal na União Europeia é “benéfica” para o desenvolvimento do país - pelos fundos estruturais que recebe, pelo acesso livre a um mercado de mais de 500 milhões de pessoas, e pelo apoio do Banco Central Europeu. Mas realça que essa presença na União Económica e Monetária “não impede que os Governos possam cometer erros - o que sucedeu com um Governo que tomou políticas erradas e que nos levou à situação de quase bancarrota do país, em princípios de 2011”, acrescenta, deixando a crítica ao executivo de José Sócrates.

Desiludido com o Reino Unido

Questionado sobre o recente estudo que aponta para a necessidade do aumento da idade da reforma para os 69 anos para assegurar a sobrevivência do sistema de Segurança Social, Cavaco Silva não se surpreende e cita um livro que está a ler – Uma vida de cem anos – que prevê precisamente o sucessivo aumento da idade limite para a reforma que, diz, perto de 2050 estará “não muito longe dos 80 anos”. A explicação está também no aumento da esperança média de vida que para um cidadão nascido em 2007 é de 104 anos, com uma probabilidade de 50%.

Acerca do complicado processo do Brexit, Cavaco Silva diz que preferia que o Reino Unido “continuasse a ser um membro de pleno direito da União Europeia”, mas refere que pensava que “este era o último país onde imaginaria ser possível suceder um caos político” como o actual. Por isso, acrescenta: “Mas, por tudo a que assisti nos últimos tempos - e também porque enquanto primeiro-ministro durante dez anos assisti a algumas atitudes britânicas em que estavam com um pé dentro e um pé fora - penso que agora é melhor que o Reino Unido saia da União Europeia.”

Daí que refira que “não se pode excluir nada” num cenário futuro – seja a saída ou a permanência. “Eu sempre vi, na democracia britânica, um exemplo. Tinha um enorme gosto no funcionamento daquela democracia e agora é uma desilusão total.”

Apesar de tudo, Cavaco Silva não acredita que Portugal seja dos países mais prejudicados pelo Brexit – como acontecerá, por exemplo, com a Holanda, a Bélgica ou a Irlanda -, já que as exportações nacionais para o Reino Unido não chegam aos 3% e o turismo britânico para Portugal “depende mais da depreciação da libra esterlina do que das facilidades que resultam de um Brexit suave”.