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Desobediência ou solidariedade? Nuno filmou o vale francês que abre a porta aos migrantes

Nuno Escudeiro encontrou num grupo de “cidadãos comuns” a “solidariedade” que faltava mostrar nos documentários sobre migração. O premiado The Valley segue uma comunidade que começou a albergar refugiados nas suas casas. É, também, uma chamada à acção.

Começaram por dar comida a quem viam chegar a pé, exaustos, pelo meio das montanhas. “E depois”, vemos sorrir um dos habitantes do vale de Roya, nos Alpes franceses, “depois…”. Depois, as acções humanitárias daquela comunidade na fronteira franco-italiana tornaram-se políticas. Jurídicas. Mediatizadas. Altamente policiadas. E um hino a um dos três pilares da democracia francesa: fraternité (fraternidade).

Naquele vale, passa-se um pedaço de história que Nuno Escudeiro, realizador de 32 anos, raramente via discutida quando se fala em refugiados que, neste caso, fogem de África e procuram asilo na Europa. “Sempre senti que não houve uma responsabilização por parte da sociedade civil”, diz, ao telefone com o P3. Isto até conhecer pessoas como Cédric Herrou, um agricultor com uma plantação de oliveiras que já foi várias vezes detido e julgado por não conseguir ignorar “o caos que se estava a passar imediatamente atrás da sua propriedade”.

Nuno Escudeiro, realizador.

The Valley segue os “actos de solidariedade” — para uns, de desobediência civil, para outros — de “cidadãos comuns”, como Cédric, que alteram rotinas diárias e abrem a porta de casa a pessoas que estão de passagem, depois de arriscarem a vida numa viagem com poucas certezas. Não é sobre esta travessia que fala o documentário que valeu a Nuno Escudeiro o prémio de Melhor Realizador Emergente Internacional no Hot Docs, o festival canadiano onde o filme se estreou (ainda não há datas de exibição em Portugal). Já há “muitos outros” filmes que falam sobre o assunto, diz-nos agora. Ao realizador tomarense importava mostrar “humanidade”. É por isso que The Valley é, também, uma chamada à acção. Como diz um advogado que trabalha com o grupo, a certa altura, no filme: “Muitas vezes, enquanto cidadãos, dizemos: Porquê eu e não os outros? E normalmente paramos por aí.” 

Eles não. Os membros da associação Roya Citoyenne, a​lém de providenciarem comida, abrigo e ajuda legal, transportam migrantes “em situação irregular” — um crime — tentando passar pelos vários bloqueios policiais que, entretanto, começaram a vigiar o vale. “Tu hoje se lá fores a cada cinco quilómetros vês um carro da polícia”, descreve o realizador que durante dois anos e meio visitou a zona. Uma forma de “pressão” para dividir e enfraquecer as acções da comunidade, acredita, que também tem opositores entre os vizinhos franceses. Em Abril, depois de a equipa responsável pelo documentário deixar o vale, um dos membros da associação, que albergava na altura seis nigerianos, foi agredido, em casa, por “15 pessoas”.

Desde que deixou Portugal, há sete anos, Nuno Escudeiro viveu na Finlândia e depois em Itália. Para este filme acontecer, mais importante ainda foi o realizador ter vivido “sempre junto de fronteiras”. “Conseguimos saber mais sobre a identidade de um país quando estamos na fronteira e vemos o contraste do outro lado.” É lá, analisa, que se questiona “realmente o que é um país”. Foi também junto a essas fronteiras europeias que o realizador começou a conhecer pessoas que ajudavam refugiados — sempre de forma clandestina. Mas em Roya e Durance os grupos de auxílio eram vocais, andavam à procura de mais membros, começavam a desafiar o próprio Estado francês. E a sentir as “repercussões” dessas decisões. 

<i>The Valley </i>

A relação entre migrantes e cidadãos com polícias e militares está no centro de alguns dos momentos mais tensos do documentário. “Tudo está ali muito presente naquela área. E tu consegues senti-lo”, lembra-se Nuno. Cédric Herrou, que consegue ver os carros da polícia enquanto anda pelo meio dos olivais, acusa-os de o deixarem “paranóico”.

Há quem acuse as autoridades de “distorcerem a lei”, “mentirem” e “forjarem documentos oficiais” de forma consciente para enviarem migrantes, muitos deles menores de idade, de volta para Itália, sem registarem o pedido de asilo. Desde que a fronteira entre Ventimiglia e Menton foi fechada, as autoridades locais foram condenadas por 417 violações de direitos humanos. Culpa de “medidas usadas para comunicar medo e não para estar do lado da dignidade humana”, acredita Nuno, que defende que “pouca coisa mudou” na sequência de políticas como o fecho dos portos. 

O fluxo migratório que o fecho da fronteira não conseguiu travar é concretizado numa imagem do filme onde se vê, ao amanhecer, uma fila de dezenas de pessoas a descerem pela montanha em direcção à cidade.“Eu perguntou-me: como é que chegamos aqui? Foi possível passo a passo. Habituamo-nos a isto”, discursa Cédric em frente a uma pequena plateia a quem apela: “É importante continuarmos a repetir: Isto não é normal. Nós não podemos nunca nos habituar a isto.”