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Opinião

O tempo de Boris Johnson

Nos próximos meses o ambicioso Boris Johnson poderá ganhar o seu espaço na história. O político britânico que tem por hábito adornar as suas posições políticas com uma capa de diletantismo e humor, tornou-se um sério candidato a primeiro-ministro do Reino Unido e, consequentemente, executor final do interminável “Brexit”. 

Johnson nasceu no seio de uma família de classe média alta com raízes multiculturais e multiétnicas (a sua árvore genológica é um melting pot que inclui judeus russos e muçulmanos turcos), tendo vivido a sua infância em Nova Iorque e Bruxelas, antes de se fixar na sua pátria britânica. À semelhança de outros políticos, estudou em Eton e em Oxford, tendo iniciado a carreira profissional na comunicação social onde se tornou célebre pelo seu euroceticismo cortante. A fama trouxe-lhe não só reconhecimento e admiração, mas também a crítica e acusações diversas de racismo, homofobia, falsas citações e contradições, que Johnson catalogou sempre como más interpretações. 

A sua carreira política, que já tinha sido testada na juventude em associações estudantis universitárias, ganha dimensão com a eleição para deputado em 2001. No ano de 2012 torna-se um peso pesado tory quando ganha as eleições para mayor de Londres, onde cumpriria dois importantes mandatos que incluíram a organização dos populares Jogos Olímpicos. Mais recentemente, com o agendamento do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), Boris Johnson destacou-se como uma das principais figuras a liderar a campanha pelo leave. Neste período, Johnson ganhou o palco que precisava para se mostrar aos britânicos como um futuro líder dos tories e primeiro-ministro. 

Boris Johnson é ideologicamente um conservador, com laivos de libertarismo social e económico, que encara a UE como um monstro burocrático que limita o exercício da soberania e asfixia o potencial mercantil do Reino Unido. Noutra dimensão, o camaleónico líder joga com as duas faces da mesma moeda — faz a apologia do elitismo tão querido entre conservadores, mas usa a fórmula ganhadora do populismo, criticando o taticismo e cinismo das elites pela não concretização do “Brexit” desejado pela população britânica. 

O momento para Johnson chegar ao poder é único. O Partido Conservador está “em cacos”, desacreditado pelo insucesso do “Brexit"; e a desgastada população britânica deixou de tolerar posições tímidas e ambíguas de saída ou permanência na UE. Boris Johnson representa o contrário de tudo isto — o líder conservador é um brexiteer desde a primeira hora, tendo-se preparado para este momento desde sempre, e tem altos níveis de popularidade junto dos seus pares conservadores. 

Adicionalmente, a própria UE está cansada da incerteza que paira sobre a saída do Reino Unido, sendo cada vez mais aceite um eventual hard brexit como forma de desbloqueio de um impasse que prejudica a Europa. Neste sentido, Johnson constitui-se o melhor candidato do momento para Bruxelas. 

Johnson é também o candidato mais agregador da direita britânica, cada vez mais extremada. É o conservador ideal para anular o fenómeno Nigel Farage que, com o seu Brexit Party, ganhou as últimas eleições europeias contando com o apoio de eleitorado tipicamente conservador. 

Depois de se tornar primeiro-ministro em julho (a não ser que as suas mediáticas discussões conjugais manchem fatalmente a sua candidatura), o líder conservador irá trabalhar no seu desígnio político original — a saída do Reino Unido da UE e a promessa de um futuro soberano e próspero. A partir de outubro ficaremos a saber se este é o tempo de Boris Johnson, ou se o líder tory será apenas mais uma das vítimas políticas do Brexit.