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Opinião

Xi Jinping: era uma vez um autocrata que deu uma mãozinha ao vírus

Os autocratas não respondem perante o eleitorado e por isso são péssimos gestores de catástrofes. As democracias não evitam as catástrofes, mas limitam o seu potencial mortífero.

Poucos dias depois do reconhecimento pelas autoridades chinesas da crise do novo coronavírus, o nosso espaço público encheu-se de odes à eficácia do regime chinês. Ele era a construção de dois novos hospitais, variando as notícias na duração da construção, entre os 6 e os 12 dias, mas concordando no regozijo do “tempo recorde”. Ele era a decisão inédita de parar uma cidade de vários milhões de habitantes, uma medida de eficácia duvidosa agora que sabemos que já tinha passado o momento certo para fazer o óbvio para estancar a epidemia: reagir aos primeiros sinais.

Na quarta-feira, o The Guardian noticiou que, agora que os hospitais estão construídos, só falta chegarem os pacientes. Um deles, com uma capacidade de 1600 camas, tem apenas 90 doentes, de acordo com o site de notícias chinês Caixin, apesar da Comissão Municipal de Saúde da cidade de Wuhan reportar que todas as camas estão ocupadas. Aconselho a leitura das três partes da reportagem In Depth: How Wuhan Lost the Fight to Contain the Virus neste site. Há pacientes que são enviados para casa ou para outro hospital, onde se deslocam pelos próprios meios e sem sistema de referência centralizado. A situação nas salas de urgência é caótica, com pessoal médico exausto e sobrecarga de doentes. Relatos que colidem com a fábula do país eficiente e rápido a reagir.

Segundo a Freedom House, uma organização não governamental que trabalha no domínio da democracia e dos direitos humanos, o site Caixin é um dos poucos órgãos de comunicação na China que vai resistindo com alguma independência. Em fevereiro de 2018, um artigo da Freedom House referia que em 2017 havia apenas 175 jornalistas de investigação na China, uma diminuição de 58% relativamente a 2011. Repare: 175 pessoas a tentar dizer a verdade, numa população de 1400 mil milhões. É obra. Também explica a forma como o regime foi apertando o controlo das redes sociais, que chegaram a ser utilizadas pelos repórteres como canais alternativos à censura dos meios mais tradicionais. As aplicações de partilha de conteúdos são obrigadas a utilizar um algoritmo de que coloca notícias sobre a Nova Era de Jinping no topo dos feeds dos utilizadores. Em 2016, o governo proibiu temporariamente a partilha de conteúdos do Caixin por outros sites noticiosos, o que acabou por dificultar a situação financeira da publicação, que optou por um regime de subscrições pagas, assim limitando o alcance do seu trabalho informativo. O artigo termina de forma premonitória: “Podemos imaginar as histórias que seriam trazidas a lume, os responsáveis que seriam responsabilizados, e as vidas que seria salvas se os jornalistas de investigação no país tivessem rédea livre para fazer o seu trabalho”. 

Os autocratas não respondem perante o eleitorado e por isso são péssimos gestores de catástrofes. A hipótese de que as democracias evitam crises de fome generalizada foi avançada nos anos 90 por Amartya Sen, que ganhou o prémio Nobel da economia em 1998. Tim Besley e Robin Burgess mostraram em 2002 no artigo The Political Economy of Government Responsiveness: Theory and Evidence from India que os estados indianos onde a imprensa é mais livre respondem com mais ajuda alimentar quando há crises agrícolas causadas por inundações. Em 2005, Matthew Kahn publicou o artigo The Death Toll from Natural Disasters, onde mostra que as catástrofes naturais como terramotos, ondas de calor, inundações ou aluimentos de terras causam menos vítimas em democracias. As democracias não evitam as catástrofes, mas limitam o seu potencial mortífero.

Da mesma forma, o sistema repressivo chinês não criou o vírus, mas desempenhou um papel fundamental na sua propagação. O médico Li Wenliani (que viria a morrer com a infeção) foi silenciado pelas autoridades locais quando assinalou o surto de pacientes com uma infeção respiratória desconhecida. O sinal de alarme foi considerado um perigo para a ordem pública. A polícia de Wuhan chegou a anunciar com pompa o castigo a oito pessoas que tinham espalhado “rumores online”. As autoridades locais espalharam informação falsa para controlar a “ordem pública”, assegurando que o vírus não se transmitia entre seres humanos e que não havia pessoal médico infetado. Assim se perdeu um tempo crítico para estancar o contágio no seu início.

A eficácia com que o regime cuida da sua imagem contrasta com a má gestão logística da crise. O jornalista e ativista de direitos humanos Chen Quishi, que tinha ido para Wuhan acompanhar a situação e a partilhava com os seus milhares de seguidores no Twitter e Youtube, desapareceu há uma semana. O professor de direito Xu Zhangrun denunciou o “coração podre da governança chinesa”, responsabilizando diretamente Jinping pela pandemia. Xu Zhangrun está suspenso da universidade devido a críticas que fez no passado ao líder chinês, e por isso utiliza o código “The Axelrod” para o referir no seu texto.

Como qualquer bom autocrata, Xi Jinping já escolheu os bodes expiatórios e afastou as autoridades locais pela atuação pouco célere e ineficaz, como noticiou o PÚBLICO ontem. Não nos vamos deixar enganar por mais esta manobra de propaganda. O maior culpado por esta catástrofe é Xi Jinping. Com a ajuda dos líderes de países democráticos que têm fechado os olhos à sua ditadura high-tech. Por um punhado de Yuans e várias centenas de mortos.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico