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Xi e o coronavírus, uma guerra pelo controlo da China

Uma purga na direcção do Partido Comunista Chinês da província de Hubei, a mais afectada pelo novo coronavírus, pôs homens da confiança do Presidente Xi Jinping a controlar uma crise que é o momento mais difícil da sua governação.

Xi Jinping de visita a um bairro de Pequim, na segunda-feira, dia 10 JU PENG /XINHUA/EPA

O episódio é relatado por Elizabeth Economy, especialista em China do Council of Foreign Relations (CFR), uma organização norte-americana. Em San Diego, quando o embaixador da China nos EUA subiu ao pódio para fazer um discurso, um jovem chinês levantou-se da plateia e gritou: “Xi Jinping, demita-se!”.

O jovem foi rapidamente dominado pela segurança, e a história ficou por ali. Nas redes sociais chinesas têm surgido apelos à demissão do Presidente Xi. Mas o mais comum são desabafos de indignação com a forma como tem sido gerida a crise de saúde pública do novo coronavírus, que brotam como gritos suprimidos, para rapidamente serem abafados e desaparecer.

Na verdade, o Presidente da China, e líder do Partido Comunista Chinês, que concentrou em si toda a autoridade, passou semanas praticamente desaparecido da gestão do coronavírus, que esta quinta-feira chegou a 1367 mortos na China, mais 254 que no dia anterior – a maior subida jamais registada. Em toda a China continental, há 15.152 novas infecções confirmadas, elevando o total para 59.805, anunciou a Comissão Nacional de Saúde.

Esta subida deveu-se a uma reformulação na forma como são diagnosticados os casos de infecção com coronavírus – em vez de serem considerados apenas casos confirmados por análises que procuram o ARN do vírus, passam a fazer-se TAC aos pulmões de quem se suspeita estar infectado, em busca de sinais de pneumonia, por ser mais rápido. Mas esta mudança lança uma grande incerteza sobre a real dimensão da epidemia na China, dizem especialistas.

A mudança vai fazer com que casos que antes eram considerados apenas suspeitos vão agora ser dados como confirmados. E também podem ser incluídas pessoas que têm pneumonia causada por outros agentes que não o coronavírus, frisou ao Guardian Paul Hunter, virologista da Universidade de East Anglia (Reino Unido). “Como é que vamos determinar a trajectória do surto, quando a definição dos casos muda a meio?

Liderar da rectaguarda

“Xi Jinping deixou a tarefa de visitar hospitais e confortar doentes em Wuhan para o primeiro-ministro Li Keqiang e o vice-primeiro-ministro Sun Chunlan”, explicou Elizabeth Economy, directora de Estudos Asiáticos do CFR, num artigo no site da instituição. “Uma interpretação cínica disto seria que Xi está a criar múltiplas camadas para poder negar de forma plausível que estaria a gerir mal a crise”, frisou.

Mas Xi Jinping pôs fim esta semana a esta posição de “liderar a partir da retaguarda” quando, num acto pouco comum, visitou um bairro de Pequim – com uma máscara no rosto –, contactando directamente com as pessoas, e visitou um hospital.

Ao impor uma quarentena de massas a 56 milhões de pessoas – mais que toda a população da Coreia do Sul –, vendo-se braços com fábricas obrigadas a encerrar, voos cancelados e uma população em stress por causa de uma nova doença, potencialmente mortal, sem tratamento conhecido, Xi Jinping enfrenta o maior desafio desde que chegou ao poder, em 2012.

“Quanto mais tempo durar esta crise, mais provável se torna que a credibilidade a longo prazo da governação de Xi Jinping seja afectada de forma negativa na sociedade chinesa”, comentou Elizabeth Economy.

O secretário-geral do Partido Comunista de HubeiJiang Chaoliang, foi substituído esta quinta-feira pelo ex-presidente da câmara de Xangai e grande aliado de Xi JinpingYing Yong. Foi ainda demitido Ma Guoqiang, o líder do Partido Comunista de Wuhan, substituído por Wang Zhonglin, secretário do partido em Jinan, capital da província de Shandong. Na terça-feira, dois altos responsáveis de Saúde da província de Hubei tinham já sido afastados: Zhang Jin, secretário do partido no Comité de Saúde de Hubei, e Liu Yingzi, director desse mesmo comité.

Os poderes de decisão estão concentrados – nas mãos das lideranças de topo do Partido Comunista, muitas no próprio Xi. “O Estado chinês é tão centralizado que a informação fica presa em engarrafamentos e muitas vezes não chega aos que mais precisam dela. O ex-presidente da câmara de Wuhan disse numa entrevista à televisão no fim de Janeiro que passou a informação às autoridades competentes, mas que não tinha sido autorizado a revelá-la”, contou Elizabeth Economy.

O facto de terem sido permitidas discussões na Internet, um meio que é alvo de controlo e censura, deixava antever que estas lideranças seriam sacrificadas – e foi o que aconteceu esta quinta-feira, pouco tempo depois de Xi Jinping ter ocupado a vanguarda da “guerra”, como lhe chamou, contra o coronavírus. “Atirar a culpa para as autoridades locais alivia-os da sua própria responsabilidade, é uma táctica com resultados comprovados”, escreveu no Le Monde a sinóloga Chloé Froissart, da Universidade de Rennes 2.

Reflexo totalitário

Mas as denúncias de cidadãos comuns não serão toleradas. A prová-lo está o desaparecimento do advogado Chen Qiushi, na semana passada. O cidadão-jornalista registou vídeo pontos negros do desastre sanitário na cidade de Wuhan: hospitais onde os doentes se acumulam nos corredores, onde faltam kits de diagnóstico, famílias de vítimas. Esta quinta-feira, outro vídeo blogger que percorria os hospitais de Wuhan, Fang Bin, e chegou a filmar uma pilha de sacos de cadáveres num minibus, foi também dado como desaparecido, noticiou o jornal The Guardian.

Além disso, numa demonstração que esta crise de saúde pública já não será apenas tratada como tal, os novos dirigentes nomeados para a província de Hubei e cidade de Wuhan, além de serem da confiança de Xi, têm forte perfil no sector da segurança, disse no Twitter Jun Mai, correspondente do jornal de Hong Kong South China Morning Post.

“Esta epidemia revela um regime corroído pela sua matriz totalitária que o Presidente Xi Jinping se esforçou por ressuscitar. Sublinha o descrédito o seu ‘sonho chinês’: o de um modo de governação infalível”, escreve Chloé Froissart, que critica abertamente a Organização Mundial de Saúde (OMS), como o fazem aliás muitos outros analistas especializados em China, por se mostrar tão pronta a contemporizar com Pequim. A OMS é criticada não só por não ter declarado emergência pública internacional mais cedo, mas também por negar-se a permitir a Taiwan participar directamente nas reuniões sobre o coronavírus (o país não faz parte da organização), abrindo uma excepção devido à gravidade da doença, apesar de haver apelos nesse sentido de vários países.

Mas quer tudo isto dizer que a liderança, ou o sistema de poder criado por Xi Jinping está ameaçado? “O sistema de governação de Xi protege-o de consequências políticas significativas da epidemia, embora também tenha criado as condições que permitiram ao vírus espalhar-se tão rapidamente”, avalia Elizabeth Economy. “Mas, se o número de mortos e os custos continuarem a aumentar, o Governo pode ter dificuldades em desviar a culpa [para as autoridades locais] e a credibilidade de Xi e do Partido Comunista pode ficar chamuscada”, previu.

Segundo os media estatais, o Presidente Xi Jinping assegurou que os objectivos de desenvolvimento anuais de 2020 serão mantidos, apesar dos impactos económicos do coronavírus, que obrigaram ao encerramento de fábricas e outras empresas. Pelo menos no primeiro trimestre, o novo vírus implicará um crescimento económico abaixo das previsões.

Mas na reunião da semana passada do comité permanente do politburo do Partido Comunista Chinês, o próprio Xi reconheceu que a crise do coronavírus é um desafio político de grande magnitude, diz o South China Morning Post. Descreveu-a como “um grande teste” ao sistema de governação. “Devemos avaliar esta experiência para tirar lições”, diz a comunicado final do encontro – que, no entanto, remeteu essas “lições” para o campo “técnico”, diz o jornal de Hong Kong.