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O voto é a arma que se segue na batalha do “Brexit”

Perdido há mais de três anos no processo de saída da UE, Reino Unido procura uma via de fuga nas legislativas de quinta-feira. Partido Conservador aponta à vitória e à maioria parlamentar e o Labour tenta contrariar o pessimismo.

46 milhões de britânicos decidem, na próxima-quinta-feira, a composição da Câmara dos Comuns de Westminster EPA/MICHELE TANTUSSI

O agendamento, no final de Outubro, de eleições antecipadas, e o início da campanha eleitoral, dias depois, permitiram ao Reino Unido refrear o ritmo intenso dos últimos meses, marcados por reviravoltas políticas, negociações infinitas e votações dramáticas no Parlamento, sempre com o “Brexit” na mira. Mas o maior conflito político da história britânica (e europeia) recente é retomado na quinta-feira. Não em Westminster, ou em Downing Street, como tem sido habitual, mas nos milhares de mesas de votos espalhadas pelos 650 círculos eleitorais de um país cada vez mais dividido entre candidatos, eleitores e meios de comunicação social brexiteers ou remainers.

Convocadas pelos líderes políticos para ultrapassar a falta de maiorias na Câmara dos Comuns para qualquer um dos caminhos do “Brexit”, as eleições de dia 12, as segundas legislativas em dois anos – terceiras desde 2015, com um referendo à Europa e eleições europeias pelo meio – são um importante barómetro às diferentes propostas dos partidos britânicos para a resolução do processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

Tirando a pretensão de aumento do investimento público britânico, que ambos partilham – mesmo que com cálculos diferentes –, Boris Johnson, primeiro-ministro conservador e favorito à vitória, e Jeremy Corbyn, líder trabalhista e concorrente outsider, divergem em tudo o resto. Com destaque, naturalmente, para a estratégia para o “Brexit”, transformada, pelas características desta eleição, pelo contexto em que foi convocada e por insistência do Partido Conservador, não no seu tema único, mas no seu tema fundamental.

Os quase 46 milhões de eleitores registados serão chamados a escolher entre um Partido Conservador que lhes garante o “Brexit” até Janeiro de 2020 e o investimento em serviços e infra-estruturas, ou um Partido Trabalhista que, prometendo o maior investimento social das últimas décadas, pretende renegociar o acordo de saída e levá-lo a referendo, a par da permanência, no espaço de apenas seis meses.

“Se os conservadores vencerem [as eleições], conseguiremos finalmente avançar com o ‘Brexit’. Se Corbyn chegar ao poder, teremos mais um ano de desvios e atrasos. 2020 será um ano perdido”, resume Johnson.

Nesta guerra de trincheiras, a escolha dos britânicos não se limita, naturalmente, a tories ou trabalhistas. Liberais-Democratas, Partido Nacional Escocês, Partido Verde e Plaid Cymru acenam-lhes com a bandeira remainer, ao passo que Partido do Brexit e Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte (DUP) oferecem outra abordagem à posição eurocéptica dos conservadores.

Realinhamento em marcha

Para além dos últimos meses alucinantes, para trás ficam ainda três anos e meio de tentativas falhadas, promovidas tanto pelo Governo como pelo Parlamento, para se encontrarem consensos mínimos, fossem pelo cumprimento da saída, pela saída sem acordo, pelo agendamento de um segundo referendo ou pelo cancelamento do “Brexit”.

Durante esse tempo, o processo de desfiliação europeia atascou-se, o país assistiu a três adiamentos do divórcio com a UE e caíram dois primeiros-ministros – Boris Johnson é o terceiro, depois de Theresa May e de David Cameron.

As sondagens dizem-nos, no entanto, que o impasse estará mais perto do que nunca de ser ultrapassado e às custas de uma provável redistribuição geográfica da representação partidária. 

Focado na promessa de cumprir o “Brexit” nos próximos dois meses e alimentando-se do enorme sentimento de frustração do eleitorado para com o arrastamento da saída, o Partido Conservador lidera nas intenções de voto de todos os inquéritos e tem elevadas possibilidades de conquistar vários círculos eleitorais tradicionalmente trabalhistas, na região Centro e Norte de Inglaterra, que votaram maioritariamente pelo Leave no referendo de 2016.

Uma sondagem recente do YouGov atribui 42% dos apoios aos tories e 33% ao Labour, estando estes em risco de perder cerca de 50 deputados – seguem-se Liberais-Democratas (12%), Partido do Brexit (4%) e Partido Verde (4%). Números suficientes para Boris Johnson alcançar a tão ambicionada maioria na Câmara dos Comuns e fazer aprovar o acordo de saída que renegociou com Bruxelas. 

“As sondagens apontam para a continuação do processo de realinhamento da política britânica, iniciado nas eleições de 2017”, considera Matthew Goodwin, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Kent, na sua newsletter semanal de análise das sondagens.

“Os conservadores estão a tornar-se num partido mais velho, mais branco, mais pró-“Brexit” e cada vez mais dependente nos não-licenciados e nos trabalhadores. Johnson ficará com um eleitorado bem diferente daquele que elegeu Cameron: socialmente conservador e mais interessado em reformas na imigração e numa abordagem mais dura contra a criminalidade”, explica o investigador. “Já o Labour aponta a melhores desempenhos em zonas do país onde há mais profissionais liberais de classe média, estudantes e minorias étnicas. “

Corbyn e a neutralidade

Se Johnson uniu esforços para transformar a eleição de quinta-feira num braço-de-ferro em redor do “Brexit” e está na calha para poder ser recompensado por isso, Corbyn optou por um caminho mais ziguezagueante, procurando responder àquilo que identificou como sintomas que justificaram o voto brexiteer – deterioração dos serviços de saúde, custo de vida elevado, precariedade e estagnação económica – com o “mais radical e ambicioso” plano social “das últimas décadas”.

“Trata-se de um programa repleto de políticas públicas que foram bloqueadas pelo establishment durante uma geração”, explicou Corbyn.

Mas o passado eurocéptico do líder trabalhista, aliado à sua insistência numa postura neutral em relação ao “Brexit”, dividiu as intenções de voto do eleitorado remainer – os LibDems, por exemplo, defendem abertamente a revogação total do pedido de divórcio – e teve o condão de atirar para segundo plano a “revolução” prometida pelo Labour. 

“Acusam-me de falar para os dois lados do ‘Brexit’, mas eu tenho orgulho nisso. Por que é que haveria de querer falar apenas para metade do país? Um primeiro-ministro deve falar e ouvir toda a gente – e voltar a unir o país”, esclareceu Corbyn.

Mas a YouGov diz que apenas 36% dos eleitores trabalhistas vê com bons olhos os planos do partido para o “Brexit” e que 48% acha que trarão “maus resultados” para o país. Mesmo que Corbyn tenha insistido que vai renegociar com a UE um acordo mais vantajoso para trabalhadores, empresas e indústrias britânicas.

“Corbyn acredita genuinamente que a habitação social, a restruturação laboral ou o investimento no serviço nacional de saúde são assuntos mais importantes do que o debate europeu”, dizia o ex-ministro, lorde e diplomata Mark Malloch-Brown, numa entrevista recente ao PÚBLICO. “A sua grande frustração é ter de disputar uma eleição sobre o ‘Brexit’ e em vez de outras causas”.

Veremos quantos votos consegue reunir a frustração de Jeremy Corbyn. Porque a eleição de quinta-feira tem o futuro do “Brexit” escrito, rescrito e carimbado em cada boletim de voto.