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Vítimas esquecidas: as crianças do Daesh

Mais de mil crianças estrangeiras, filhas de combatentes do Daesh e das suas mulheres, foram apanhadas na engrenagem da Justiça iraquiana. Algumas, com apenas nove anos, enfrentam acusações judiciais.

Laila Gazieva, viúva de um militante checheno do Daesh, com o filho Obaida ao colo Azad Lashkari/Reuters

Os corredores do Tribunal Central de Rusafa, em Bagdad, estavam cheios de crianças no dia em que as suas mães foram a julgamento. No final, as crianças desapareceram outra vez nas prisões para mulheres onde viveram no último ano e meio. Dormem em finos colchões em celas a abarrotar, desocupados, famintos e muitas vezes doentes.

São os filhos estrangeiros do Daesh.

Entre eles está Obaida, o filho de dois anos de uma mulher tchetchena, Laila Gazieva. Detida no final de 2017 quando fugia de Tal Afar, praça forte do grupo jihadista no Norte do Iraque, Gazieva foi condenada seis meses depois por pertencer ao grupo radical islamista. No dia em que foi sentenciada a prisão perpétua, pelo menos mais 12 mulheres ouviram também as suas sentenças.

O pequeno Obaida vive com a mãe numa prisão para mulheres em Bagdad. Cerca de mil crianças do Daesh estão nas malhas da Justiça iraquiana – os mais novos, como Obaida, ficam com as mães nas cadeias. Pelo menos sete dessas crianças morreram devido às condições de detenção miseráveis, segundo os testemunhos das detidas e os registos de embaixadas revistos pela Reuters.

Várias centenas de crianças mais velhas estão a ser acusadas por crimes como entrada ilegal no Iraque para combaterem ao lado do Daesh. Pelo menos 185 crianças e jovens com idades entre os nove e os 18 anos foram condenados e sentenciados a penas que vão de poucos meses a 15 anos de prisão em centros de detenção juvenis em Bagdad, disse o porta-voz do conselho de justiça que supervisiona o tribunal de Rusafa, que julga a maior parte dos casos do Daesh ligados a estrangeiros.

Estas crianças são as vítimas esquecidas do Daesh. Traídas pelos seus pais, que as levaram para uma zona de guerra, criadas desde os quatro anos na ideologia venenosa dos militantes e, em muitos casos, abandonadas pelos países de origem por medo de se tornarem uma ameaça no futuro.

Nadia Rainer Hermann, uma mulher na casa dos 20 anos que cumpre prisão perpétua por pertencer ao Daesh, disse que a filha de dois anos passa os dias num colchão húmido numa cela imunda e apertada na prisão de mulheres. “Todos os dias receio que a minha filha fique doente e morra”, disse. As outras crianças estão frustradas e zangadas por estarem em cativeiro, e atacam-se umas às outras e aos guardas, acrescentou.

ali hashisho / reuters

“Era uma vida boa”

Gazieva falou com a Reuters em Setembro de 2017, quando ela e o filho, que era um bebé na altura, estavam detidos num campo perto de Mossul, no Norte do Iraque. Esperava poder regressar com Obaida a França, onde vivia antes de viajar para o Iraque. Mas não tem passaporte francês. “Não quero ficar neste campo, nem neste país. Estou apavorada com o que nos vai acontecer”, disse.

Vestida com o traje negro característico das seguidoras do Daesh, Gazieva era uma entre as 1400 mulheres e crianças amontoadas em tendas sobrelotadas no acampamento. Falava com o filho em russo, enquanto dezenas de outras mães falavam alemão, francês e turco. Sentavam-se em grupos, em cobertores húmidos. Guardas armados passavam entre elas.

Gazieva disse que se juntou ao Daesh de forma involuntária. Aos 17 anos, fugiu da violência separatista na região russa da Tchetchénia e instalou-se em França. Em 2015, depois de se divorciar — de um homem que, na sua opinião, não era suficientemente devoto — partiu numa viagem à Turquia com um grupo de mulheres russas que conheceu numa sala de conversação na Internet. Deixou três filhos em França, pois acreditava que seriam apenas umas curtas férias.

Diz que as mulheres a convenceram a viajar de carro ao longo da costa da Turquia. Percebeu tarde demais que estava na Síria. No início sentia medo, mas depois começou a gostar do Daesh. Em poucos meses, casou-se com um combatente islâmico tchetcheno, “porque era isso que se fazia”, e mudou-se para o Iraque.

Durante um tempo, a vida no autoproclamado califado foi boa, disse Gazieva. Obaida nasceu no hospital de Mossul com a ajuda de parteiras iraquianas alistadas pelo Daesh quando a cidade estava debaixo do controlo dos extremistas. Os combatentes estrangeiros e as suas famílias tinham um estatuto elevado na cidade. Tinham casas melhores – confiscadas aos proprietários iraquianos –, melhores alimentos e cuidados de saúde.

Alguns meses depois de Obaida ter nascido, as forças iraquianas e norte-americanas lançaram uma campanha para recuperar Mossul. Nessa altura, Gazieva estava viúva e vivia no Norte do Iraque, em Tal Afar, onde escapou aos combates. Mais uma vez, a vida era boa, segundo Grazieva e outros combatentes e as suas famílias entrevistadas pela Reuters. Em Tal Afar, as mulheres tinham galinheiros e vizinhos amistosos. “A vida era boa, tirando os bombardeamentos. Mas quando eu era criança havia guerra na Tchetchénia, por isso estou habituada às bombas.”

Tudo mudou em Agosto de 2017. As forças iraquianas tinham recuperado Mossul e os combates seguiram para norte. As mulheres, as crianças e os combatentes do Daesh que tinham ficado para trás fugiram de Tal Afar através de território curdo, em direcção à fronteira com a Turquia. Viajaram a pé em grupos de 20 ou mais pessoas, numa viagem que durou dias, em estradas repletas de pedaços de corpos e com o barulho de drones por cima. Tinham-lhes dito que os combatentes curdos peshmerga os deixariam passar para a Turquia, mas em vez disso foram obrigados a render-se.

Ao fim de vários dias detidos pelos curdos, Gazieva e o filho foram transferidos com as outras mulheres e crianças para as autoridades federais iraquianas, de um campo de refugiados para um centro de detenção onde têm vivido num pátio ao ar livre. As detidas foram transferidas para Bagdad em finais de 2017, onde têm permanecido desde então, ao lado de mulheres estrangeiras e crianças detidas em outros locais no Iraque. Ao todo, até 2000 mulheres estrangeiras e crianças estão sob custódia das autoridades iraquianas.

Ansiosas, desocupadas e traumatizadas

Documentos do tribunal de Rusafa mostram que Gazieva foi uma das 494 mulheres estrangeiras condenadas entre finais de 2017 e Agosto de 2018 por pertencerem ao Daesh ou colaborarem com os extremistas. São cidadãs de pelo menos 18 países, principalmente da Turquia, Rússia e países da Ásia central. Registos de uma das duas câmaras que estão a analisar os casos mostram que  20 mulheres foram condenadas à morte por enforcamento, por pertenceram ao Daesh ou por participarem em actividades do grupo. Até agora, nenhuma sentença foi executada.

A prisão de mulheres no centro de Bagdad não estava preparada para acolher a chegada de tantas mulheres e crianças. Está sobrelotada e repleta de doenças, dizem as detidas e os diplomatas que as visitaram.

Hermann, uma alemã que foi condenada a prisão perpétua em Agosto de 2018, falou com a Reuters através das barras da cela de um tribunal, com cerca de três metros por dez metros. “Somos 12 a dormir numa cela mais pequena do que esta, sem contar com as crianças”, disse.

A maioria das crianças ainda vive com as suas mães na prisão – ansiosas, desocupadas e traumatizadas, disseram diplomatas e fontes próximas do sistema prisional. Entre elas estão bebés como Obaida e crianças até aos 12 anos. Há pouca assistência médica, e muitas das mulheres e crianças estrangeiras sofrem de sarna e de malnutrição, entre outros problemas. Não tiveram roupas suficientes para se aquecerem durante o Inverno. Algumas rasgaram as vestes que tinham à chegada, para fazerem gorros e meias para as crianças.

Pelo menos sete crianças pequenas, russas e azeris, morreram na prisão por causa das péssimas condições de detenção, segundo os relatos de várias detidas, duas guardas prisionais, pessoas que visitaram as prisioneiras e o registo de uma embaixada a que a Reuters teve acesso. Pelo menos três mulheres morreram, disseram fontes diplomáticas e dos serviços secretos.

“Quando mais tempo ficarem, mais difícil será”

Em Setembro de 2017, o então primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, disse que o seu Governo estava em “plena comunicação” com os países de origem das crianças, “para se encontrar uma forma de as entregar”. Mas as conversações chegaram a um impasse em Janeiro de 2018, e o Iraque começou a fazer acusações judiciais.

De acordo com a lei iraquiana, as crianças com mais de nove anos são responsabilizadas judicialmente, enquanto a idade mínima nos EUA é de 11 anos e na Alemanha é de 14 anos. Os casos das crianças são ouvidos por um tribunal juvenil, onde enfrentam três possíveis acusações no âmbito das leis antiterrorismo do país: entrada ilegal no Iraque, com uma pena máxima de um ano de prisão; filiação no Daesh, de cinco a sete anos de prisão; e auxílio ao Daesh, até 15 anos de prisão.

Algumas crianças participaram em ataques contra as forças iraquianas, fizeram explodir postos de controlo e construíram engenhos explosivos.

Aqeel al-Birmani, um juiz especializado em contraterrorismo que já condenou alguns dos pais das crianças, disse à Reuters: “Algumas delas podem ser muito jovens, mas sabiam o que estavam a fazer. Foram treinadas para mentir.”

No geral, as crianças com menos de 13 anos que não participaram em actos de violência são alvo de sentenças que vão de três a seis meses, por terem entrado no Iraque de forma ilegal. Ao fim desse tempo, ficam livres para regressarem a casa, em teoria. Mas, na realidade, muitas delas acabam por ficar no Iraque porque não são bem recebidas nos seus países de origem.

As crianças mais velhas têm sentenças mais pesadas. A adolescente alemã Linda Wenzel, por exemplo, cumpre seis anos de prisão por ter integrado o Daesh e por ter entrado no Iraque de forma ilegal. O Ministério do Interior da Alemanha estima que até 150 adultos e crianças com cidadania alemã, ou com direito a pedir a nacionalidade estejam detidos no Iraque.

Os serviços sociais iraquianos estão preocupados com as sentenças mais longas, em particular para as crianças mais velhas que serão deslocadas para estabelecimentos de adultos quando fizerem 18 anos. Aí, quaisquer esforços para as reabilitar nas prisões juvenis serão desfeitos pelo contacto com criminosos violentos. “As crianças só devem ser detidas em último recurso, e pelo prazo mais curto possível”, disse Laila Ali, porta-voz da Unicef no Iraque. “Quando as crianças são detidas, devem ser tomadas medidas específicas para as suas idades, sejam quais forem as razões que levaram à sua privação da liberdade.”

A associação Reprieve está envolvida nos processos de combatentes e familiares estrangeiros detidos na Síria e, em menor medida, no Iraque. O fundador, Stafford Smith, disse que os países têm “uma responsabilidade legal para com os seus cidadãos, em particular os mais vulneráveis, como as crianças que estão detidas sem terem culpa própria”.

Mas alguns países têm arrastado os pés, segundo diplomatas e outras fontes conhecedoras do caso. Há crianças nascidas em território do Daesh que não têm registo de nascimento reconhecido, o que torna difícil provar a sua nacionalidade.

Alemanha, Geórgia e França repatriaram algumas crianças. Um responsável francês disse que essas decisões são tomadas caso a caso, levando em consideração se a mãe quis abandonar o filho, ou se a separação é do superior interesse da criança.

Mas alguns governos têm poucos incentivos para ir buscar crianças e mulheres. Há pouco apoio público às crianças dos combatentes e outros militantes do Daesh. “É um assunto sensível, dada a reacção do público”, disse um diplomata ocidental em Bagdad. “Estamos a falar do regresso dos filhos de pessoas responsáveis por fazerem explodir cidades.”