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Vídeo raro de tribo isolada alerta para impacto da exploração da Amazónia

Elementos daquela que é considerada a tribo mais ameaçada do mundo são filmados no estado brasileiro do Maranhão, onde o território dos awás está sob crescente pressão de explorações madeireiras ilegais.

Imagens inéditas partilhadas este fim-de-semana pela organização indígena brasileira Mídia Índia mostram elementos da tribo isolada awá, que habita o Noroeste do estado do Maranhão. No vídeo, um homem observa e cheira uma catana que foi deixada na floresta amazónica. O vídeo é partilhado no âmbito de uma campanha de consciencialização para os efeitos das explorações madeireiras ilegais que decorrem nas proximidades ou mesmo no interior de áreas indígenas legalmente protegidas.

No vídeo, gravado por um membro de uma tribo vizinha guajajara, o homem e um companheiro seu fogem por entre a vegetação quando percebem que estão a ser observados. “Esperemos que este vídeo produza algo positivo. Esperemos que crie um impacto em todo o mundo que ajude a proteger as nossas pessoas e a nossa floresta”, disse Flay Guajajara, que registou as imagens.

O povo awá, que é descrito pela ONG Survival International como “o mais ameaçado”, está à beira da extinção, sendo vítima de um caso típico de espoliação de terras ancestrais, de acordo com aquela ONG, que responsabiliza o Governo brasileiro, a companhia de mineração CVRD e o Banco Mundial pela actual situação.

A terra dos awás, com 116.582 hectares, foi demarcada e registada e encontra-se dentro da Reserva Biológica do Gurupi, instituída em 1961, tendo o mais alto nível de protecção ambiental. Cercados por municípios que dependem da extracção da madeira, muitos awás — o grupo terá cerca de 400 pessoas — acabaram por abandonar a floresta devido à desflorestação, mas outros permanecem isolados no território. A jornalista brasileira Sônia Bridi disse ao jornal britânico The Guardian que a tribo vive com tanto medo do contacto exterior que ensina as crianças a não chorar para não revelarem a sua presença a estranhos.

Organizações indígenas acusam o Brasil de não travar a violação dos direitos territoriais das tribos. Nos anos 90, por exemplo, um grande número de awás morreu em resultado de uma invasão de parte das suas terras, por madeireiros, criadores de gado e colonos, que as autoridades não impediram. Já este ano, o Presidente Jair Bolsonaro prometeu rever as demarcações das reservas indígenas do país e defendeu que a exploração da Amazónia deve ser feita em parceria com os Estados Unidos.

Um dos primeiros actos de Bolsonaro como Presidente foi precisamente transferir a responsabilidade sobre as demarcações de terras indígenas do Ministério da Justiça para o da Agricultura — que, historicamente, tem defendido os interesses dos grandes proprietários de terras.

No último ano, a floresta da Amazónia brasileira perdeu árvores numa área total de 7900 km2, enormidade equivalente a 987.500 campos de futebol. São mais de mil milhões de árvores abatidas para dar abrir caminho a projectos agrícolas e de infra-estruturas, segundo estimativas da Greenpeace Brasil, que cita números de vários organismos oficiais de vigilância do desmatamento da Amazónia. São os piores números da última década.

Bolsonaro não reconhece os dados oficiais sobre desflorestação na Amazónia e no fim-de-semana acusou organismos públicos de quererem denegrir a imagem do seu executivo.