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Perante o vazio das instituições, as ruas assumem o comando

O movimento independentista catalão era conhecido por trazer milhões de pessoas para as ruas de forma pacífica. Algo mudou na última semana. A paciência de muitos esgotou-se no preciso momento em que o poder não dá respostas.

Juan Medina/Reuters

Em Barcelona, o governo autonómico mantém-se por um fio e é hoje questionado abertamente pelo independentismo, enquanto em Madrid a temporada eleitoral já segue a todo o vapor, com a situação na Catalunha a servir para marcar diferenças. Num dos momentos mais críticos do processo independentista catalão, as instituições dão sinais de paralisia e privilegiam as agendas próprias. Na sua ausência, a iniciativa fica com as ruas. E aí, a sentença de prisão para os dirigentes independentistas representou um momento de viragem.

“Não estamos conformados em apenas pedir as coisas – chega um momento em que as queremos”, diz Camilo, nome fictício adoptado por um homem de 40 anos que pertence a um dos Comités de Defesa da República (CDR) fora de Barcelona. A conversa com o PÚBLICO acontece durante uma concentração na Praça Lluis Companys, no centro de Barcelona, na noite de sábado. Camilo explica como surgiram e o que fazem os CDR, citados frequentemente como responsáveis pela subida da tensão nos protestos da última semana.

Surgiram como Comités de Defesa do Referendo, cinco meses antes da consulta de 1 de Outubro de 2017, a partir de “inquietações” que foram surgindo entre os militantes de vários movimentos sociais pró-independência. Os comités foram criados nos bairros das grandes cidades, nas vilas e aldeias catalãs, mas também entre associações de estudantes. “Havia um sector muito grande da população que sentia que o referendo não ia ser um baile, mas sim uma coisa muito conflituoso”, diz Camilo. Estabeleceram um plano para proteger as mesas de voto no dia decisivo, antecipando a intervenção policial que se desenrolou.

Nesta altura, não sabiam ainda que o trabalho dos CDR iria continuar na nova fase do processo independentista. “Era preciso defender a ideia de implantar a República”, diz Camilo. Nos tempos que se seguiram, a marca dos comités passou a ser a rapidez e a eficácia com que organiza manifestações, marchas, concentrações e actos de desobediência civil, como cortes de estradas. “É uma luta em que toda a gente pode encontrar forma de participar”, diz ao PÚBLICO a escritora Bel Olid, que chegou a participar no CDR de Ciutat Vella, em Barcelona, antes de se mudar para outra cidade.

Mas no fervilhante mundo dos movimentos sociais catalães é difícil estabelecer fronteiras estanques entre grupos. Frequentemente quem faz parte de um também colabora com outros, e assim acontece com as organizações independentistas. É possível participar nas reuniões e iniciativas de um CDR de bairro, fazer parte da Assembleia Nacional Catalã (ANC), colaborar com a Òmnium Cultural, integrar a correia de comunicação do Tsunami Democràtic, ou organizar os Picnics per la República. “Se tiveres capacidade, estás envolvido em todos!”, afirma Camilo.

Apesar de os CDR contarem com gente pertencente a diferentes partidos políticos – Camilo é militante de uma organização de esquerda –, as suas decisões são tomadas de forma independente das instituições políticas. “Os partidos é que nos seguem, não o contrário”, garantia ao PÚBLICO Eva Torres, que pertence a um CDR de Badalona, durante uma manifestação neste fim-de-semana.

Os membros dos CDR insistem que todas as acções que apoiam e organizam têm um carácter não-violento. “É absolutamente reconhecido que o movimento pela independência da Catalunha é não-violento”, afirma Camilo. Porém, a detenção de nove pessoas ligadas aos CDR há um mês, na posse de materiais usados no fabrico de explosivos, veio pôr em causa as garantias de pacifismo. Tal como os confrontos com a polícia na última semana em várias cidades da Catalunha.

Camilo garante que as convocatórias feitas pelos CDR mantêm os apelos a manifestações pacíficas, mas nota que a condenação, na segunda-feira da semana passada, dos nove dirigentes independentistas a penas de prisão entre os nove e os 13 anos “mudou a temperatura da rua”. Os actos violentos da última semana têm surgido no final das iniciativas, já depois de os organizadores terem declarado a desmobilização. “É claro que desconvocas, mas as pessoas não saem, não voltam para casa”, diz o independentista.

Nos últimos dias tem-se assistido, por outro lado, a uma “subversão do conceito de violência”, denuncia Camilo. O militante diz que a imprensa e as autoridades estão a “esticar” o conceito de violência para abranger até danos ao mobiliário urbano. “Eu não creio que seja violência, é desordem, vandalismo, mas não é violência”, afirma. “O que não pode acontecer a seguir, quando uma pessoa perde um olho e outro é ferido nos testículos, é que se continue a falar da destruição do mobiliário urbano. Isso sim é violência, é violência para qualquer pessoa do mundo”, afirma Camilo, referindo-se a dois casos de manifestantes agredidos pela polícia na semana passada.

Torra mais sozinho

Se nas ruas algo parece estar a mudar, entre os actores políticos tudo está estagnado. A saga dos telefonemas não atendidos entre o presidente do governo catalão, Quim Torra, e o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, continuou este domingo, com mais uma chamada entre o Palácio da Generalitat e o Palácio da Moncloa que foi para o atendedor automático. A posição do Governo de Madrid está fixada: a menos que Torra condene a violência de forma “firme, rotunda, sem matizes, sem adjectivos, sem equidistância, nem meias tintas”, como afirmou o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, não haverá diálogo.

Quim Torra é cada vez mais contestado QUIQUE GARCIA/Reuters

A base de apoio do govern está a erodir de dia para dia. A Esquerda Republicana (ERC) e o Juntos pela Catalunha conspiram abertamente para encontrar alternativas, que podem passar pela precipitação de novas eleições autonómicas. “É evidente que o futuro imediato não passa por Torra”, dizem fontes do governo catalão ao La Vanguardia.

Entre as bases independentistas a desconfiança face ao executivo é também elevada. No sábado, um dos objectivos da manifestação na Praça Lluis Companys foi a exigência de demissão do conselheiro do Interior, Miquel Buch, que defendeu a actuação dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, que tem participado ao lado da Polícia Nacional e da Guarda Civil no confronto com os manifestantes. A paciência esgota-se a cada hora. “Estamos cada vez mais perto de pedir a demissão do governo em bloco”, diz o membro dos CDR Camilo.

Pré-campanha em curso

A crise na Catalunha serve sobretudo para animar a pré-campanha eleitoral para as eleições legislativas de 10 de Novembro. À direita, a luta entre Partido Popular (PP) e Cidadãos resume-se a ver quem adopta uma postura mais dura face às pretensões independentistas.

No sábado à noite, em Valladolid, o presidente do PP, Pablo Casado, afirmou que o seu partido quer ser o “dique de contenção” face ao independentismo catalão e deixou uma mensagem categórica: “A Catalunha nunca será independente porque o resto de Espanha nunca o poderia suportar, porque necessitamos dela por ser uma terra maravilhosa que admiramos.” A eclosão da crise catalã, nascida da sentença do Supremo Tribunal, representa um dilema para o PP, que tinha planeado uma campanha moderada assente na economia.

Albert Rivera, o líder do Cidadãos, partido nascido em 2006 na Catalunha para rejeitar o independentismo, passou este domingo em Barcelona, a sua cidade natal, onde reuniu mais de mil apoiantes num comício em frente ao Palácio da Generalitat. “Quero ser o presidente do Governo para proteger as famílias espanholas e pôr na prisão quem tentar destruir o nosso país”, afirmou.

Albert Rivera, do Cidadãos, foi este domingo a Barcelona, a cidade onde nasceu Jon Nazca/Reuters

Também a sede da polícia, na Via Laietana, onde se têm concentrado os protestos mais violentos, para prestar solidariedade às forças de segurança. O Cidadãos defende a aplicação imediata do artigo 155.º da Constituição para suspender a autonomia da Catalunha, como aconteceu em 2017, depois do referendo e da declaração de independência que levou às sentenças dos nove dirigentes.

A estratégia do Partido Socialista (PSOE) tem sido a de definir o processo independentista catalão como uma herança deixada pelo anterior Governo do PP. “O que hoje temos de ser nós a gerir são os efeitos e consequências da política do PP na Catalunha”, afirmou o secretário de Organização do partido, José Luis Ábalos no sábado.

À esquerda, a situação na Catalunha também configura um tema complexo para o Unidas Podemos, que defende uma solução federalista, uma espécie de “terceira via”, e que vale à coligação liderada por Pablo Iglesias críticas dos dois lados do conflito. A prioridade de Iglesias tem sido a de apelar ao apaziguamento dos protestos e da resposta policial, endossando aquela que tem sido a posição da presidente da Câmara Municipal de Barcelona, Ada Colau. “Todos os países europeus estão preparados, sem medidas de excepção, para confrontar situações de ordem público com proporcionalidade e dentro dos limites do Estado de direito”, afirmou Iglesias.

Com as instituições paralisadas e a rua mais tensa do que nunca, e mais afastada do vazio de soluções da política, os sinais apontam na direcção do perigo. A acalmia da noite de sábado rompeu com um ciclo de violência que vinha a crescer desde o início da semana, mas o rastilho pode ser reacendido a qualquer momento.

Camilo termina a conversa com o PÚBLICO com um prognóstico dramático, embora realista: “Se o Estado espanhol continua assim e a polícia também, creio que em breve teremos de lamentar mortos. E será responsabilidade absoluta do Estado espanhol.”