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Quem manda na Bolívia?

A demissão de Evo Morales abriu um vazio de poder na Bolívia que os deputados estão a tentar preencher antes que o caos provoque mais estragos sociais e políticos no país da América Latina.

Pilhagens, confrontos e bloqueios - assim amanheceu a Bolívia esta segunda-feira, depois de o Presidente Evo Morales se ter demitido, depois de 14 anos no cargo e criando um vazio de poder após semanas de protestos violentos.

A saída do primeiro Presidente indígena, que era o último sobrevivente da vaga de líderes de esquerda que chegaram ao poder na América Latina há duas décadas, ocorreu no domingo, depois de o aparelho militar o ter abandonado na sua luta sobre o resultado das polémicas eleições de 20 de Outubro.

A Organização de Estados Americanos, que denunciou as eleições que considerou “manipuladas”, pediu ao aparelho legislativo para resolver a crise com carácter de urgência. 

Porém, muitos deputados, governantes e aliados de Morales saíram com ele, e a vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, da oposição, disse que assumia temporariamente o controlo do país até nova eleição.

“Tenho medo do que vai acontecer, está tudo uma confusão na cidade. Há lutas entre vizinhos”, disse Patricia Paredes, uma secretária de 25 anos em La Paz.

Durante a noite, gangues varreram a capital e outras cidades, negócios foram atacados, rivais políticos enfrentaram-se e propriedades foram incendiadas. As escolas e as lojas estão fechadas, os transportes públicos pararam - muitos autocarros foram incendiados - e há estradas bloqueadas.

Morales, de 60 anos, saiu de La Paz, mas acredita-se que ainda esteja na Bolívia, mas em parte incerta.

Disse que se demitiu para acabar a violência, mas nesta segunda-feira voltou a dizer que é vítima de uma conspiração política dos seus inimigos, entre eles de Carlos Mesa (que disputou consigo a presidência) e do líder dos protestos, Luis Fernando Camacho.

“O mundo e os nossos patriotas repudiaram o golpe”, escreveu Morales no Twitter. “Levaram-me às lágrimas. Nunca me abandonaram. E eu nunca vos abandonarei”.

Os protestos eclodiram depois de a contagem dos votos das presidenciais ter sido parada, quando apontavam para uma segunda volta entre Morales e Mesa. Alguns dias depois, foi anunciada a vitória de Morales à primeira volta - houve acusações de fraude numa eleição que já era contestada, por Morales ter insistido em candidatar-se, com a autorização da Justiça, depois de em referendo os cidadãos terem dito “não” à candidatura a um quarto mandato.

América Latina dividida

O Presidente eleito argentino, Alberto Fernandez, fez eco das acusações de golpe, assim como o México, que ofereceu asilo político a Evo Morales. “Foi um golpe porque o Exército pediu a sua demissão, o que viola a ordem constitucional do país”, disse o ministro mexicano dos Negócios Estrangeiros, Marcelo Ebrard.

Numa América Latina que redesenha a sua paisagem política, a esquerda recuperou poder no México e na Argentina, o Brasil é governado por um Presidente de extrema-direita.

“Um grande dia”, escreveu no Twitter o Presidente Jair Bolsonaro, referindo-se aparentemente aos acontecimentos na Bolívia.

Na Venezuela, os opositores de Nicolas Maduro assinalaram a queda de Morales, a quem chamam de “ditador”. E nos Estados Unidos, houve apelos aos líderes civis para garantirem o controlo. A Rússia apoia Morales e acusa a oposição pela violência e por ter inviabilizado o diálogo.

Perante o caos, uma influente figura da oposição, Waldo Albarracin, anunciou que a sua casa foi incendiada por apoiantes de Morales. E surgiu um vídeo que parece mostrar pessoas dentro da casa de Evo Morales, a grafitar e a derrubar paredes.

“As pessoas estão a tentar criar o caos”, disse Edgar Torrez, empresário de 40 anos de La Paz. Os políticos e os criminosos estão a aproveitar-se da situação, disse.

Quem manda?

Segundo a lei da Bolívia, é o chefe do Senado quem assume provisoriamente a chefia do Estado. Porém, a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, também se demitiu no domingo.

Estava prevista uma reunião das duas câmaras do parlamento para esta segunda-feira, para decidirem que assume as rédeas do país, em princípio uma comissão interina.

“Se tiver o apoio dos que puseram em marcha este movimento de liberdade e democracia, assumo a responsabilidade, apenas para convocar eleições transparentes”, disse Añez, que constitucionalmente é a figura que se segue para assumir a presidência.