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Análise

Os usos e abusos da islamofobia

Tal como aconteceu com o Cristianismo no passado, o Islão lida (muito) mal com a crítica e com visões do mundo diferentes, ou que, de alguma forma, se lhe opõem. Entramos, assim, no problema da imposição das nossas visões do mundo aos outros — e da vontade de os transformar em algo igual a nós.

1. “Cada um quer impor aos outros aquele mundo que tem dentro, como se ele existisse fora de si, e que todos tenham de o ver do modo como ele o vê; e que os outros não possam ser, nesse mundo, senão como ele os vê.” Esta perspicaz cogitação filosófica de Vitangelo Moscardo, personagem de um notável livro de Luigi Pirandello (Um, ninguém e cem mil, trad. port., Cavalo de Ferro, 2017, p. 83), feita num outro contexto, aplica-se ao problema que hoje levantam o Islão e a “islamofobia”. Tal como o Cristianismo, o Islão é uma religião comunitária e proselitista, de vocação universalista. Está imbuído de verdades “absolutas”. Na sua crença, todo o ser humano nasceu muçulmano, mas, depois, muitos foram “desviados” para outras religiões ou para o ateísmo. Naturalmente, quer expandir a sua mensagem para corrigir esse desvio e salvar os afastados. Mas em sociedades democráticas, plurais e seculares muitos não querem ser “salvos”. Tal como aconteceu com o Cristianismo no passado, o Islão lida (muito) mal com a crítica e com visões do mundo diferentes, ou que, de alguma forma, se lhe opõem. Entramos, assim, no problema da imposição das nossas visões do mundo aos outros — e da vontade de os transformar em algo igual a nós, rejeitando a diferença. O termo islamofobia é parte desse problema nas sociedades multiculturais ocidentais, como mostram a sua origem e formas de utilização.

2. A génese do termo islamofobia encontra-se na revolução iraniana de 1978/1979 e na chegada do Ayatollah Ruhollah Khomeini ao poder, instalando uma teocracia islâmica (xiita) no Irão. O seu uso leva-nos às suas estratégias discursivas para silenciar os críticos da instauração de um Estado islâmico. Janet Afary e Kevin Anderson no livro Foucault and the Iranian Revolution: Gender and the Seductions of Islamism (Chicago University Press, pp. 111-115) retratam o contexto original onde emergiu. Está intimamente ligado à questão da igualdade de género e à emancipação feminina. Kate Millet, a feminista norte-americana que era uma celebridade na época pelo seu livro Sexual Politics/Política Sexual (1970) — nele abordava a política patriarcal de controle da sexualidade feminina nos séculos XIX e XX no Ocidente —, deslocou-se em 1979 ao Irão. O objectivo era participar numa manifestação do dia internacional da mulher, em Teerão, com outras activistas. Na mesma altura em que centenas de feministas se reuniam na Universidade de Teerão para comemorar o dia internacional da mulher, Khomeini fez um discurso onde ordenava às mulheres que passassem a usar vestuário islâmico — o chador, a veste feminina tradicionalmente usada no Irão que cobre o corpo com a excepção do rosto. Começou aí o uso da “islamofobia” para atacar os que se opunham à moral e bons costumes (do Islão). Quanto a Kate Millet, foi expulsa do território iraniano por actividades anti-islâmicas. 

3. Face a esta origem e uso do termo, não é também por acaso que a feminista francesa Caroline Fourest, em La tentation obscurantiste (Grasset, 2005, p. 68), critica, e de forma particularmente contundente, aquilo que considera ser a “armadilha da palavra islamofobia”, vista como uma das formas contemporâneas de tentação obscurantista. Segundo esta, a frequente instrumentalização da islamofobia para fins políticos consiste em desvirtuar o conceito afastando-o das reais situações de discriminação, ódio ou racismo contra os muçulmanos, para o utilizar, de forma abrangente, como arma geral contra os críticos do Islão. Isso é efectuado, desde logo, para atacar a igualdade de género e as ambições de emancipação sexual feminina. Assim, Caroline Fourest faz notar como sob a designação de islamofobia se “confunde o ódio aos muçulmanos pelo que estes são (o que deve ser denunciado como racista), com a hostilidade em relação a uma crença, uma religião, uma ideologia (o que tem a ver com a liberdade de expressão)”. Acrescenta, ainda, que “um grande número de militantes anti-racistas e/ou muçulmanos, por vezes de boa fé”, tem vindo a utilizar a palavra sem uma reflexão prévia, não se apercebendo da dimensão “da armadilha em que se encontram presos.” Como resultado, acabam por desvirtuar as sua actividades transformando-se em guardiões de uma ortodoxia religiosa.

4. Numa linha similar à de Caroline Fourest, Antoine Sfeir e René Andrau fizeram uma corrosiva crítica do uso e abuso do termo islamofobia. (Ver Liberté, égalité, Islam: La République face au communautarisme, Tallandier Éditions, 2005, p. 91). Notaram que os activistas dos direitos humanos, das mulheres e da liberdade de expressão parecem usualmente desconhecer que, na origem, o termo está ligado a uma visão teocrática do mundo. Provavelmente por isso têm-se mostrado incapazes de destrinçar o seu uso ambivalente. Criticando tal utilização irreflectida, relembram como a noção islamofobia foi primeiro “inventada pelos mullahs iranianos para denunciar as mulheres que recusavam o véu”. E, em seguida, “retomada contra Salman Rushdie e Taslima Nasreen” para atacar a liberdade de expressão e estilos de vida plurais não islâmicos. Como se percebe pelo que foi explicado, o termo islamofobia presta-se a um uso dúplice, muito conveniente para alguns: mistura o ódio e a discriminação contra os muçulmanos com as críticas ao Islão. A acusação de islamofobia é, assim, muitas vezes usada, não para denunciar racismo ou uma genuína discriminação dos muçulmanos — que é o seu uso correcto e legítimo —, mas para silenciar as críticas ao Islão e coarctar a liberdade de expressão no Ocidente.

5. Estar em rota de colisão com a crença religiosa e visão do mundo do Islão é ser islamófobo? A questão é similar a estar em rota de colisão com a crença religiosa e visão do mundo do Cristianismo, do Judaismo, do Budismo, do Taoismo, etc., ou de ideologias seculares como o liberalismo, o socialismo, o comunismo, ou outras. É fundamentalmente uma questão de liberdade de pensamento, de consciência e de expressão. Em sociedades democráticas, seculares e pluralistas, a liberdade de expressão, de consciência e de pensamento, é, ela própria, um princípio estruturante e “sagrado”. Implica co-existirem diferentes visões do mundo e estar sujeito à crítica, mesmo à crítica mais contundente — que poderá ser vista como ofensiva pelos crentes religiosos e/ou os que têm convicções ideológicas seculares profundas — e ser até muito injusta. Mas não há qualquer razão para que o Islão seja uma excepção em sociedades europeias/ocidentais. Assim, criticar o Islão, por exemplo, pela jihad no sentido guerreiro (que, com certas regras, está prevista no Alcorão e nos ahadith), ou pela sua concepção de relações entre homem e mulher numa lógica tradicional-patriarcal (similar à da Torah judaica e do Antigo Testamento), cabe no âmbito liberdade de expressão, não de qualquer tipo de islamofobia. 

6. O que é indiscutivelmente islamofobia são comportamentos como, por exemplo, agredir verbalmente ou fisicamente muçulmanos, ou pessoas que o aparentam ser, na rua ou noutro local qualquer, porque alguém praticou algures um acto violento em nome do Islão. Ou então, como alguns pretendem à extrema-direita, fazer uma equivalência radical entre a generalidade dos muçulmanos e o terrorismo. Ou ainda, num outro plano, despedir alguém numa empresa apenas por ser muçulmano. Já opor-se ao uso do muezim — o chamamento público para as orações numa mesquita num país não muçulmano —, ou estar contra aulas separadas de natação para homens e mulheres; e, de uma maneira mais evidente ainda, criticar o islamismo-jihadista enquanto sub-produto do Islão como religião e cultura, não pode ser tratado como islamofobia. Em sociedades livres, democráticas e pluralistas é necessário ser firme na rejeição da islamofobia, enquanto ódio, forma de racismo, ou de discriminação contra os muçulmanos, só pelo facto de o serem. Mas impõe-se, também, ser muito firme na rejeição de um uso dúplice do termo islamofobia. Neste segundo caso, o que está em causa, por estratégia ou ingenuidade, é silenciar e intimidar as críticas ao Islão, na sua crença, valores, e visão do mundo, feitas por não muçulmanos e muçulmanos. Ceder a isso é (auto)destruir as sociedades abertas em que vivemos.