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Todos usaram a tragédia da família Kurdi para os seus próprios objectivos

Alan Kurdi, o irmão e a mãe afogaram-se a cinco minutos da costa da Turquia em 2016. O pai foi foi o único que escapou. Mas estas mortes não fizeram mudar nada.

Abdullah Kurdi, o pai de Alan, em luto pela morte do filho Rodi Said/REUTERS

Quem trabalhava nas zonas de praia de Bodrum, na Turquia, sabia que havia possibilidade de encontrar destroços de naufrágios. Podia ser um sapato, um passaporte… ou um corpo.

Em zonas com hotéis já desde antes de 2010 que havia carros 4X4 com funcionários contratados para recolher o que pudesse estar nas praias – de objectos a corpos. “Os turistas não gostam de ver cadáveres”, comentava, constatando o óbvio, um trabalhador de um hotel a um repórter do jornal polaco Gazeta Wyborcza.

Na madrugada de 2 de Setembro de 2015, a repórter turca Nilüfer Demir chegou a uma das praias de Bodrum para fotografar um grupo de pessoas a sair de barco para a ilha grega de Kos, o que acontecia frequentemente naquele Verão – todos os dias chegava uma média de mil pessoas às ilhas gregas. Um grupo de paquistaneses ia tentar a sua sorte. Mas o que encontrou foi diferente: um corpo tão pequenino, morto na praia. Fotografou, nem pensou não o fazer. “O que vi deixou-me uma sensação tão terrível que não me deixa dormir à noite”, contou numa entrevista à Vice.

Há anos que havia pessoas a tentar a viagem entre a costa da Turquia e as ilhas da Grécia, há anos que havia pessoas a morrer. Mas nunca se tinha visto nada assim, uma criança tão pequena deixada pelo mar na costa dos resorts de Bodrum.

O que levaria alguém a arriscar uma travessia com tantos riscos levando uma criança tão pequena?

A família de Alan Kurdi decidiu tentar esta via por desespero – como fazem a maioria dos refugiados que chegam ali. Sabiam do perigo, mas pesaram as hipóteses, e a Grécia parecia tão perto. Tinham feito um pedido para reunificação familiar com a tia de Alan, que estava no Canadá; o pedido fora rejeitado. As opções eram ficar em Istambul sem condições para viver quem sabe durante quanto tempo (o apelido indica que são curdos, o que na Turquia pode trazer problemas) ou arriscar a pequena travessia – nem uma hora num catamarã – para a Grécia.

Alan Kurdi REUTERS

Antes do início da revolta contra o regime de Assad que havia de levar à guerra na Síria, Abdullah Kurdi e a mulher viviam em Damasco, onde Abdullah tinha uma barbearia. Com o início dos confrontos, em 2001, decidiram mudar-se para Kobani, onde a mulher tinha família. Como não ganhava o suficiente em Kobani, Abdullah foi trabalhar para a Turquia, e voltava ciclicamente a Kobani para ver a família, entretanto com dois filhos. Mas quando o Daesh se aproximou da cidade – haveria de a conquistar, e de a perder para as forças curdas, a cidade haveria de ficar quase destruída – a família decidiu fugir para a Turquia.

Mas a fábrica de roupa onde Abdullah trabalhava não pagava o suficiente para conseguir alojar também a mulher e os filhos em Istambul, e depois de os deixar lá dormir uma semana, pediu à família para sair. Decidiram arriscar.

Uma primeira tentativa foi logo abortada – o motor do barco parou passados cinco minutos, mas todos os ocupantes foram resgatados, contou Abdullah à televisão brasileira Globo.

Na segunda tentativa, Abdullah resolveu tentar um “coiote” (traficante) melhor, mesmo que fosse mais caro que o primeiro. Pagou 2000 euros por cada adulto e 1000 por criança.

Mas o barco em que seguia Abdullah, junto com a mulher, e os dois filhos, Alan, dois anos, e o irmão Galip, cinco anos, afundou-se poucos minutos depois de sair da Turquia. O pai ainda tentou agarrar os filhos, não conseguiu, foi o único que sobreviveu. Morreram outras oito pessoas.

Encontrado pelos jornalistas de seguida, Abdullah repetia duas ideias: que só queria ir a Kobani enterrar a família. E que “devia ter morrido com eles”.

Hoje Abdullah vive em Erbil, no Curdistão iraquiano. Ainda foi acusado de ser ele próprio o traficante, mas provou-se que não. Um tribunal que julgou o caso condenou, no ano seguinte, dois sírios por tráfico (mas não por homicídio).

A imagem foi no dia 2 de Setembro de 2015 a mais partilhada no Twitter, com a legenda “o naufrágio da humanidade”. A criança foi inicialmente identificada como Aylan Kurdi, de três anos – depois corrigiu-se para o nome certo, chamava-se Alan e tinha dois anos.

O pai de Alan esperava que a foto e a sua história servissem para abrir corações à causa dos refugiados. "Mas ninguém estava a ouvir" Giorgos Moutafis/REUTERS

A família pediu que se passasse a usar uma imagem do pequeno Alan sorridente, com o irmão e um urso de peluche. Mas perdeu essa batalha: a imagem usada e repetida, em artigos sobre o tema, murais para chamar a atenção para a morte de refugiados, cartoons, é a do pequeno corpo de Alan na praia, T-shirt vermelha, calções azuis, sapatilhas. Até um filme feito por um realizador turco tem essa imagem na promoção. Chama-se “bebé Aylan” e a família não foi consultada.

Inicialmente, Abdullah esperava que a fotografia e a sua história fizessem com que “a comunidade internacional abrisse os seus corações à causa dos refugiados”, disse ao Guardian. “Mas ninguém estava a ouvir. Toda a gente quis usar a fotografia e o que me aconteceu para os seus próprios objectivos.”