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Ursula von der Leyen presidente da Comissão Europeia: “I’m coming home”

A votação foi à justa, 52% a favor e 48% contra, mas a primeira mulher escolhida pelos líderes europeus para chefiar o executivo comunitário foi confirmada no cargo pelo Parlamento Europeu. As vicissitudes da eleição foram esquecidas assim que o resultado foi anunciado. “Em democracia, uma maioria é uma maioria”, a que Von der Leyen obteve é pro-europeia e não populista.

Ursula von der Leyen Vincent Kessler/REUTERS

Ursula von der Leyen já tem o seu lugar garantido na História, como a primeira mulher a liderar a Comissão Europeia, seis décadas depois do alemão Walter Hallstein, com quem o seu pai trabalhou. A alemã foi eleita presidente do executivo comunitário, com 383 votos a favor, 327 votos contra, 22 abstenções e um voto nulo — uma maioria absoluta, muito curta, de apenas nove votos acima do mínimo necessário. Mas “em democracia, uma maioria é uma maioria”, frisou Von der Leyen, que depois da forma positiva e calorosa com que o Parlamento Europeu recebeu o seu discurso talvez esperasse um maior apoio à sua candidatura.

A alemã seguramente retirará algum consolo do facto de não ter precisado dos votos dos populistas para confirmar a sua (controversa) nomeação pelos líderes europeus. “Não sei quem votou por mim. Sei que foi difícil conquistar esta maioria, mas fico contente que a tenha conseguido depois de um discurso que exprime a minha convicção profunda de que é preciso unir a Europa e ultrapassar as divisões, não as diferenças, que sempre existirão”, desdramatizou Von der Leyen — que na sua primeira conferência de imprensa como presidente eleita anunciou, com ar de júbilo, que estava “de regresso a casa”.

“Sempre quis trabalhar para a Comissão Europeia, é a minha paixão. I’m coming home”, proclamou.

Com uma margem tão justa de aprovação, nunca se saberá se a foi ou não a intervenção de Ursula von der Leyen perante o plenário do Parlamento Europeu que salvou a sua candidatura, envolta em polémica desde que foi anunciada. “Há duas semanas, não havia maioria e havia muito ressentimento por causa do processo dos cabeças de lista [Spitzenkandidaten]. Foi preciso trabalhar muito, e sinto-me feliz por termos sido capazes de formar uma maioria pró-europeia”, prosseguiu, com a tónica no pró-europeia.

Vencer a resistência

De facto, a sua escolha pelos líderes europeus, como uma “solução” de compromisso para vencer o impasse em que caíra o processo negocial para a distribuição dos cargos de topo da União Europeia, foi inicialmente recebida com surpresa, e também muita resistência. O nome da ministra alemã da Defesa tinha sido mencionado durante as negociações do Conselho Europeu como uma hipótese para o cargo de Alta Representante para a Política Externa. A sua “promoção” a líder do executivo comunitário dificilmente seria bem recebida pelo Parlamento Europeu, que tinha a expectativa de consagrar definitivamente o modelo dos Spitzenkandidaten como método de selecção do presidente da Comissão Europeia.

Ao contrário dos principais candidatos, Manfred Weber (do Partido Popular Europeu), Frans Timmermans (dos Socialistas & Democratas) e Margrethe Vestager (representante dos liberais do grupo Renovar a Europa), a política conservadora alemã não se submeteu ao escrutínio da comunicação social durante a campanha, nem apresentou um programa político à apreciação dos eleitores. Mas tal como os líderes europeus que a escolheram, argumentou que não seria por causa disso que a sua legitimidade política seria beliscada: Von der Leyen reconheceu que o processo que resultou na sua nomeação foi “atribulado” mas insistiu sempre que respeitou escrupulosamente o que está previsto nos tratados.

O seu discurso de 33 minutos aos eurodeputados não será recordado como deslumbrante, mas foi ponderado e eficiente. Von der Leyen desdobrou-se em compromissos, mas não fez qualquer cedência, o que lhe terá por exemplo custado os votos da bancada eurocéptica dos Conservadores e Reformistas, inconformados com as suas posições relativamente aos processos em curso contra a Hungria e a Polónia por violação dos valores europeus e dos princípios em que assenta o Estado de Direito.

Namoro aos progressistas

Partes do discurso que Von der Leyen leu poderiam ter sido escritas por Frans Timmermans, o vice-presidente da Comissão que esteve à beira de ver a sua promoção a líder do executivo levada a votos durante o Conselho Europeu — de tal maneira que um eurodeputado mais irónico fez questão de manifestar o seu espanto pela repentina coincidência de pontos de vista entre a política conservadora alemã e o holandês progressista (que apareceu no Twitter a confirmar ter gostado de ver “tantas das coisas” que prometera aos eleitores europeus “integradas” no programa de Von der Leyen).

O comentário não era deslocado. Consciente de que sem a boa-vontade da bancada socialista, a sua eleição ficaria em causa, Ursula von der Leyen carregou nas promessas correspondentes às exigências que lhe foram apresentadas por carta pela líder do grupo S&D: a reforma da zona euro, o pilar social, um novo pacto de migração e asilo, o combate às alterações climáticas, o alargamento da UE aos Balcãs… Tema a tema, a candidata foi desfiando promessas, que foram aumentando o entusiasmo do aplauso à medida que o discurso progredia.

No final da sessão, o chefe da delegação do PS, Carlos Zorrinho resumia assim o nível de “convencimento” da bancada socialista com a sinceridade da alemã em cumprir estas promessas. “Um dos riscos óbvios quando uma carta é enviada a vários grupos políticos é que ela seja adaptada ao que cada um quer ouvir”, assinalou. “Mas aqui no Parlamento, ela teve de ser ela própria”, vincou, considerando naturais as críticas tanto dos eurodeputados que entenderam que a candidata tinha recuado, como dos que queriam que ainda tivesse ido mais longe. “Se ela fosse socialista, eu exigiria muito mais. Mas compreendo que ela não é a candidata dos Socialistas & Democratas, mas uma candidata que agora tem de representar uma maioria”, distinguiu.

E apesar dos itens “progressistas” na sua agenda política, Von der Leyen não deixou de ser uma política da família de centro-direita do PPE. Várias das promessas assumidas para agradar ao centro-esquerda, aos liberais e até aos Verdes, estão no limite do admissível segundo o guião dos conservadores. Que não pareceram excessivamente preocupados, uma vez que boa parte destas medidas estão condenadas ao fracasso no Conselho Europeu, onde a influência dos políticos do PPE poderá ser mais determinante.

No entanto, os números finais da votação provam que Von der Leyen não conseguiu conquistar os “dissidentes” dos três maiores grupos do Parlamento que eram fundamentais para a sua maioria — e que minutos antes do arranque da votação se comprometeram a apoiar a nomeação. Com o voto secreto, não se saberá de qual bancada fugiram mais votos: os três juntos (PPE+S&D+Renovar a Europa) valeriam 444 votos; mas outras formações noutros grupos, caso dos italianos do 5 Estrelas, também anunciaram o seu acordo, o que quer dizer que o potencial de apoio ainda era maior.

Fugas, houve em todos os lados, tendo em conta o valor histórico dos votos contra Ursula von der Leyen. Alguns são mais óbvios: nos socialistas, contava-se com a oposição dos eurodeputados alemães, franceses, holandeses, gregos, austríacos, belgas, búlgaros e eslovenos — mais de 40 votos em 152 possíveis. A deserção nas hostes liberais terá ficado muito acima do esperado, mas também entre a bancada conservadora não terá havido disciplina a favor da alemã.

Von der Leyen preferiu não se deter na minúcia dos números. A tomada de posse é só a 1 de Novembro mas, garantiu, o seu trabalho “começa amanhã”. Ou melhor, no dia seguinte, uma vez que quarta-feira a alemã regressará a Berlim para se despedir “do seu governo e das suas tropas”, como informou. Logo depois, seguirá para Bruxelas. “Quero renovar o meu apelo aos líderes para me enviarem os melhores nomes para compor uma óptima Comissão”, disse, garantindo que não abdicará de uma equipa paritária. E prometendo que a distribuição das pastas importantes será “uma boa oportunidade” para promover um bom equilíbrio geográfico e reconhecer a importância do Leste.