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Palmira: Uma catástrofe para a História

A catástrofe consumou-se. A histórica cidade síria de Palmira foi conquistada na quinta-feira pelo Estado Islâmico (EI, ISIS ou Daesh). Situada num oásis do deserto sírio, a meio caminho entre o Mediterrâneo e o Eufrates, foi um grande entreposto comercial entre a Europa e o Oriente, na “rota da seda”. Encerra 40 séculos de história e foi um dos grandes focos de cultura da Antiguidade, fundindo a tradição greco-romana, a influência persa e as culturas locais sírio-aramaicas. No ano 270, Zenóbia, rainha de Palmira, tentou ser imperatriz em Roma. Foi derrotada pelo imperador Aureliano. Começou o lento declínio da cidade.

A UNESCO lançara um apelo: “É preciso salvar Palmira”, cujos monumentos são Património da Humanidade. Se a cidade cair nas mãos do Estado Islâmico, “será uma catástrofe internacional”. Que se seguirá? Teme-se o pior. Para o EI, Palmira tem importância estratégica, pois abre-lhe o deserto sírio até à província iraquiana de Anbar. Mas o principal desafio é outro e de alto valor simbólico. O “califado” de Al-Baghdadi já destruiu no Iraque parte do património da antiga Mesopotâmia.

As seculares e sumptuosas ruínas arquitectónicas de Palmira. A sua tomada pelo EI faz prever “uma catástrofe internacional” Joseph Eid/AFP

O EI quer “erradicar uma civilização”, escreveu o Daily Star, de Beirute. O Médio Oriente é um mosaico de povos, culturas e religiões. “Se deixarmos os fanáticos continuarem a atacar a diversidade do mundo árabe, a cultura, o património e a identidade, eles fá-lo-ão impunemente, o que é ainda pior do que assassinar pessoas. Aniquilarão séculos de civilização.”

Hoje, o EI recuperou a iniciativa e avança no Iraque, pondo em xeque a estratégia americana e o Governo de Bagdad. Que dizer do EI? Bárbaros, fanáticos e terroristas? Os adjectivos não ajudam. O EI já não é uma organização terrorista como a Al-Qaeda. Usa o extremo terror como instrumento táctico. Elaborou a utopia de uma comunidade de crentes “emigrando para os tempos do Profeta”.

A utopia encobre o projecto de um pseudo-Estado de muçulmanos (não de sírios ou iraquianos), com vocação universal e aspectos totalitários. As minorias — “hereges”, “apóstatas” ou “infiéis” — são seres sub-humanos passíveis de extermínio.

O filósofo John Gray frisa a sua modernidade. “É algo de novo”, nascido da intervenção americana no Iraque em 2003. Tem traços dos milenarismos medievais, traços do Camboja de Pol Pot e outros ainda dos “cartéis transnacionais do crime que operam nas tenebrosas sombras da globalização do século XXI”. É um “culto apocalíptico a conquistar um lugar no mundo moderno. (...) Esta moderna barbárie é uma assustadora nova ameaça”.

É uma organização em permanente expansão. Não pode parar. Aqui reside a ameaça e também o seu ponto fraco. Jurou Baghdadi aos seguidores: “Conquistareis Roma e possuíreis o mundo, se tal for a vontade de Alá.”