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Turquia atira-se de cabeça na guerra da Síria ao atacar curdos

“Grande pânico” no terreno, dizem as forças curdas. Retirada norte-americana da região viabilizou ofensiva turca. Aliados da NATO condenam intervenção e pedem recuo.

A Turquia iniciou esta quarta-feira a ofensiva no Nordeste da Síria contra os curdos das Forças Democráticas Sírias (SDF). A operação foi anunciada pelo Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que pretende criar uma “zona segura” numa área dominada pelos curdos e instalar cerca de dois milhões de refugiados sírios árabes para mudar a demografia da região.

“Os aviões de guerra turcos começaram a bombardear zonas civis”, disse o porta-voz das SDF, Mustafa Bali, através do Twitter. As cidades fronteiriças de Tal Abyad, Ras al-Ayn, Qamishlo e Sere Kaniye foram bombardeadas, os civis começaram a fugir em massa e as estradas depressa ficaram engarrafadas. Mas nem todos fugiram: houve quem ficasse e saísse à rua em Qamishlo e Sere Kaniye em protesto contra os turcos.

Erdogan baptizou a ofensiva “Operação Fonte da Paz”, com a qual pretende “neutralizar as ameaças terroristas contra a Turquia e estabelecer uma zona segura para facilitar o regresso dos refugiados sírios às suas casas”. De uma penada, quer desferir um golpe contra uma obsessão de segurança do Estado turco –​ a possibilidade de os curdos se organizarem como um Estado independente –​ e, ao mesmo tempo, livrar-se dos refugiados da Síria, garantido ter bem mais que uma palavra a dizer no pós-guerra do país.

​A retirada dos militares norte-americanos do Norte da Síria, ordenada por Donald Trump no domingo, viabilizou a operação que a Turquia planeava há muito tempo. Erdogan quer criar uma “zona segura” ao longo da fronteira com a Síria, com cerca de 32 km de profundidade, para onde pretende enviar os refugiados sírios no seu território. Para além disso, quer rechaçar para cada vez mais longe da Turquia forças curdas das SDF, que considera parte do movimento separatista curdo activo na Turquia.

As forças curdas descrevem um cenário de “grande pânico” e lançaram um apelo aos EUA e aliados para que seja criada uma zona de exclusão aérea sobre a região, que perfaz um quarto da Síria, alegando que os civis estão “indefesos”. Pelo menos cinco civis e três combatentes foram mortos pelos bombardeamentos, segundo o Rojava Information Center, um colectivo activista curdo. A Internet e a electricidade estão em baixo, porque s turcos quererem evitar tráfego de informação, diz a televisão TRT World.

"Má ideia”, diz Trump

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, baixou o tom que tinha elevado nos últimos dias, quando ameaçou “destruir totalmente e obliterar a economia” turca se Ancara “excedesse os limites”, e caracterizou a ofensiva turca como “má ideia”. “Os EUA não apoiam este ataque e deixo claro à Turquia que a operação é uma má ideia”, disse Trump em comunicado.

Os governos de França e do Reino Unido pediram uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU para debater a intervenção turca, que deverá acontecer quinta-feira, à porta fechada. O repúdio e pedidos de contenção de aliados dos EUA e da Turquia na NATO têm-se somado e a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, juntou a sua voz ao pedir “o fim da acção militar unilateral”. Alertou que “ameaça o progresso alcançado pela coligação mundial para derrotar o Daesh, do qual a Turquia é membro”.

“É improvável que a chamada ‘zona segura’ no Nordeste da Síria, definida pela Turquia, satisfaça os critérios internacionais para os refugiados”, lê-se no comunicado de Mogherini. E sublinhou que “qualquer tentativa de mudança demográfica será inaceitável” e que Bruxelas “não dará assistência à estabilização ou ao desenvolvimento em áreas onde os direitos das populações são ignorados”. “Não esperem que a UE pague por nada disso”, enfatizou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, no Parlamento Europeu, referindo-se à exigência turca de Bruxelas pagar para além dos seis mil milhões acordados, em 2016, para Ancara acolher refugiados.

Posição apoiada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, que condenou “veementemente” a operação turca e apelou a Ancara para que recue. “A Turquia arrisca mais desestabilização na região e o ressurgimento do ISIS [Daesh]”, afirmou Maas.

O Egipto, por sua vez, pediu uma reunião urgente da Liga Árabe, e condenou “a agressão turca contra o território da Síria”, que classificou como “um ataque descarado e inaceitável contra a soberania de um Estado árabe.”

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, tentou aplacar as críticas dos restantes membros, dizendo que a Aliança Atlântica foi informada por Ancara antes da operação e que a Turquia tem “preocupações de segurança legítimas”. “Asseguraram-me que qualquer acção tomada no Norte da Síria será proporcional e calculada”, acrescentou.

A Rússia, que se tornou um actor fundamental na guerra da Síria, fez saber que não quer envolver-se nesta operação de Ancara. O Presidente russo, Vladimir Putin, disse ao seu homólogo turco, num telefonema esta quarta-feira, que devia evitar dar passos na Síria que possam pôr em causa as negociações de paz patrocinadas por Moscovo.

Os curdos já esperavam a ofensiva e, pouco antes, declararam o estado de “mobilização geral”. “Apelamos a todas as nossas instituições, ao nosso povo, para que se dirijam para região fronteiriça com a Turquia, para que cumpram o seu dever e mostrem resistência face a estes momentos sensíveis e históricos”, afirmaram os líderes curdos num comunicado.

Os líderes curdos receiam ter de combater em várias frentes e sabem que não têm forças para isso. Mal começou a ofensiva, as SDF cancelaram as operações de combate ao Daesh por, dizem, ser “impossível levar a cabo os combates quando se é ameaçado por um grande exército”. Além disso, temem que a ofensiva turca incentive o regime de Assad a invadir o seu território pelo lado ocidental, diz o Guardian. Os curdos ver-se-iam a combater em três frentes diferentes em simultâneo: contra o Daesh, os turcos e os soldados de Assad, apoiados pela Rússia e Irão.

O telefonema

O Presidente turco garantiu ainda que a “integridade territorial da Síria” será preservada e que avisou Damasco da ofensiva pouco antes de a ordenar. Segundo um artigo do director de comunicação da presidência da Turquia, Fahrettin Altun, publicado pelo Washington Post, no telefonema da semana passada de Erdogan com o Presidente Donald Trump, este “concordou em transferir para a Turquia a liderança da campanha contra o Daesh”.

A decisão de Trump foi objecto de muita polémica, uma vez que as SDF foram aliadas fundamentais no combate contra o Daesh no Norte da Síria. A abertura de uma nova frente de conflito na guerra síria também poderá prejudicar o combate contra as restantes unidades do Daesh que permanecem activas. As SDF mantêm milhares de combatentes do Daesh presos no campo de al-Hol e há dúvidas sobre se conseguirão mantê-los detidos num contexto de combate com as forças turcas – especula-se que as forças especiais britânicas e francesas já receberam ordens para guardarem o campo se os curdos o abandonarem, diz o Guardian.

Confrontado com críticas até de aliados republicanos no Congresso, Trump negou estar a abandonar os antigos aliados e avisou Ancara de que a sua Administração está disponível “destruir totalmente e obliterar a economia” do aliado da NATO caso este “exceda os limites” na sua intervenção no Nordeste da Síria.

As forças curdas estiveram na linha da frente no combate ao Daesh durante os períodos de maior vitalidade do grupo que chegou a controlar uma vasta área na Síria e no Iraque. Até agora, contavam com o respaldo norte-americano perante a ameaça turca, para quem as ambições curdas de estabelecerem um Estado autónomo, o Curdistão, são um perigo existencial.