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Entrevista

Se Trump for reeleito, “as instituições democráticas podem enfraquecer”

Thomas Wright, da Brookings Institution, afirma que ainda é possível reverter algumas das grandes mudanças da última década na ordem internacional.

O investigador da Brookings esteve em Lisboa para uma conferência sobre os 70 anos da NATO Francisco Romão Pereira

Dirige o centro da Brookings Institution que estuda as relações entre os EUA e a Europa e acompanha de perto a forma como a visão do mundo do Presidente Donald Trump está a moldar a política externa norte-americana. Para Thomas Wright, Trump sente-se agora “livre para agir de acordo com os seus instintos”. Mas o investigador acredita que ainda é possível reverter algumas das grandes mudanças da última década na ordem internacional. Esteve em Portugal, no início da semana, para participar numa conferência sobre os 70 anos da NATO organizada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

Afirma que a retirada das tropas norte-americanas do Norte da Síria, em Outubro, foi “a decisão de política externa mais catastrófica” dos EUA desde que Trump chegou à Casa Branca. Que consequências têm essa decisão para além da que teve no imediato, com a operação ordenada pelo Presidente da Turquia, Recep Erdogan, contra os curdos?
É uma decisão com consequências muito graves para além daquilo que aconteceu no imediato, essa luz verde que foi dada ao Presidente Erdogan para invadir. De uma forma mais abrangente, vimos um Presidente Trump a decidir em tempo real, com pouca preparação, sem coordenação entre as várias agências norte-americanas, sem consultar os aliados dos EUA e sem pensar nas consequências estratégicas a longo prazo. Assistimos a uma fusão entre os tweets do Presidente e a forma como a política norte-americana é conduzida oficialmente. Em 2017, dizia-se que o processo das decisões políticas era independente daquilo que o Presidente dizia nos seus tweets.

Quando alguém se queixava de algo que o Presidente tinha dito no Twitter, havia sempre alguém na Administração a dizer que os tweets eram uma coisa e a política norte-americana era outra. Isso já não é verdade, porque algumas das pessoas mais importantes na Administração foram afastadas precisamente por tentarem reagir contra as decisões do Presidente. Agora temos um Presidente que não se contém, que pode agir como deseja. Já sabíamos que isso estava a acontecer, mas a retirada das tropas do Norte da Síria, da forma como foi decidida, foi o primeiro acontecimento importante em que pudemos confirmar essa política sem restrições por parte de Trump.

Salienta que Trump expressa as mesmas opiniões sobre política externa há 30 anos. Nesse sentido, quanto nas decisões do Presidente é pensado, e quanto é fruto de decisões em tempo real?
Comecei a estudar a visão que Trump tem do mundo há quatro anos, um ano antes das eleições de 2016. Fui ouvir tudo o que ele disse ao longo de um período de tempo muito longo, desde meados da década de 1980, e o que me surpreendeu foi que a visão que ele tem do mundo é muito consistente. O que ele disse em 1986 ou 1987 continua a dizer hoje em dia. Há três coisas que se destacam. Há uma grande preocupação com as alianças norte-americanas, com base na ideia de que o país está a pagar aos seus aliados para eles se defenderem e que esses aliados se aproveitam dos EUA.

Há também uma profunda preocupação com os défices comerciais e uma oposição ao comércio livre a que estamos habituados desde o fim da II Guerra Mundial. Ele defende uma política comercial mais mercantilista e proteccionista. E há também um apoio, no geral, ao autoritarismo e à ideia do homem-forte.

Em 1990, falou em defesa do massacre na Praça de Tiananmen, na China, e criticou Gorbatchov por não fazer o mesmo na Rússia. Essas declarações de há 30 anos são um bom indicador para o que ele diz hoje. A diferença é que agora tem uma tela em branco à frente, como Presidente. Tem ideias muito estáticas e pouco sofisticadas, e não sabe como traduzi-las de instintos viscerais para propostas políticas, mas está convencido de que sabe como quer fazer as coisas. É isso que tem acontecido nesta Administração.

No início, ele tinha pessoas ao seu lado que tentavam moldá-lo, mas essas pessoas foram sendo afastadas da Casa Branca. É muito importante percebermos que ele é um Presidente ideológico, e não alguém que apenas toma decisões em cima do joelho.

Essa visão do mundo do Presidente Trump é diferente da que nos habituámos a ver no Partido Republicano ao longo das décadas. Havia assim tanta certeza, entre os republicanos, que um candidato como Trump podia ser moldado assim que chegasse à Casa Branca?
O que acontece é que normalmente um Presidente não tem muito conhecimento sobre política externa quando chega à Casa Branca. Em muitos casos são ex-governadores, ou antigos senadores com pouco interesse em questões internacionais. Isso é normal, e a visão deles tende a ganhar forma à medida que vão ganhando experiência e com os conselhos dos especialistas. Mais cedo ou mais tarde, ficam mais à vontade nos assuntos internacionais. Mas com Trump isso é diferente, porque ele chegou à Casa Branca convencido de que sabe tudo o que há para saber. E convencido de que tem razão há 30 anos, sendo que agora, finalmente, os eleitores votaram nele e deram-lhe razão. 

Há um arco na presidência dele que é diferente do que aconteceu com anteriores presidentes. Chegou à Casa Branca com os seus pontos de vista e constatou que ninguém concordava com ele. Então, contratou empresários, como ele, e figuras militares, mas essas pessoas também acabaram por se revelar mais moderadas. Depois, sentiu-se frustrado e afastou-os, num processo que aconteceu durante o ano de 2018. E agora está livre para agir de acordo com os seus instintos.

Essa liberdade de acção na Casa Branca está a testar as instituições americanas? Há sinais de que algo já se alterou de forma duradoura nas relações entre o Congresso e a Casa Branca, por exemplo?
As restrições institucionais que existem sobre ele são reais. Mas não são perfeitas, e não são invulneráveis. Precisamos delas, e são uma grande ajuda, e se não as tivéssemos aconteceriam coisas muito más. Mas não conseguem travar tudo e não duram para sempre. O que as restrições institucionais permitem é que se ganhe tempo para que os eleitores corrijam a situação de forma democrática. Se temos uma presidência que prejudica as instituições do Estado, as instituições dão-nos tempo para que a derrotemos nas próximas eleições. Mas se esse Presidente continuar a ganhar eleições, isso significa que as pessoas decidiram não exercer esse controlo. E, nesse caso, as instituições democráticas podem enfraquecer com o passar do tempo.

Em termos pessoais, Trump não é diferente de alguém como Viktor Orbán. O que faz a diferença entre eles são as instituições do país. As ideias de Trump são as de um homem-forte autoritário, mas ele está numa democracia muito forte, com instituições muito fortes. Isso restringe a sua acção, mas na cabeça dele esses limites não existem. Ele acha que é legítimo interferir com os tribunais ou com a imprensa livre.

Trump já sugeriu, talvez de forma irónica, que pode ficar na Casa Branca mesmo que perca as eleições em 2020. Pode haver problemas graves no período de transição, se ele não for reeleito?
Penso que não. Espero não me enganar, para bem do país, mas acho que não. As instituições são suficientemente fortes para garantir a saída dele. Se fosse um país mais fraco em termos democráticos, talvez isso fosse possível, por exemplo, com o envolvimento dos militares. Mas isso não está sequer em questão. Nos EUA há um grande respeito pela separação entre as instituições civis e militares. Se a votação for renhida, talvez ele ponha em causa o resultado, e isso vai agravar o clima de divisão no país. Mas a sugestão de ficar na Casa Branca não é sequer uma opção, mesmo que seja esse o seu desejo. O partido dele iria deserdá-lo.

Houve outros momentos em que foi vaticinado esse afastamento do Partido Republicano em relação ao Presidente Trump.
Muita gente no Partido Republicano e no Congresso sabe, há muito tempo, que Trump é um problema, mas essas pessoas ainda não o rejeitaram totalmente. Contestam-no em algumas ocasiões, em relação a determinadas decisões políticas, como a retirada da Síria, ou as suas declarações sobre a NATO. Têm medo que ele mobilize as bases do partido e que isso os faça perder os seus lugares no Congresso. Isso é muito desanimador, porque não faltam exemplos de países em que as pessoas se revoltam mesmo quando a vida delas está em risco. Mas nos EUA têm hesitado porque podem perder eleições. Infelizmente é isso que acontece, e é o que estamos a ver também com o apoio do Partido Republicano ao Presidente Trump no processo de impugnação.

Mas acho que ainda há uma grande diferença, porque o Partido Republicano não aderiu totalmente à abordagem de Trump. Neste momento, se por alguma razão Trump saísse da Casa Branca, o legado dele não iria perdurar no partido. Se ficar mais quatro anos, então as coisas podem começar a mudar ao longo do tempo porque as pessoas que se opõem a ele vão sendo afastadas.

O Presidente Trump é mais um motor das mudanças políticas dos últimos anos, ou uma consequência de mudanças mais profundas que não foram percebidas no devido tempo?
Nada disto teria acontecido se não fosse a crise financeira de 2007 e 2008. Se olharmos para a história das crises financeiras, quando há um acontecimento da gravidade daquele que aconteceu em 2007 e 2008, segue-se quase sempre uma convulsão geopolítica, como aconteceu na década de 1930, por exemplo. O que aconteceu na crise financeira mais recente foi que estávamos habituados a uma falsa sensação de segurança.

Se em 2012 tivéssemos avaliado os efeitos da crise financeira de 2007 e 2008, teríamos uma perspectiva mais optimista do que aquela que temos hoje. O populismo parecia ter recuado um pouco, as coisas pareciam estar de volta a um bom caminho. Mas o que realmente estava a acontecer era que o populismo estava a começar a entrar no sistema. Isso explodiu em 2016 com o referendo do “Brexit” e com a eleição de Trump. A vitória de Trump é uma consequência disso e também das tensões culturais que surgiram durante a presidência de Obama, que deram origem a uma reacção.

Falou nas mudanças políticas após a crise financeira de 1930 nos EUA, que culminaram na II Guerra Mundial. Corremos o mesmo risco?
Acho que não corremos o risco de um conflito dessa dimensão, mas estamos a assistir à falência da ordem internacional. O mundo está a mudar para algo muito diferente. Ainda há tempo para travar essa mudança, mas a ordem liberal internacional, ou a ordem multilateral, enfrenta um grande problema. Basta olharmos para a entrevista do Presidente Macron, na semana passada, à revista Economist. Ele falou sobre uma transição geopolítica que deve ter em conta a mudança da posição dos EUA, para uma Europa mais flexível e mais próxima da Rússia, sem especificar as consequências disso para o Leste europeu. Isso não seria imaginável há cinco ou dez anos.

Essas declarações do Presidente francês podem prejudicar as hipóteses de um regresso a uma ordem mundial mais próxima da que existiu desde a II Guerra Mundial?
O que ele disse não abre possibilidades quanto a restaurar-se essa ordem multilateral internacional que existia. Isso é verdade. Ele está a seguir no sentido de uma proposta alternativa que ainda não é clara. E agora convivemos também com muitos líderes que não respeitam as restrições institucionais, que são autoritários ou que estão mais inclinados para a ideia do homem-forte. Isso acontece no Brasil e na Hungria, por exemplo, e também com as recentes vitórias do Partido Lei e Justiça na Polónia. Há Estados autoritários a divergirem para ditaduras em termos de concentração de poder numa só pessoa e no uso da repressão. É um mundo diferente daquele que existia em 2007, que é uma comparação interessante, imediatamente antes da crise financeira.

Nos EUA havia discursos a favor da ordem internacional, havia esperança na Rússia do presidente Dmitri Medvedev, e pensava-se que a China talvez estivesse a ficar mais tolerante. E a situação económica era mais positiva do que é hoje em dia. As coisas mudaram muito e muito rapidamente. Os anos 1930 são uma comparação errada no sentido em que todos sabemos o que aconteceu no fim. E o que aconteceu deveu-se em grande parte a um único líder, Adolf Hitler. Mas acho que a fluidez da situação internacional naquela época é a mesma que temos agora. Ainda há tempo para se fazer um realinhamento no sentido de uma ordem internacional multilateral e para termos uma abordagem de maior cooperação, mas será cada vez mais difícil se a tendência actual continuar.

A postura mais assertiva no plano internacional de países como a China ou a Rússia começou antes de Trump chegar à Casa Branca. Do ponto de vista norte-americano, o que falhou para que isso tenha acontecido?
O que acontecia era que os EUA julgavam ser possível confrontar a postura comercial mercantilista da China, ou o revisionismo da Rússia, e ainda assim colaborar com ambos no plano internacional. Seria possível manter causas comuns, como o aquecimento global, por exemplo, embora num cenário internacional mais competitivo. Obama teve algumas políticas que iam nessa direcção, mas ele era também muito mais optimista em relação ao mundo. Achava que a Rússia acabaria por derrotar-se a si própria, que era uma potência em declínio, e que, por isso, não era uma grande preocupação.

Em relação à China, achou que a resposta era uma presença mais forte dos EUA no Sudeste asiático. Havia, de facto, correcções a fazer perante o crescente autoritarismo do presidente Xi Jinping, por exemplo. Mas Trump levou tudo isso numa direcção totalmente diferente. Ele está mais preocupado com o aspecto comercial do problema do que com a geopolítica. Vemos isso na sua postura perante o que está a acontecer em Hong Kong. Basicamente ele disse a Xi Jinping que pode fazer o que quiser para lidar com a situação no território.

Nesse caso, que hipótese terá um futuro Presidente norte-americano, mais preocupado com a geopolítica, de voltar a exercer um maior controlo sobre as decisões de países como a Rússia ou a China?
Talvez esses países não venham a recuar, mas talvez não tenham tanto sucesso como têm agora. Para contrariar a influência da Rússia ou da China no Centro e no Leste da Europa, os EUA e a Europa deviam estar a garantir que as instituições democráticas são suficientemente fortes para que esses esforços não tenham sucesso. Também será possível trabalhar em maior proximidade com os aliados mais antigos, para garantir que a China tenha sucesso económico sem passar a ser dominante na região da Ásia-Pacífico. É difícil imaginar que Putin mude de rumo, que chegue à conclusão de que é preciso reformar as instituições e aproximar-se do Ocidente. E Xi Jinping está cada vez mais no mesmo barco.

Num certo sentido, ambos têm medo do Ocidente porque sentem que uma maior abertura pode minar os seus regimes. E não estão necessariamente errados em relação a isso, do ponto de vista deles. No fim-de-semana, o New York Times publicou um trabalho muito importante sobre a China, e só podemos imaginar como é que foi recebido em Pequim em termos de estabilidade do regime. Isso não aconteceu por causa do Presidente dos EUA, aconteceu por causa do exercício de uma imprensa livre. Se pensarmos em como Moscovo e Pequim olham para o mundo, há sempre preocupações com a transparência, com organizações não governamentais, com a imprensa, com as redes sociais. É improvável que esses dois líderes em particular mudem de opinião, mas acho que é possível convencê-los a recuar um pouco com base numa nova avaliação de custo-benefício. 

A entrevista do Presidente francês pode indicar que esse possível realinhamento entre os EUA e os antigos aliados será mais difícil do que parece?
O que ele disse na entrevista à Economist é que a Rússia se tornou mais hostil porque está convencida de que o Ocidente quer atacá-la e que isso não é verdade. Com a diminuição da presença militar norte-americana no mundo, Macron acha que todas as decisões de segurança que afectem a Europa têm de envolver a Rússia, e acha que o principal problema da Europa é o Sul, e não o Leste da Europa. Para ele, a NATO já não tem grande utilidade. Isso é um erro por várias razões.

Ele não vê uma ameaça a Leste, mas essa não é a opinião dos países da Europa de Leste. Macron devia estar preocupado com a ingerência e a corrupção russas na Europa e nos EUA. Só porque isso não afectou a eleição dele, apesar de ter havido uma tentativa nesse sentido, não significa que não seja um problema. Por vezes os representantes franceses são muito complacentes. Quando resolvem um assunto, pensam que esse assunto deixou de ser importante. Também não é claro que o resto da Europa concorde com a forma como a França define a ameaça do Sul.

O maior problema no que toca ao diagnóstico que Macron faz da Rússia é que eu acho que não existe nenhum mal-entendido com o Ocidente. Pode não haver uma intenção directa de minar o regime de Putin, mas um dos efeitos de uma sociedade aberta é que o regime dele será minado. E ele sabe isso. Esta é a realidade, não vale a pena concordar ou discordar. A reacção da Rússia aos acontecimentos na Ucrânia não foi provocada pela aproximação do país à NATO, foi por causa da parceria com a União Europeia.

O segundo erro é achar-se que é possível convencer a Rússia de que não existe uma ameaça para o seu regime. E, mesmo que isso fosse verdade, de que forma seria possível acalmar as preocupações de Xi Jinping sobre as revelações do New York Times no fim-de-semana passado, por exemplo? Um Presidente democrático não pode envolver-se nesse debate. O que significaria para a Ucrânia e para o Leste da Europa deixar de lutar contra a corrupção nos seus países? Todas estas questões iriam surgir – o que seria preciso fazer para que a Rússia acreditasse que a Europa não iria pôr em causa os seus objectivos? Eu acho que nada seria suficiente. Dizer que não queremos alargar a NATO e que não queremos derrubar o seu regime não seria suficiente.

Pelo menos dois dos favoritos nas eleições primárias do Partido Democrata, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, não garantem um regresso à política externa tradicional dos EUA. No caso de um deles ser eleito, o que poderá mudar?
O que eles têm dito nos últimos dois anos sobre política externa tende a ser relativamente convencional. Ambos identificam o autoritarismo como principal desafio e dizem que é preciso trabalhar com outras democracias para resistir ao seu crescimento no mundo. E são muito cépticos em relação a alianças com autocracias, como é o caso do envolvimento na guerra civil no Iémen ao lado da Arábia Saudita, por exemplo. No campo económico tendem a divergir do Partido Democrata do passado, mas em termos de segurança não são muito diferentes. São muito diferentes de Trump no sentido em que as suas propostas não são radicais.

Dito isto, podemos assistir a uma mudança em termos de política externa porque ambos estão mais preocupados com a política interna dos EUA. Ou seja, estão à procura de uma política externa que lhes permita atingir os seus objectivos internos. Warren e Sanders vão tentar cortar no orçamento militar para pagar as suas prioridades internas, principalmente na saúde e na educação. Há alguma preocupação na Europa por causa disso, em particular com a proposta de Warren para a retirada das tropas norte-americanas do Médio Oriente, ainda que se refira apenas às tropas no terreno. Isso vai ser um desafio para países como a França.

Com uma presença militar menos ambiciosa e uma política comercial mais céptica em relação à globalização, de que forma podem os candidatos mais progressistas do Partido Democrata tranquilizar os velhos aliados dos EUA?
Há um caminho que pode ser feito para se reduzir o orçamento militar e continuar a ser-se competitivo nesse plano. A realidade é que o exército tem de mudar em resposta às mudanças tecnológicas. Talvez já não precisemos de equipamentos do passado, não por serem caros mas porque podem não ser eficazes. Há um grande debate sobre a importância dos porta-aviões, por exemplo, numa era de drones e inteligência artificial. Pode haver uma forma de modernizar o equipamento e cortar custos. Em relação aos tratados e acordos internacionais, isso será um desafio.

Um Presidente do Partido Democrata irá voltar a pôr os EUA no Acordo de Paris e tentará reanimar o acordo sobre o programa nuclear do Irão. Mas a verdade é que o mundo está hoje mais hostil do que há quatro anos ou há dez anos. Há menos alinhamento entre os EUA, a China e a Rússia do que havia. E hoje temos casos como o do Brasil, que há dez anos fazia parte dos BRICs, e agora Macron e Bolsonaro nem sequer se falam.

O clima é muito mais duro e os EUA vão ter de mudar a forma como pensam a sua estratégia diplomática. A chave será trabalhar com países que partilham os mesmos objectivos, para se criar um grupo coeso, e depois negociar com os países que têm objectivos diferentes. E tentar fazer progressos a partir de uma posição de força. Mas acho que o próximo Presidente norte-americano vai encontrar uma situação muito mais difícil.

Há dois anos, poucos previam o aparecimento de partidos xenófobos e anti-imigração na Península Ibérica. Quatro anos depois do pico da chamada “crise dos refugiados” na Europa, é provável que os partidos extremistas continuem a crescer?
É uma luta geracional e acho que essa tendência de crescimento vai continuar. É uma divisão que não pode ser resolvida com uma eleição, seja nos EUA ou na Europa. Vimos esse movimento crescer nos últimos dez anos, com o populismo à direita e à esquerda, mas em particular à direita, a registar ganhos eleitorais. Não é dominante na maioria dos países, mas isso não significa que não tenha impacto. É um grande desafio, não só para o centro-direita mas também para o centro-esquerda, que tem sofrido uma crise em toda a Europa.

Partidos populistas, em particular à direita, são importantes não só por aquilo que representam, mas também pela forma como podem mudar o centro-direita, que algumas vezes se aproxima dos extremos para tentar travar a perda de votos. Vimos isso no “Brexit”, por exemplo. Nigel Farage não tem deputados e tem muito pouco apoio eleitoral, mas durante este processo foi ele quem ditou o resultado. Cameron deu-lhe o referendo. Farage tinha um apoio pequeno, mas era uma ameaça aos tories.

Há uma razão para que eles se tenham aproximado da ideia de um “Brexit” sem acordo e que se mantenham por lá. No resto da Europa também fomos assistindo a uma maior aproximação a políticas mais restritivas em relação à imigração, por exemplo. Esta é a nova divisão. Macron tem razão nisso, a questão já não se põe entre o centro-esquerda e o centro-direita; põe-se entre o centro, na esquerda e na direita, e as narrativas mais populistas sobre comércio global e a cooperação internacional.