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Análise

Trump e Khamenei. Que acontecerá a seguir?

Ataque americano e resposta iraniana. Quem dissuadiu quem? Passado este teste, Iraque volta ao primeiro plano, com terreno da nova fase do conflito.

A interrogação do título tem uma resposta óbvia: ninguém sabe o que vem a seguir, nem sequer os protagonistas do conflito, ou sobretudo eles. Mas isso não nos proíbe de tentar perceber o que mudou e está a mudar no grande tabuleiro de xadrez do Golfo Pérsico e do Médio Oriente. A retaliação iraniana, na noite de 7 de Janeiro, contra duas bases americanas no Iraque desmentiu as expectativas de apocalipse e mudou a nossa percepção do confronto. De um dia para o outro, o conflito parece deixar a rota de colisão e os observadores suspiram de alívio. A crise está ultrapassada. Resta saber em que terreno se vai agora o conflito desenrolar.

Antes disso, há outra questão: “Importa saber quem ganhou este round num conflito de 40 anos”, propõe Tom Nichols, professor de Relações Internacionais na Escola de Guerra da Marinha norte-americana. Alguns analistas, e militares como o general David Petraeus, assinalaram que o assassínio de Qassem Soleimani, a 3 de Janeiro, não obedeceu a um impulso de Trump mas visou “restabelecer a dissuasão”. No primeiro momento, a contenção manifestada pelos iranianos pareceu corroborar essa tese. “Isto é a vitória última de Trump”, escreve no New York Times o colunista David Brooks. “O impulsivo, narcisista e intelectualmente desonesto Trump” ri-se dos detratores.

O jogo da dissuasão

Aqui, as opiniões divergem. Por tradição e instinto de sobrevivência, o regime iraniano nunca responde impulsiva ou cegamente. “Os iranianos procurarão vingança – metódica, com sangue-frio e horrível – mas evitarão uma guerra aberta com os Estados Unidos, que não podem ganhar”, anota o antigo vice-secretário de Estado William Burns. “Mas tentarão transformar um revés táctico numa vantagem estratégica.” Sublinha que “estrategicamente, a liderança iraniana não terá falta de oportunidades”, no plano interno e no plano regional. “No Golfo, os nossos aliados estão a perder o entusiasmo por um confronto dos americanos com o Irão.”

Nichols raciocina ao contrário de Petraeus. “Os americanos golpearam os iranianos, mas a resposta do Irão foi calibrada e inteligente, o que sugere que Teerão é melhor do que Trump e seus conselheiros no jogo da dissuasão.” Trump congratulou-se com o perfil baixo da resposta iraniana. Os mísseis de 7 de Janeiro foram particularmente precisos e não feriram nenhum militar americano. “Os iranianos indicaram aos americanos uma via de saída da crise criada por Trump. Quiseram assinalar aos decisores americanos (ou a quem seja capaz de compreender os sinais) que estão a querer parar a escalada.” É obviamente do interesse do Irão evitar uma escalada até à guerra aberta”.

Neste caso, o Irão não retaliou através de um proxy, como o Hezbollah libanês ou uma milícia xiita iraquiana. Foi uma acção militar do Irão e imediatamente reivindicada. Com um aspecto complementar: “O Irão evitou o uso de mísseis balísticos contra qualquer outro Estado desde a guerra Irão-Iraque [1980-88]. Os americanos mostraram que quiseram matar líderes iranianos. Os iranianos mostraram que são capazes de usar mísseis balísticos e que, na próxima vez, podem não ser apontador para falhar o alvo.”

A mesma pista é seguida por Zvi Bar’el, veterano analista militar do diário israelita Haaretz. A retaliação iraniana terá tido vários objectivos. “Primeiro, a resposta ao assassínio de Soleimani. O ataque sinaliza também a determinação iraniana em defender a sua influência na região e responder às exigências de vingança expressa pela população e pelo regime.”

Conclui: “Certos detalhes do ataque indicam também o nível de contenção por parte do Irão. Preveniu o governo iraquiano com avanço, dando tempo aos EUA e ao Iraque, para se prepararem. A precisão do ataque autoriza o Irão a escolher cuidadosamente os alvos, evitando baixas e dando aos EUA uma fácil rampa de ‘desescalada’. Por outro lado, o carácter cirúrgico do ataque serve também de aviso sobre potenciais futuros ataques.”

Regresso do Iraque

“Dois testes definirão se o assassínio [de Soleimani] foi um sucesso – o seu efeito enquanto dissuasão e o poder regional do Irão”, observa a Economist desta semana. “O efeito benéfico do ataque de 3 de Janeiro foi restabelecer a ideia de que a América está decidida a contra-atacar.” O segundo teste diz respeito à influência do Irão sobre países vizinhos e a teia de movimentos que a Força al-Quds controla. “Depois do assassínio, o Irão está determinado em empurrar a América para fora do Médio Oriente. E começará pelo Iraque.”

É difícil determinar com clareza os objectivos da Administração Trump. Formalmente quereria impor ao Irão uma renegociação do acordo nuclear, em termos que significariam uma rendição pura e simples. De facto, o que pareceu sempre estar na mira de Trump era uma “mudança de regime” através da guerra económica: “submeter pela fome”. Mas, 40 anos depois da Revolução Islâmica, o regime mostra-se resiliente. A eliminação de Soleimani terá dois efeitos imediatos: reforça a coesão interna do regime, neutralizando os protestos sociais, e põe termo a qualquer via de negociação. Rompeu todas as pontes por tempo indeterminado. Com evidentes riscos de escalada. Nenhuma das partes quer a guerra mas isso não basta para a evita.

Trump está perante um dilema: o da sua presença no Médio Oriente. Finda a sua dependência do petróleo do Golfo, que sentido faz a sua presença na região? A prioridade americana seria a Ásia e não gastar triliões e sacrificar vidas americanas no Golfo. Mas não é assim tão simples. “O Golfo é demasiado importante para deixar”, observa Antonhy Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), de Washington. “Difícil de deixar sobretudo quando sair significa abrir as portas a uma imprevisível mistura de extremismo, guerra civil, Estados falidos como a Síria e o Iémen” - em proveito do Irão, da Rússia, da China e da Turquia de Erdogan, que estão a ocupar o vazio deixado.

É aqui que o Iraque volta ao primeiro plano, com terreno da nova fase do conflito. É o país-chave da região do Golfo, mas também para a estratégia regional iraniana. Ironia da História: foram os americanos quem, em 2001, no Afeganistão e, em 2003 no Iraque, desembaraçou Teerão de dois inimigos irredutíveis: os taliban e Saddam Hussein. Os EUA de George W. Bush tinham por ambição implantar um “regime amigo” no Iraque. Mas o Irão foi o verdadeiro vencedor dessa guerra. Hoje, a pergunta é: vão os Estados Unidos retirar-se do Iraque? Voltarei ao tema.