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Trump insiste em ver Clinton atrás das grades, mas o seu attorney general bate o pé

Jeff Sessions está sob forte pressão da Casa Branca para nomear um procurador especial. Os críticos do Presidente falam em perseguição política e tentativa de branqueamento da investigação sobre a Rússia.

Jeff Sessions prestou esclarecimentos no Congresso esta terça-feira Aaron P. Bernstein/Reuters

Em Fevereiro do ano passado, quando as eleições primárias no Partido Republicano começavam a indicar que Donald Trump tinha mais hipóteses de vencer do que poderiam sugerir as piadas sobre a sua campanha, um senador da ala mais conservadora do Partido Republicano subiu a um palco no Alabama e jurou lealdade ao candidato que prometia tornar a América grande outra vez. Nesse dia, Jeff Sessions já sabia que o seu apoio iria ser pago com um cargo importante numa possível Administração Tump, mas estava longe de imaginar que a sua relação com o futuro Presidente iria descer até ao nível Tom and Jerry poucos meses depois da chegada de ambos à Casa Branca – e agora essa relação vai azedar ainda mais, depois de Sessions ter ido ao Congresso dizer que não há provas para se investigar Hillary Clinton.

Em causa estão vários casos que envolvem o nome da candidata do Partido Democrata às eleições presidenciais do ano passado – se pôs em causa a segurança nacional ao usar um servidor particular para enviar e receber e-mails quando foi secretária de Estado da Administração Obama, entre 2009 e 2013; se facilitou a venda de uma empresa canadiana de extracção de urânio à Rússia, em 2010, em troca de financiamento para a Fundação Clinton; ou o que disse o seu marido, Bill Clinton, à então attorney general, Loretta Lynch, numa conversa privada durante a investigação do FBI aos e-mails de Hillary Clinton.

Estes são alguns dos pontos que têm levado os apoiantes de Donald Trump a exigirem que Hillary Clinton seja presa – ficaram na memória os gritos de "Lock her up" (prendam-na) em comícios e na convenção nacional do Partido Republicano, no Verão passado. A esses gritos, Trump começou por prometer que, se chegasse à Casa Branca, iria ordenar que o Departamento de Justiça nomeasse um procurador especial para investigar Hillary Clinton – uma promessa que pareceu ter deixado para trás no seu discurso de vitória, em Novembro do ano passado, quando elogiou Hillary Clinton.

"Não há indícios suficientes"

Só que os primeiros meses de Trump na Casa Branca têm sido dominados pela investigação às suspeitas de que a sua campanha andou de braço dado com a Rússia para prejudicar a campanha de Hillary Clinton – por isso, aquela promessa de pôr um procurador especial atrás de Clinton voltou à ordem do dia.

É aqui que entra o actual attorney general, Jeff Sessions – aquele senador do Alabama que deu o seu apoio a Donald Trump em Fevereiro do ano passado, numa altura em que o magnata do imobiliário ainda era visto com muita desconfiança no Partido Republicano.

Esta semana, o homem que Trump nomeou para tomar conta da Justiça do país no cargo de attorney general (uma espécie de mistura entre um ministro da Justiça e um procurador-geral) fez uma revelação em resposta às perguntas de um congressista do Partido Republicano: como responsável pela Comissão de Assuntos Judiciários da Câmara dos Representantes, Bob Goodlatte perguntou-lhe se iria, ou não, nomear um procurador especial para investigar Hillary Clinton.

A resposta oficial mantém a porta aberta para essa nomeação, mas também abre uma outra porta, de que Jeff Sessions tanto precisa. Se os procuradores federais (que não são nomeados pela Administração Trump) a quem ele deu a tarefa de analisarem se Clinton deve ou não ser investigada decidirem que sim, então o attorney general poderá dizer que não se vergou às exigências de Donald Trump – foram os procuradores, independentes, que assim decidiram; se a resposta for negativa, o attorney general pode virar-se para o seu Presidente e encolher os ombros, com o argumento de que fez tudo o que podia – foram os procuradores, independentes, que assim decidiram.

Mas poucas horas depois de o Departamento de Justiça ter deixado a porta entreaberta para a nomeação de um procurador especial, o attorney general foi até à Câmara dos Representantes para ser ouvido na Comissão de Assuntos Judiciários, numa audição já marcada. E as suas respostas foram tudo menos música para os ouvidos de Donald Trump. Não só Sessions recusou esconder-se na resposta do comunicado oficial, como deu a entender que esse comunicado traduzia uma hipótese muito remota quando se referia à possível nomeação de um procurador especial.

Questinado pelo congressista Jim Jordan, do Partido Republicano, sobre o que seria preciso para investigar Hillary Clinton, o attorney general respondeu com uma crítica às acusações feitas pelos apoiantes de Donald Trump: "Você pode ter a sua opinião, mas às vezes temos de estudar os factos e avaliar se eles atingem os padrões necessários."

No seguimento da mesma discussão com Jim Jordan, quando o congressista insistiu nas suspeitas sobre Clinton, Jeff Sessions foi ainda mais contundente: "Eu diria que 'parece que' não é base suficiente para se nomear um procurador especial. Neste momento não há indícios suficientes para se nomear um procurador especial."

Perseguição política

Se o Departamento de Justiça nomear um procurador especial, o Partido Democrata irá certamente acusar a Casa Branca de estar a usar o attorney general para abafar a investigação em curso sobre a Rússia (o Departamento de Justiça responde ao Presidente, mas desde o escândalo Watergate, na década de 1970, a Casa Branca só se pronuncia sobre a orientação política e nunca sobre investigações criminais particulares). Nesse sentido, a pressão pública do Presidente Trump para que o Departamento de Justiça investigue Hillary Clinton é vista pelos seus críticos como uma ingerência grave – e a insistência do Presidente em acusar a candidata derrotada nas eleições do ano passado é comparada ao comportamento de países com democracias frágeis, onde os vencedores perseguem os vencidos depois das eleições.

Os críticos de Trump dizem também que as acusações feitas pelo Partido Republicano a Hillary Clinton já foram investigadas, pelo que a reabertura desses processos seria uma caça às bruxas – no caso dos e-mails, o FBI decidiu não recomendar uma acusação formal contra Hillary Clinton; no caso da venda da empresa canadiana à Rússia, ninguém encontrou provas de que Hillary Clinton tenha participado na autorização que o seu Departamento de Estado deu ao negócio (que teve também a aprovação de muitos outros departamentos da Administração Obama); e no caso da conversa entre Bill Clinton e Loretta Lynch, o então director do FBI, James Comey, disse que ainda admitiu sugerir a nomeação de um procurador especial, mas chegou à conclusão de que seria "injusto", porque sabia que "não havia caso".

Amizade estragada

A decisão do Departamento de Justiça sobre o futuro de possíveis investigações a Hillary Clinton é o primeiro sinal de que a relação de Jeff Sessions com Donald Trump está prestes a tomar um novo rumo, para o bem ou para o mal – uma relação que começou a azedar em Março, quando o attorney general anunciou que não iria ter qualquer participação em investigações sobre as suspeitas de conluio entre a campanha de Donald Trump e a Rússia.

A ideia de Sessions era acalmar as acusações de que ele próprio estava metido em negócios escuros com os russos, já que não tinha dito ao Congresso, durante as audições para a sua nomeação, em Janeiro, que se tinha reunido em 2016 com o então embaixador da Rússia em Washington, Sergei Kisliak – essas conversas foram reveladas pelos jornais norte-americanos em Fevereiro, e Sessions respondeu aos pedidos de demissão que vinham do Partido Democrata com a decisão de se manter à margem de qualquer investigação sobre a Rússia.

Só que essa decisão atirou o attorney general para um lugar ainda mais desconfortável do que o grelhador do Partido Democrata. Pouco depois de Sessions se ter afastado das investigações sobre a Rússia, o seu adjunto e novo responsável por essas investigações, Rod Rosenstein, decidiu nomear um procurador especial para acompanhar o caso – um passo em frente que Donald Trump não esperava, e pelo qual responsabilizou publicamente Jeff Sessions.

Desde então, o Presidente norte-americano tem feito tudo para encostar o seu attorney general à parede, tornando a sua continuidade no cargo uma tarefa cada vez mais insustentável – no Twitter ou nos seus famosos comícios, Trump disse várias vezes que Sessions tem uma posição "muito fraca" em relação a Clinton, e deu a entender que a situação do attorney general é frágil porque ele está "cercado".

Como Presidente, Trump poderia atalhar caminho e despedir Jeff Sessions da liderança do Departamento de Justiça, mas essa decisão seria vista como mais uma admissão de culpa e um sinal de que a Casa Branca está mesmo desesperada para obstruir a Justiça – até porque o Presidente já despediu o director do FBI, James Comey, e foi essa decisão que deu um novo impulso às investigações sobre a Rússia.