Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Para Trump, “está bem” que a Rússia ajude Damasco na Síria

“Os curdos não são anjos nenhuns”, diz o Presidente norte-americano, que não vê problema em que a Rússia apoie Assad. Comandante curdo diz que “Moscovo é o garante do nosso acordo com o Governo da Síria após a retirada dos Estados Unidos.”

Donald Trump a falar sobre os curdos e a ofensiva turca na Casa Branca Jonathan Ernst/REUTERS

Apesar de ter mandado retirar as tropas americanas do Nordeste da Síria, possibilitando a ofensiva turca contra os curdos, Donald Trump garante que “isso não tem nada a ver” com os americanos. E também não parece preocupado por passar a responsabilidade da região para Vladimir Putin, que é suporte do regime de Bashar al-Assad – disse que “estava bem” que a Rússia ajudasse Damasco. O seu objectivo, desde sempre, é trazer soldados norte-americanos para casa.

No entanto, diz querer que o Presidente turco, Recep Erdogan, declare um cessar-fogo. Por isso, o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado norte-americanos vão quinta-feira a Ancara tentar convencer Erdogan a mandar parar o avanço na Síria.

“Os curdos agora estão muito mais seguros”, garantiu o Presidente norte-americano. “Os curdos sabem lutar e, como já disse, não são anjos nenhuns”, afirmou. “É melhor impor sanções do que lutar”, disse sobre a Turquia.

“A Rússia é o garante do nosso acordo com o Governo sírio, após a saída dos EUA. Se o Governo Sírio não puser o acordo em prática, não negociaremos outros assuntos”, disse Mazloum Kobani, comandante das Forças Democráticas da Síria, a aliança em que participam as milícias curdas que controlavam, até agora o Nordeste do país, citado pela Reuters. “O acordo com Damasco ainda não foi aplicado, é preciso que as forças [de Assad] sejam colocadas ao logo de toda a fronteira].”

Até membros Partido Republicano criticaram as acções de Donald Trump, que ordenou a retirada imediata das tropas norte-americanas colocadas no Nordeste da Síria, junto dos curdos, após um telefonema do Presidente Erdogan. O Congresso prometeu sanções “do inferno”, equivalentes às que impõe ao Irão. Mas as sanções económicas aplicadas pelos EUA divulgadas na terça-feira foram consideradas insuficientes – não impedem o acesso da Turquia aos mercados financeiros.

Por isso, Erdogan, desvalorizou-as. O Presidente turco garantiu que não vai decretar um cessar-fogo até que sejam cumpridos os seus objectivos: a expulsão das milícias curdas sírias, até agora aliadas dos norte-americanos na guerra contra o Daesh, para longe da fronteira e o regresso de pelo menos dois milhões de refugiados sírios que estão na Turquia ao seu país de origem.

Mais, Erdogan disse que pode não manter a visita que tem marcada para Washington em Novembro, devido ao que considerou “um desrespeito” dos políticos norte-americanos, que criticaram a ofensiva da Turquia contra os curdos.

“Dizem que tenho de ‘declarar um cessar-fogo’. Nunca declararei um cessar-fogo”, assegurou Erdogan.

Enquanto isto acontece, tropas do Presidente sírio Bashar al-Assad – e da Rússia, que se tornaram o sustentáculo do regime – atravessaram esta quarta-feira o rio Eufrates e alcançaram os limites da cidade curda de Kobane. “As forças russas chegaram a cerca de 4,5 km da cidade”, disse Rami Abdulrahman, director do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma organização com sede no Reino Unido mas com uma rede de monitores na Síria.

Kobane, que durante muito tempo esteve nas mãos do Daesh, e cuja reconquista pelos curdos se tornou um dos símbolos da guerra na Síria, abriu agora as portas às tropas de Assad e de Moscovo. Faz parte do acordo entre os curdos e Assad para impedir que os turcos tomem as cidades mais importantes do Nordeste da Síria – acabando com o sonho de grande autonomia da população curda naquela região, que foi possibilitado durante estes anos de guerra graças à aliança com os Estados Unidos para combater o Daesh.

A televisão Al-Mayadeen do Líbano noticiou que forças sírias, com o apoio da Rússia, estão também a patrulhar Raqqa, que foi a capital do Daesh, até ter sido reconquistada pelos curdos em 2017, com apoio norte-americano.

Na terça-feira, o mesmo tinha acontecido com Manjib, outra grande cidade do Nordeste da Síria. Bandeiras russas e sírias flutuam em vários edifícios.

Erdogan, que deve visitar Moscovo ainda este mês, diz que o avanço das forças especiais russas com as tropas de Assad para controlar o terreno – e efectivamente impedir o avanço turco – não o incomoda. “Disse ao sr. Putin que a Rússia pode entrar em Manjib, desde que a milícia curda [síria] YPG saia de lá”, afirmou.

Com retirada dos EUA do terreno no Nordeste da Síria, a Rússia é a grande ganhadora, ainda mais que Assad, da guerra da Síria, que dura há oito anos, em termos geopolíticos. Finca solidamente a sua posição no Médio Oriente.