Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Trudeau vence eleições sem maioria absoluta

O primeiro-ministro e líder do Partido Liberal canadiano terá agora de negociar apoio parlamentar e aprovação de leis com os outros partidos.

Trudeau viu-se envolvido em três escândalos que o fragilizaram pouco antes das eleições Reuters/Carlo Allegri

O primeiro-ministro e líder do Partido Liberal canadiano, Justin Trudeau, venceu as eleições legislativas desta segunda-feira. O seu partido não deverá conquistar a maioria absoluta por 14 lugares, com os resultados preliminares a darem-lhe 156 eleitos no Parlamento com 338 deputados. 

Sem maioria absoluta, Trudeau vai agora formar um governo minoritário e terá de negociar o apoio parlamentar e a aprovação de leis com outros partidos num país onde não existe tradição de governos de coligação. 

O Partido Conservador, rival dos Liberais, elegeu 122 deputados, uma subida face aos 99 que tinha conquistado nas legislativas anteriores, em 2015. A Casa dos Comuns contará ainda com a presença do Bloco do Quebeque (32 deputados), Novo Partido Democrata (24), Partido Verde (3) e um independente.

O grande vencedor da noite foi o Bloco do Quebeque, de orientação separatista, ao passar dos 10 para 32 deputados. 

A taxa de participação ficou-se pelos 65% e o sistema eleitoral beneficiou os liberais, apesar de os conservadores terem conseguido mais seis milhões de votos. O sistema favorece o vencedor, já que os eleitores de cada um dos 338 círculos eleitorais do país elegem um único deputado para o Parlamento, o que significa que apenas os votos obtidos pelo candidato vencedor contam.

“Obrigado, canadianos, por confiarem na nossa equipa e por terem fé em nós para avançar o país na direcção certa. Independentemente de como tenham votado, a nossa equipa vai trabalhar bastante para todos os canadianos”, escreveu no Twitter Trudeau. 

Ignorando o tom conciliatório de Trudeau, o líder conservador, Andrew Scheer, aproveitou o discurso de concessão de vitória para deixar um aviso bem claro ao líder liberal: “Senhor Trudeau, quando o seu governo cair, os conservadores estarão prontos e vão ganhar”.

Trudeau esteve até aos últimos dias das eleições a par e passo com Scheer nas sondagens e nenhum esteve próximo da maioria absoluta, diz o Guardian. E a vitória dos liberais está a ser lida como sinal de punição do eleitorado contra a sua “arrogância”. “Estamos a assistir a uma correcção necessária do Partido Liberal”, disse ao Guardian David Moscrop, politólogo da Universidade da Colúmbia Britânica. “O resultado é em parte uma reacção contra a arrogância dos liberais, que colocaram a fasquia tão alta que vão acabar por ir contra ela”. 

Em 2015, Trudeau apresentou-se como o candidato da mudança política no Canadá e usou um novo estilo de comunicação política. Posicionou-se como líder progressiva, multicultural e feminista no país e no palco internacional, continua o jornal britânico, ao acolher refugiados sírios e ao legalizar o consumo da canábis, por exemplo. Mas também se viu envolvido em escândalos que o prejudicaram seriamente.

O primeiro envolveu a sua então ministra da Justiça e procuradora-geral, Jody Wilson-Raybould, em Março, quando esta se demitiu em protesto contra possíveis pressões de Trudeau para que fizesse um acordo, em vez de se ir a julgamento, com uma empresa de engenharia suspeita de ter subornado o ditador líbio, Muammar Kadhafi, em 2001/2002, para obter contratos lucrativos no país do Norte de África. O caso foi visto como uma violação da separação de poderes e Trudeau admitiu ter conversado com Wilson-Raybould sobre o caso, negando no entanto tê-la pressionado. 

Mais tarde, o executivo de Trudeau aprovou a expansão do oleoduto Trans Mountain, que passa por terras indígenas e que os ambientalistas denunciam como violação da promessa do Governo em combater as alterações climáticas. A defesa do ambiente sempre foi uma das narrativas e promessas de Trudeau e a sua imagem saiu fragilizada. 

E, por fim, uma semana antes da campanha eleitoral começar, surgiu uma foto do primeiro-ministro com a cara pintada de castanho e a usar um turbante numa festa na escola onde então dava aulas, entre 2000 e 2001. Foi acusado de racismo – o blackface contribuiu para a propagação de estereótipos sobre outras etnias – e pediu desculpa. Mas, depois, novas fotos e vídeos em que é visto a fazer o mesmo noutros momentos da sua vida apareceram, aprofundando a crise de imagem de Trudeau, que sempre se tinha apresentado como defensor do multiculturalismo e opositor férreo do racismo.