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Karadzic condenado a prisão perpétua pelo massacre de Srebrenica

O líder dos sérvios bósnios recorreu da sentença de 40 anos de prisão proferida em 2016 pelo tribunal internacional de Haia. Os juízes decidiram endurecer a pena.

Radovan Karadzic ficou a conhecer a sentença definitiva pelas acusações de genocídio e crimes de guerra Michael Kooren / Reuters

Durante anos a fio, as famílias dos milhares de bósnios muçulmanos mortos no massacre de Srebrenica esperaram para que fosse feita justiça, e que os responsáveis por um dos episódios mais dramáticos na Europa do pós-II Guerra Mundial fossem condenados. Esse dia chegou, finalmente, e de forma definitiva.

O antigo líder dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic, de 73 anos, foi condenado a prisão perpétua esta quarta-feira no julgamento em que é acusado de genocídio e vários crimes de guerra durante o cerco a Sarajevo entre 1992 e 1996.

Em 2016, Karadzic tinha sido condenado a uma pena de prisão de 40 anos pelo seu papel como líder político dos sérvios da Bósnia e por ter travado uma guerra dirigida contra a comunidade muçulmana. Os seus advogados recorreram dessa sentença e a decisão definitiva do caso foi adiada por mais três anos – a primeira condenação é de 24 de Março de 2016.

Os juízes do tribunal de recurso consideraram que a pena inicial foi “demasiado leve” para os crimes pelos quais Karadzic foi acusado, diz a Reuters.

Entre os crimes citados destaca-se o papel de Karadzic no massacre de Srebrenica, em Julho de 1995, quando mais de oito mil homens e rapazes foram executados pelas forças sérvias, comandadas então por Ratko Mladic, condenado pelo mesmo tribunal em 2017 a prisão perpétua. Também Mladic recorreu desta sentença.

A decisão do tribunal internacional criado pela ONU e com sede em Haia, responsável pelos julgamentos de acusados de crimes durante a Guerra dos Balcãs, põe fim a um longo processo, acompanhado de perto pelas famílias das vítimas. Passaram-se mais de dez anos desde que Karadzic foi capturado e mais de vinte desde a acusação, em 1995.

Sentença aplaudida

O juiz Vagn Prüsse Joensen disse que Karadzic, apesar de não ser um dirigente militar, estava em contacto constante com as forças no terreno em Srebrenica. Quatro meses antes do massacre, o líder dos sérvios assinou documento com o título “Directiva 7” em que eram dadas instruções aos militares para tornarem as condições da população da cidade cercada “impossíveis de aguentar e sem esperanças de sobrevivência”, diz o Guardian.

A acusação considera que Karadzic e Mladic tinham um plano para “remover permanentemente muçulmanos e croatas” do território que reivindicavam durante a Guerra dos Balcãs e que fazia parte do projecto ultra-nacionalista da chamada “Grande Sérvia” idealizada por Slobodan Milosevic.

Quando a sentença foi anunciada, ouviram-se palmas entre as pessoas que assistiam à sessão, descrevem os repórteres do portal Balkan Insight.

As decisões do tribunal de Haia continuam a ser alvo de controvérsia, especialmente entre a comunidade de sérvios da Bósnia, que ainda vêem os líderes do período da guerra como heróis. Poucos dias antes da primeira condenação, uma residência universitária foi baptizada com o nome de Karadzic e inaugurada pelo presidente da República Srpska, uma das entidades políticas que compõe a Bósnia-Herzegovina.

Um sentimento dominante é o de que os julgamentos penalizam sobretudo os líderes sérvios, ignorando potenciais abusos cometidos pelas restantes forças em combate. O líder do Partido Democrático Sérvio, fundado por Karadzic, Vukota Govedarica, acusou o tribunal de ser “uma instituição política” e disse que o veredicto é “político, infundado e escandalosamente injusto”.

Por seu turno, o presidente de uma associação de vítimas de genocídio, Murat Tahirovic, saudou a sentença aplicada Karadzic, embora tenha admitido que “a justiça total não existe”.