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Piñera cancela aumento dos transportes mas a revolta dos chilenos não pára

A vaga de protestos não cedeu ao estado de emergência e ao recolher obrigatório. As tropas nas ruas enfureceram os cidadãos de um país onde a ditadura militar só acabou em 1990. Protestos contra o aumento do custo de vida e a exigir reformas alastram.

As Forças Armadas chilenas decretaram o recolher obrigatório em Santiago, e o Presidente Sebastian Piñera cancelou o aumento do preço dos transportes públicos que fizeram eclodir a revolta popular e os violentos confrontos dos últimos dias na capital e noutros pontos do país.

Na noite de sábado, três pessoas morreram num incêndio num supermercado que foi assaltado durante os protestos. A prefeita da região metropolitana de Santiago do Chile, Karla Rubilar, sublinhou, porém, que ainda “não há informações claras sobre o que aconteceu”.

Na sexta-feira à noite, o Presidente decretou o estado de emergência em Santiago e, no sábado à noite, alargou-a a Valparaíso e a Concepción. De acordo com a Constituição, o estado de emergência deixa nas mãos das Forças Armadas a segurança das cidades, mas os cidadãos não gostaram de ver tropas e carros blindados nas ruas de Santiago, onde está ainda fresca a memória da ditadura militar e do aparato bélico que Augusto Pinochet manteve bem visível na capital e fora dela entre 1974 e 1990.

Durante o dia de sábado, soldados em veículos blindados circularam em Santiago, enquanto a polícia de choque usou gás lacrimogéneo e canhões de água contra os manifestantes. O céu, disseram testemunhas ouvidas pela Reuters, estava repleto de helicópteros.

Também por isso, as medidas não dissuadiram os protestos, pelo contrário. Mal o recolher obrigatório foi declarado em Santiago, conta a Reuters, milhares de pessoas saíram de casa e juntaram-se nas praças para participar de protestos.

Por toda a capital multiplicaram-se focos de incêndio e houve saques na cidade de seis milhões de habitantes. A polícia e os manifestantes entraram em confronto.

Os distúrbios violentos alastraram a Valparaíso, no centro do país, a 120 quilómetros de Santiago e onde está sedeado o Congresso Nacional, e a Concepción, no Sul.

“Convidamos todos os cidadãos a regressarem às suas casas e a avaliarem as medidas que o Governo adoptou e a cooperarem, de forma a protegerem as suas famílias, a sua integridade e os seus bens”, disse o general Javier Iturriaga del Campo, que está à frente da segurança em Santiago.

Os estudantes do ensino secundário e universitários deram início aos protestos quando, a 6 de Outubro, o Governo passou o preço do bilhete de metropolitano de 800 para 830 pesos (de um euro para um euro e três cêntimos), com o argumento do aumento do preço da energia e da desvalorização do peso.

Na sexta-feira os protestos tornaram-se violentos, com repressão policial, estações de metro destruídas, montras vandalizadas, a sede da companhia de electricidade – cujos preços são elevados, o que Piñera usou para justificar o aumento do metro – incendiada.

“Todos os cidadãos têm direito de se manifestar pacificamente. Compreendo que têm razões para o fazer”, disse o Presidente numa comunicação ao país no sábado à noite, quando ficou claro que as medidas securitárias e o accionamento das Forças Armadas enfureceu ainda mais os cidadãos, anunciando a criação de uma mesa de diálogo “ampla e transversal” para encontrar respostas às “exigências sobre o custo de vida”, disse, citado pelo jornal El Mercurio.

“Ouvi com humildade e muita atenção a voz do povo e não terei medo em continuar a ouvir, porque assim se constroem democracias”, disse Piñera, um liberal que governa com um executivo de coligação.

A oposição exigiu que as tropas sejam retiradas de imediato das ruas e criticou Presidente, que acusou de estar afastado da realidade – na sexta-feira à noite Piñera foi fotografado num restaurante de luxo na capital à hora em que havia confrontos entre a polícia e manifestantes.

Heraldo Muñoz, presidente do Partido da Democracia, de centro-esquerda e na oposição, exigiu a demissão do ministro dos Transportes e condenou o Governo por, disse, tratar os manifestantes como “criminosos”.

“Os casos de pilhagem são isolados. Há sempre grupos anarquistas que se infiltram em protestos pacíficos. Mas estes protestos, estas marchas, e algumas foram massivas, são de pessoa que querem mudanças, que querem que os abusos não continuem e é nisso que temos que nos focar”, disse Muñoz.

O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, mas um dos que tem mais desigualdade. O aumento do preço do bilhete do metropolitano foi o rastilho para parte da população se revoltar e exigir mudanças em muitas áreas, dos impostos às pensões. 

Existe consenso sobre a necessidade de reformar o sistema de pensões, que são muito baixas, diz a edição para a América Latina do jornal El País. “Em 30 anos, nenhum Governo foi capaz de levantar a educação pública, destruída pela ditadura. Os medicamentos são significativamente caros em relação à região e à Europa. E 70% da população ganha menos que 770 dólares por mês”. A corrupção envolve a polícia, o Exército, o Congresso e os partidos. 

Só em Santiago, estima-se em 200 milhões de dólares os prejuízos da revolta popular. O metro continuava na manhã deste domingo fechado e os jogos desportivos e espectáculos de massas foram cancelados.