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Opinião

O sr. Amazon viu-se ao espelho

Jeff Bezos provou um pouco do seu veneno. A tecnologia está fora de controlo e muito à frente da legislação. É puro bom senso aplicar o princípio da prudência.

Não foi bonita a imagem que Jeff Bezos viu quando se olhou ao espelho. Foi uma confusão. O dono da Amazon e do Washington Post sabia que o seu telemóvel tinha sido pirateado e a sua privacidade devassadaAgora ficou a saber que a ONU acredita que os indícios justificam investigar se a família real da Arábia Saudita conspirou para entrar no seu iPhone.

Does that ring a bell? Sim, faz lembrar o Ring, o sistema de campainhas smart da Amazon, que tem uma câmara de vídeo incorporada. Parece uma campainha de porta normal, mas é um sistema de vigilância inteligente.

Dos 12 concorrentes no mercado, o Ring é o que tem levantado mais questões éticas, sobretudo por causa da privacidade. O negócio está cheio de segredos e quando perguntam a Bezos quantas campainhas vendeu — uma pergunta simples — a resposta é um vago “alguns milhões”.

O gadget é vendido como ferramenta para reforçar a segurança nos bairros: estamos fora de casa e podemos ver, remotamente, o que se está a passar à nossa porta. Só isso levanta problemas: vemos que um ladrão está a arrombar a nossa casa, mas também controlamos ao minuto os passos de todos os que vivem na nossa casa, as conversas da empregada com o carteiro, da filha com o namorado, a que horas passam os vizinhos, como e com quem.

Como se não bastasse, ao comprar um Ring, instalamos a app Neighbors by Ring, operada pela Amazon, onde descarregamos os vídeos que a câmara smart gravou e vemos o que os outros clientes Ring do bairro publicaram. O critério é partilhar “vídeos suspeitos”. Num raio de oito quilómetros, qualquer morador com Ring pode publicar e comentar vídeos gravados pelas suas câmaras de vigilância disfarçadas de campainhas.

Um terceiro nível de preocupação: desde que Bezos comprou o Ring, a empresa fez parcerias com 400 departamentos de polícia, aos quais envia as “imagens suspeitas” quando há crimes. Como as câmaras são boas, o Ring capta imagens a muitos metros de distância de cada porta. Ia a passear e acabou a ser observado por milhares de pessoas no Neighbors by Ring e analisado numa esquadra de polícia? Azar. Vivesse na era pré-digital. Como estamos na era em que achamos que a devassa da vida privada é o preço a pagar pela segurança, encolhemos os ombros.

Para nossa sanidade, nem todos. Em Novembro, cinco senadores democratas escreveram uma carta a Bezos a “exigir que a Amazon forneça informações sobre o Ring”, uma vez que tem “uma enorme quantidade de dados e vídeos muitíssimo sensíveis que detalham a vida de milhões de norte-americanos dentro e perto das suas casas”. O Electronic Privacy Information Center (EPIC), dedicado às questões da privacidade, apontava para o futuro: “Os senadores sublinharam que a empresa fez pedidos de registo de patentes de reconhecimento facial.” Sem dizer, ficou dito que as campainhas da Amazon não usam reconhecimento facial, mas que para lá caminham.

Haja realismo: é preciso regular e impôr prudência na aplicação da inteligência artificial. Na China, onde o reconhecimento facial é regra, há parques onde o papel higiénico só sai do dispensador se estivermos quatro segundos a olhar fixamente para um ecrã.

Quando recebeu um vídeo do príncipe saudita no seu telemóvel, não ocorreu a Bezos que lhe estavam a enviar um vírus para esvaziar o seu telefone. O material roubado incluía as mensagens e fotografias que trocou com a amante — conversas secretas, pois eram os dois casados. Dirão: não tem nada a ver, sempre houve piratas e neste caso Bezos é claramente uma vítima. Claro que sim. Mas a história é um clássico das manobras obscuras com fins políticos. O National Enquirer, que ameaçou publicar as fotografias, pertence à American Media Inc., cujo presidente é David Pecker, amigo e protector do Presidente Donald Trump, que por sua vez o ajudou a ir à Arábia Saudita procurar investidores para comprar a revista Time.

Bezos provou um pouco do seu veneno. A tecnologia está fora de controlo e é puro bom senso aplicar o princípio da prudência. Bezos podia começar pelas suas campainhas.