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Sánchez faz visita relâmpago à Catalunha sem se encontrar com Torra

Chefe do Governo espanhol visitou polícias feridos e não permitiu que a visita fosse acompanhada por jornalistas. Mesmo assim foi vaiado.

O chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, fez esta segunda-feira uma vista surpresa, e relâmpago, à Catalunha, onde decorrem, desde a semana passada, protestos após o anúncio de longas penas de prisão para líderes separatistas catalães pela tentativa de referendar, e declarar, a independência da Catalunha em 2017.

Em Barcelona, Sánchez não se encontrou com o chefe do governo local, Quim Torra, que acusa de falhar no seu dever de manter a ordem. Torra diz que já pediu várias vezes e por vários meios – telefone, carta oficial – uma reunião com o chefe do Governo espanhol, e que este tem recusado.

Esta segunda-feira, o líder da Generalitat, o governo autonómico, repetiu o pedido. “Instamos Pedro Sánchez a marcar o dia e a hora”, disse Quim Torra, rodeado do seu vice-presidente, Pere Aragonès, e presidentes de câmara de Girona, Tarragona e Lleida, citado pelo diário La Vanguardia. “É a sua obrigação.”

Sánchez dissera antes que apenas o faria se Torra condenasse inequivocamente a violência que ocorreu em alguns momentos dos protestos. Torra já disse que sempre condenou todo o tipo de violência, e criticou Sánchez por “impor condições prévias” ao diálogo.

A primeira paragem da curta visita de Sánchez a Barcelona foi a direcção-geral da polícia, onde sublinhou o seu papel “para assegurar uma convivência que está a ser posta em causa”, e superar a “crise de ordem pública”, disse o chefe do executivo espanhol, num vídeo enviado aos jornalistas - que não puderam acompanhar a visita. “É muito importante garantir a moderação”, disse.

De seguida, Sánchez esteve nos hospitais de Sagrat Cor e Sant Pau, onde visitou polícias feridos nos confrontos. Além de elogiar os polícias, criticou os manifestantes. “Elementos radicais e violentos decidiram que Barcelona seria o teatro de operações para alastrar para fora e para o conjunto da sociedade espanhola a sua contestação e convertê-la em algo muito mais extraordinário do que é”, disse, ainda no vídeo.

“Querem eternizar esta crise mas nós somos mais persistentes e mais teimosos”, declarou, elogiando também o trabalho de prevenção dos agentes dos Mossos, que estão a trabalhar em turnos duplos e fazer “maratonas”.

Pouco depois da visita de Sánchez, o antigo presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, criticava no Twitter a recusa de Sánchez se reunir com Torra e o facto de “marcar diferenças entre os feridos”. Além dos polícias, também houve manifestantes feridos, quatro deles com gravidade (perderam um olho).

Apesar de a visita não ter sido revelada com antecedência, nem posta na agenda oficial de Sánchez - o líder da Generalitat disse que soube da presença de Sánchez na cidade pelos media - manifestantes pacíficos ainda pediram ao chefe de Governo que “se sente e converse” com os líderes catalães, e durante a visita aos hospitais ainda foi apupado por alguns trabalhadores, e, à saída, foi vaiado por multidões que entretanto se formaram.

O diário El País comenta que “o secretismo da visita aumentou a sensação da sua excepcionalidade”.

Pablo Casado, o líder do Partido Popular (conservador) também esteve em Barcelona, acusando as autoridades catalãs de não lhe terem permitido entrar na sede da polícia. A direcção nacional da polícia disse que se tratou de uma questão de segurança.

A questão catalã entra no período de pré-campanha eleitoral para as eleições de 10 de Novembro, as segundas este ano (e as quartas em três anos), que acontecem por nenhum bloco conseguir chegar a acordo para uma maioria. O PSOE de Sánchez procurou entendimentos à esquerda e à direita, mas acabou por não fechar qualquer acordo porque insistiu em governar sozinho e com acordos programáticos, opção a que mais nenhum partido quis dar apoio.

Sánchez está a ser criticado na Catalunha por ignorar os pedidos de Quim Torra. Mas também é criticado pela direita por não voltar a aplicar o artigo 155º da Constituição, que suspende a autonomia da Catalunha, como fez o Governo do PP após a declaração unilateral de independência em Outubro de 2017.

Num comentário no El País, Iñaki Gabilondo diz que a aplicação do 155º seria “um presente” para Torra, permitindo-lhe seguir “numa lógica de vitimização”. Se é para haver “alguma esperança” de diálogo, Sánchez não deverá tomar esta medida, considera o jornalista e comentador.

Mas a situação na Catalunha já está a prejudicar o PSOE nas sondagens, segundo o diário (conservador) ABC: nos inquéritos feitos para o diário, a vantagem do PSOE sobre o PP diminuiu, com projecção de 123 deputados (PSOE) contra 102 (PP). Seguem-se Vox (extrema-direita, 33 deputados) e Unidas Podemos (31), com o Cidadãos a descer (15).