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Salvini estatela-se nas eleições da Emilía-Romanha

Fracassaram a estratégia e o desmesurado desafio da Liga. Em lugar de deslegitimar o governo e o PD, deu-lhes tempo e oxigénio para recuperarem.

Matteo Salvini FLAVIO LO SCALZO/Reuters

Ao contrário do prometido, Matteo Salvini não vai esta noite bater à porta do Quirinal para exigir ao Presidente Sergio Mattarella a demissão do governo de Giuseppe Conte. Ao fim de dois anos de vitórias eleitorais, sofreu no domingo, na Emília-Romanha, uma derrota retumbante. Transformou a eleição num referendo sobre ele e sobre o governo de centro-esquerda. Decidiu conquistar a “fortaleza” que a esquerda governa há 75 anos. Mas, em lugar de garantir a sua “marcha sobre Roma”, provocou um efeito de boomerang, que adia todos os seus planos.

Se a Liga tivesse vencido as eleições de domingo na Emília-Romanha, Salvini teria proclamado a “ilegitimidade” da coligação entre o Partido Democrático (PD) e o Movimento 5 Estrelas (M5S), exigido a dissolução do Parlamento e a imediata convocação de eleições legislativas. Desencadearia uma “guerra sem quartel”, na rua e nas instituições.

Realizaram-se no domingo duas eleições. Na Calábria (Sul), venceu a direita - uma coligação entre a Liga, de Salvini, a Força Itália, de Berlusconi, e o Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni. A berlusconiana Jole Santelli foi eleita por 55,4% dos votos, contra 30,1 de Fillipo Callipo, do centro-esquerda.

O voto que politicamente contava, por decisão do próprio Salvini, era outro, o da Emília-Romanha, um desafio de dimensão nacional. O governador cessante, Stefano Bonaccini, do PD, bateu Lucia Bergonzoni, a candidata da Liga, por 51,4% contra 43,6. O candidato do M5S teve uma votação residual, 3,5%, o que não augura nada de bom para o futuro do partido. As sondagens previam um empate técnico que seria decidido por um punhado de votos. Todos se lembravam de que o PD perdera para o M5S as legislativas de 2018 e que, no ano seguinte, perdera as europeias para a Liga. Mas venceu sempre nas regionais.

No entanto, a indiferença crescia. Nos “anos dourados”, até 1994, a abstenção não passava dos 10%. Mas atingiu um recorde em 2014, em que dois de cada três eleitores faltaram ao voto. Os eleitores de esquerda estavam “cansados ou desiludidos”, diziam analistas. Por isso, surpreendeu a afluência às urnas no domingo – 67,7%.

As “Sardinhas” terão tido um papel importante: mobilizaram o voto jovem e ajudaram a recuperar o tradicional eleitorado da esquerda que, desta vez, não faltou ao desafio. Para isso terá contribuído a “ameaça de Salvini” e o alarme que as “Sardinhas” lançaram sobre a “barbárie” da Liga. Outro factor decisivo na vitória do PD foi a passagem em massa dos votos do Cinco Estrelas para o seu candidato, explicou com números o Istituto Cattaneo.

Embora a abstenção crescesse, os habitantes apreciavam a gestão do PD e, em particular, a de Stefano Bonaccini. É uma região com altas taxas de crescimento, indústrias inovadoras e baixo desemprego. “A Emília-Romanha é a região mais bem governada de toda a História da Itália (…) É em absoluto a parte do país em que melhor se vive, superando até a Lombardia e o Veneto”, explicou o historiador económico Emanuele Felice.

Primeiro balanço

Salvini não escolheu para teste uma região deprimida. Optou por desafiar o PD no seu terreno mais forte. Apostou em que a vitória tornaria imparável a sua ascensão ao poder. Uns falaram em coragem, outros em pressa. “Salvini pecou por excesso de confiança, mostrando também uma certa arrogância. Pode dizer-se, dois erros num, imperdoável quando se desafia a sorte numa partida extrema”, escreve em La Repúbblica o analista Stefano Folli.

“É inútil usar rodeios. Estas foram as ‘suas’ eleições, para o bem e para o mal”, resume o politólogo Massimo Franco, no Corriere della Sera. “Pelo carácter nacional que Salvini e Giorgia Meloni imprimiram a este voto, perder não significa apenas uma derrota. Por tabela, dá oxigénio a um governo até agora asfixiado pelas suas querelas internas e incapaz de tornar credível uma aliança política. E promete estabilizar o primeiro-ministro.”

O PD vai assumir um papel de guia no governo. O “aniquilamento” do M5S é o aspecto mais vistoso do resultado. Arrisca-se a ser relegado para um papel marginal. Mas uma desagregação dos grilinni não é necessariamente uma boa notícia para a estabilidade do governo.

O maior desafio recai sobre Salvini. Caiu num impasse. Conclui Franco: “Veremos se Salvini será constrangido a rever não só a sua estratégia italiana mas também as suas alianças ‘soberanistas’, inaceitáveis para as chancelarias europeias. E o voto emiliano não aumentará o seu poder negocial.”