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Sai May, entra Boris: novo primeiro-ministro avança para salvar o “Brexit”

Boris Johnson superou Jeremy Hunt na votação interna do Partido Conservador e sucede a Theresa May na liderança do Governo britânico. “Cumprir o ‘Brexit’, unir o país e derrotar Corbyn” são as grandes prioridades do ex-ministro.

Boris Johnson é conduzido ao cargo na quarta-feira Reuters/TOBY MELVILLE

A corrida à sucessão de Theresa May chegou finalmente ao fim, esta terça-feira, e o nome do senhor que se segue à primeira-ministra derrubada pelo “Brexit” não surpreendeu ninguém. Boris Johnson, antigo mayor de Londres e ministro dos Negócios Estrangeiros, venceu confortavelmente a derradeira eleição do Partido Conservador, duplicando praticamente os votos do seu adversário, Jeremy Hunt. Consumar o divórcio entre Reino Unido e União Europeia no final de Outubro é a sua grande missão, mas há ainda um Parlamento fragmentado para conciliar e para convencer que a saída sem acordo é um cenário tão real como outro qualquer.

“Vamos dinamizar o país, resolver o ‘Brexit’ no dia 31 de Outubro e aproveitar as vantagens de todas as oportunidades que [a saída da UE] nos trará, com um novo espírito positivo”, prometeu Johnson, no seu discurso de vitória. “Cumprir o ‘Brexit’, unir o país e derrotar Jeremy Corbyn”, serão as três prioridades do seu executivo, afiançou.

Apontado há muito como o grande favorito à liderança do Governo britânico, o antigo chefe da Diplomacia ratificou os triunfos folgados nas sucessivas rondas de votações entre os deputados tories, iniciadas no princípio de Junho, com uma vitória cómoda na eleição final, aberta aos cerca de 160 mil militantes do partido. 

Conseguiu 92.153 apoios, equivalentes a 66% da totalidade de votos, contra 46.656 de Hunt, numa votação que contou com a participação de 87% dos inscritos.

Venerado pelos que vêem nas suas gaffes e considerações mais polémicas um político autêntico e sem medo de correr riscos, e abominado pelos que encaram as suas declarações controversas como ofensivas e populistas – já foi acusado de racista, xenófobo e sexista por críticos e opositores –, Johnson liderou uma campanha de charme, bem-sucedida, junto de aliados e inimigos, para os fazer ver que é capaz de impedir a fragmentação do Partido Conservador.

Para além dos seus apoiantes de sempre, que acreditam piamente que tem as características adequadas para liderar o processo do “Brexit”, e dos que estão de olho em cargos no Governo, Johnson contou ainda com o apoio dos que vêem na sua entrada em cena uma etapa necessária para a reabilitação do partido e dos que, mesmo não gostando da sua postura e do seu discurso, entendem que é o único líder conservador capaz de evitar uma sangria de votos para Nigel Farage e o seu Partido do Brexit, num cenário de eleições antecipadas. 

Brexiteers ao poder

A vitória de Boris Johnson materializa a entrada da ala mais eurocéptica e hard-brexiteer do Partido Conservador no número 10 de Downing Street, três anos volvidos do referendo à Europa, e depois de David Cameron e Theresa May terem sucumbido sob o peso insuportável da tarefa de desfiliar o país do clube europeu.

O novo primeiro-ministro – que toma posse na quarta-feira, depois de May apresentar formalmente a demissão à rainha Isabel II – garante que o Reino Unido vai sair da UE no dia 31 de Outubro, “custe o que custar”, que é como quem diz sem acordo. 

Com Bruxelas apenas disponível para modificar a declaração sobre a relação futura entre os dois blocos e irredutível na decisão de não reabrir o acordo fechado com May, Johnson diz-se preparadíssimo para avançar para um no deal. E durante a campanha não negou de forma peremptória a possibilidade de suspender os trabalhos do Parlamento para forçar esse cenário.

Esse caminho é, para a oposição e para uma importante fatia do Partido Conservador, altamente perigoso e potencialmente prejudicial para a democracia britânica. Nesse sentido, há já movimentações entre os deputados para se avançar para uma moção de censura ao Governo, assim que possível. Para além disso, vários ministros e secretários de Estado que serviram o anterior executivo estão a virar as costas a Johnson, por considerar essa via.

A consumação do “Brexit” na data prevista depende da resolução, em 100 dias e com a Câmara dos Comuns encerrada para férias entre quinta-feira e o início de Setembro, dos mesmos problemas que May foi incapaz de solucionar em três anos.

Porque muda o primeiro-ministro, mas não mudam os obstáculos: não há maiorias parlamentares para nenhum dos cenários possíveis, Bruxelas não quer renegociar o acordo, faltam soluções para a fronteira irlandesa e adensa-se a divisão da opinião pública entre remainers e brexiteers, pró-segundo referendo e anti-segundo referendo.

Oposição pede eleições

A primeira missão de Johnson será, por isso, encontrar uma maioria suficientemente estável no Parlamento, que terá de incluir novamente os unionistas norte-irlandeses do DUP, que lhe permita sobreviver às investidas dos que rejeitam um “Brexit” sem acordo e dos que querem eleições antecipadas.

No rescaldo do triunfo de Boris Johnson, Jeremy Corbyn deu voz ao sentimento de injustiça de grande parte da oposição, relembrando que o novo líder conservador “não conquistou o apoio do país”. Acompanhado por outros dirigentes partidários, o representante máximo do Partido Trabalhista tem vindo a exigir novas legislativas, por entender que, num momento tão importante na História do Reino Unido, não devem ser apenas 160 mil militantes conservadores a decidir o destino de 65 milhões de eleitores.

No seu discurso de vitória, esta terça-feira, Johnson respondeu, no entanto, a estes argumentos com a garantia de que “em 200 anos de existência” do Partido Conservador, foi sempre este o principal intérprete da “natureza humana” e dos “instintos do coração humano”. 

“É a nós [conservadores] que este país tem recorrido, repetidamente, para equilibrar a balança”, atirou o sucessor de May. “E como o gigante adormecido que somos, vamos reerguer-nos e libertarmo-nos das amarras da desconfiança e da negatividade”.

Ouça aqui o podcast P24: