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Repatriamento de suspeita do Daesh leva a demissão no Governo da Noruega

Partido populista de direita não queria repatriar norueguesa vinda da Síria, onde terá pertencido ao Daesh. Decisão foi tomada por problemas médicos de um dos seus filhos menores.

Erna Solberg Reuters

A primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, vai manter-se no Governo, mas perdeu a maioria no Parlamento, depois da demissão da líder do Partido do Progresso (populista de direita) e ministra das Finanças Siv Jensen.

Os governos minoritários têm sido frequentes na Noruega, incluindo o mais recente de Solberg, entre 2013 e 2019 – a Constituição do país também não permite eleições antecipadas (as próximas decorrem em Setembro de 2021).

A saída de Jensen aconteceu depois da decisão, anunciada na semana passada, que uma mulher norueguesa e os seus dois filhos receberiam apoio para regressar à Noruega da Síria para que uma das crianças pudesse receber tratamento médico. A mulher tem agora 29 anos e um filho de 5 anos e uma filha de 3.

O que fazer com mulheres europeias que deixaram os seus países para se juntar ao Daesh, e que tiveram filhos enquanto estavam na Síria e no Iraque mas que depois da perda do território do movimento islamista estão em campos de refugiados pela região, e alguns pediram apoio aos países de origem para regressar.

A mulher deixou a Noruega em 2013. Foi detida agora no seu regresso sob suspeitas de ter pertencido ao Daesh e ser um risco de segurança. A família está sob observação num hospital de Oslo enquanto um tribunal analisa o caso. Acusada de “participação numa organização terrorista”, arrisca uma pena de até seis anos de prisão se for condenada.

“O que é importante é que a criança presumivelmente doente possa agora ter tratamento médico na Noruega”, disse a primeira-ministra, Erna Solberg.

O Partido do Progresso apenas tinha considerado ajudar as crianças a voltar, mas não a mulher – é contra qualquer apoio a adultos, sejam antigos combatentes ou mulheres que tenham casado com combatentes estrangeiros do Daesh.

Esta tem sido uma questão polémica em vários países europeus. Um dos primeiros casos foi o da britânica Shamina Begum, que pediu ajuda para voltar, e a quem o Reino Unido retirou a cidadania (algo que, no entanto, muitos países europeus não podem fazer porque as suas leis não o permitem, ou apenas podem a pessoas que tenham uma segunda nacionalidade).

Em Novembro de 2019, havia 12300 estrangeiros detidos em campos na Síria, incluindo 8700 menores de mais de 40 países, segundo a organização britânica Save The Children.

Magnus Ranstorp, professor associado e responsável por investigação em terrorismo da Universidade de Defesa Sueca em Estocolmo, que tem sido testemunha em alguns processos contra combatentes que voltaram para a Noruega vindos da Síria, explicou ao New York Times que cerca de 140 pessoas saíram da Noruega para combater na Síria, e que 10 que regressaram desde 2012 foram condenados a penas pesadas (na Suécia, aponta por comparação, 300 foram para a Síria, 150 voltaram, e apenas dois foram condenados”.

Ranstorp diz que há óbvias preocupações com o perigo que esta mulher possa ser para a segurança, mas contrapõe que “vai estar sob controlo e vigilância na Noruega”. Mais, sublinha o especialista, “com a excepção de França, nenhum cidadão nascido na Europa que tenha voltado da guerra da Síria levou a cabo novos atentados terroristas na Europa”.