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Editorial

Nem radicalismo ambientalista nem negacionismo trumpeano

O sucesso da inevitável mudança dispensa a criação de uma espécie de “homem novo”. Sabemos bem onde acabaram essas utopias.

Com a discussão em torno da jovem Greta Thunberg a resvalar para uma absurda troca de acusações sectárias e inconsequentes, o desafio que as alterações climáticas colocam ao nosso futuro colectivo arrisca-se a sair das fronteiras da razão e a deixar de ser útil e produtivo. Neste domingo, o PÚBLICO leva-lhe ao conhecimento duas tomadas de posição que contestam bem esse sectarismo fútil: as declarações do explorador e investidor suíço Bertrand Piccard na cimeira de Madrid e a visão da comissária europeia Elisa Ferreira sobre o Green Deal da União Europeia, do qual se saberá um pouco mais na próxima semana.

Será mais fácil encarar o futuro se os governos dos países mais poluentes perceberem que há uma intransigência da cidadania, como a que Greta Thunberg personifica e os jovens expressam, capaz de tornar a causa climática num elemento essencial da política. Mas essa conquista exige a recusa da crença num regresso da humanidade ao primitivismo que dispensa aviões, fertilizantes sintéticos ou carne bovina. Para se chegar a 2050 numa situação de neutralidade carbónica, como prevê a União Europeia e o Governo aposta, o modelo de economia baseado no crescimento exponencial terá de ser revisto, o consumismo desenfreado reduzido e a produção de energia a partir de combustíveis fósseis eliminada. Mas, como sempre aconteceu na história da humanidade, uma mudança com esta dimensão faz-se com reformas e gradualismo, nunca com dogmas ou determinismos apocalípticos.

Para a maioria dos habitantes dos países ricos e poluentes do hemisfério norte, a mudança vai obrigar a novas formas de vida. Muitas indústrias vão desaparecer ou renascer. Algumas regiões terão de se reinventar. Os meios exigidos serão formidáveis. A escala da mudança é assustadora. Da energia aos impostos, da digitalização aos plásticos, da iniciativa privada à tutela do Estado, tudo terá de ser repensado. Todos queremos uma economia limpa, baseada em tecnologias de futuro, carros com emissões zero e a morte dos plásticos. Mas, pelo menos a maioria, quer também continuar a viajar, a ter uma dieta omnívora e a aceder a outros prazeres do consumo típicos do capitalismo. O sucesso da mudança dispensa a criação de uma espécie de “homem novo”. Sabemos bem onde acabaram essas utopias.

A mudança vai ter mesmo de se fazer, mas, como se provou nas restantes revoluções industriais, a humanidade é capaz de trocar de paradigma ou de inventar novos modelos económicos. Haverá custos, sem dúvida, mas só se acredita numa mudança se ela se afigurar viável. Entre o radicalismo ambientalista e o negacionismo irracional de Donald Trump, há-de haver uma terceira via capaz de descobrir os caminhos para essa transição inevitável.