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Primeira-ministra dinamarquesa considera “absurda” ideia de Trump de comprar Gronelândia

“Espero que [Trump] não estivesse a falar a sério”, disse a chefe do executivo dinamarquês, Mette Frederiksen. Mas Trump estava mesmo a falar a sério como confirmou no domingo.

Gronelândia EPA/LINDA KASTRUP

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, rejeitou neste domingo a ideia “absurda” de uma possível venda da Gronelândia, território autónomo daquele reino nórdico: “A Gronelândia não está à venda. A Gronelândia não é dinamarquesa. A Gronelândia pertence à Gronelândia”. Foi assim que o executivo dinamarquês respondeu a Donald Trump, que, também no domingo, confirmou o seu interesse na compra da ilha do Atlântico Norte.

“Espero que [Trump] não estivesse a falar a sério”, continuou a chefe do executivo dinamarquês, durante uma visita à Gronelândia, citada pelo jornal Sermitsiaq.  Afirmando que é uma “discussão absurda”, Frederiksen tem reforçado, nos últimos dias, que a Gronelândia não está à venda: “É aqui que acaba a conversa”, disse à televisão DR.

Mas Trump estava mesmo a falar a sério: confirmou-o no domingo, em declarações aos jornalistas, na base aérea de Morristown, Nova Jérsia, enquanto se preparava para embarcar no Air Force One​. “A ideia surgiu e... estrategicamente é interessante”, revelou, embora tenha admitido que não é, neste momento, uma prioridade. “Ainda há muita coisa que pode ser feita. Na verdade, é um grande negócio imobiliário. É duro para a Dinamarca porque perdem 700 milhões de dólares por ano com a Gronelândia”, cita a Reuters. 

O assunto está em “desenvolvimento”, detalhou o conselheiro económico da Casa Branca, Larry Kudlow, no domingo em declarações à Fox News. “Não quero fazer previsões. Estou só a dizer que o Presidente, que sabe uma coisa ou duas sobre imobiliário, quer estudar a hipótese de comprar a Gronelândia.” “A Dinamarca detém a Gronelândia, a Dinamarca é uma aliada e a Gronelândia é um ponto estratégico lá em cima. E têm uma data de minerais valiosos”, acrescentou Kudlow.

Ane Lone Bagger, ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, reagiu na sexta-feira, dizendo que o país “estava disponível para negociar”, mas que “não está à venda”, citava a Reuters.

Donald Trump tem agendada uma visita oficial à Dinamarca para daqui a duas semanas, ainda que não seja para discutir a possibilidade de compra da maior ilha do mundo, tal como confirmou. 

Na quinta-feira, vários meios de comunicação norte-americanos noticiaram que o Presidente norte-americano tinha pedido aos seus assessores para averiguarem a possibilidade de comprar a Gronelândia. De acordo com o Washington Post, o pedido foi recebido com alguma surpresa pelos assistentes do Presidente. Não seria a primeira vez que Trump mencionava essa possibilidade, com “diferentes graus de seriedade”, refere o Wall Street Journal.

A possibilidade de foi exposta em reuniões, jantares e conversas, alturas em que o Presidente norte-americano demonstrou grande interesse nos recursos naturais e na importância geopolítica do território. Na última Primavera, durante um jantar com vários associados, Trump mencionou que a Dinamarca estava a ter dificuldades em financiar a Gronelândia e que estava a considerar comprar a ilha. “O que acham disso?”, perguntou, de acordo com o Wall Street Journal.

Algumas das suas dúvidas baseavam-se na legalidade da hipotética transacção: é que a Gronelândia tem o seu próprio governo autónomo e faz parte do Reino da Dinamarca. Com cerca de 2,1 milhões de km2 e 56 mil habitantes (o que faz desta ilha um dos territórios menos povoados do mundo), o governo da Gronelândia tem autonomia para decidir sobre questões internas, mas as decisões sobre negócios estrangeiros e segurança estão nas mãos de Copenhaga.

Os EUA e a Gronelândia assinaram um tratado de defesa há várias décadas – desde os anos da Guerra Fria – que deu aos norte-americanos a possibilidade de instalarem na ilha a sua base militar mais a norte: a base aérea de Thule, construída em 1951, situada a 1200 km a norte do círculo árctico. 

Trump não é o primeiro Presidente norte-americano a alimentar esta ideia. As Forças Armadas norte-americanas estiveram presentes na Gronelândia durante a II Guerra Mundial, como forma de proteger o país contra as investidas alemãs. Depois da guerra, em 1946, a Administração de Harry Truman ofereceu 100 milhões de dólares à Dinamarca para comprar o território, mas a Dinamarca recusou-se a vendê-lo. Foi a segunda vez que os norte-americanos tentaram comprar a ilha – a primeira foi em 1897.