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20 dias que marcaram a década

Primaveras Árabes. As imagens do Cairo são inesquecíveis

Mudaram a História? Talvez não. Mas deixaram bem impressa na memória colectiva a vontade de os povos se apoderarem dos seus destinos. Este é o primeiro trabalho da série 20 Dias Que Marcaram a Década.

As Primaveras Árabes de 2011 foram a primeira grande emoção da década. Eram acontecimentos que prenunciavam uma mudança histórica no mundo árabe. Além das notícias, eram imagens que, pelo mundo fora, prendiam milhões de pessoas aos ecrãs das televisões. Falava-se em “renascimento árabe”. Chamaram-lhes “revoluções do Facebook”. Rapidamente se inventou uma mitologia. Seguiu-se, por fim, uma interminável ressaca que culminou na tragédia síria. Alguns vêem nas “rebeliões sem líder” de 2019 uma sequela de 2011.

A Tunísia foi o primeiro epicentro das revoltas. É preciso remontar ao dia 17 de Dezembro de 2010, em que Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante, se imolou pelo fogo numa pequena cidade, em desespero perante o assédio da polícia e de autoridades corruptas. Morrerá num hospital, a 4 de Janeiro.

Resumo do que se segue: os protestos percorreram como mancha de óleo várias cidades, até contagiarem a capital, Tunes, cenário de confrontos violentos a partir de 11 de Janeiro – e algumas dezenas de mortos. O Exército abandona o Presidente, Ben Ali, no poder desde 1987. No dia 14, o ditador foge com a família para a Arábia Saudita. Foi a primeira vitória. Decisivo é o momento em que os protestos passam a fronteira.

Logo nos primeiros dias de Janeiro, estalam motins na Argélia contra a carestia de vida e o desemprego – oito mortos. Seguem-se dois suicídios por imolação. A 24 de Janeiro, o Governo decreta o levantamento do estado de sítio, em vigor desde 1993. E, em Abril, o Presidente, Abdelaziz Bouteflika, propõe um calendário de consultas para as reformas políticas.

No dia 25 de Janeiro, rebenta a primeira manifestação na Praça Tahrir, no Cairo, exigindo a demissão do Presidente, Hosni Mubarak. Era o “dia da cólera”, convocado via Internet. A 27, Mubarak impunha um blackout na web. Em vão. A 11 de Fevereiro, por imposição do Exército, renuncia ao poder, que ocupava desde 1981. Os militares prometem eleições democráticas, as mais livres da História do Egipto. O epicentro desloca-se de Tunes para o Cairo.

No fim de Janeiro entra em ebulição Sanaa, capital do Iémen. Os manifestantes exigem a demissão do Presidente, Ali Saleh. A 14 de Fevereiro, milhares de manifestantes em Manama exigem reformas no Bahrein. É um movimento dominantemente xiita. Um mês depois, a Arábia Saudita faz entrar na ilha uma força militar do Conselho de Cooperação do Golfo. Entretanto, a agitação chega à Jordânia.

A 15 de Fevereiro rebentam motins na Líbia. Em Bengasi, os manifestantes exigem o afastamento do coronel Muammar Khadafi, no poder desde 1969. No dia 20, é a vez de as manifestações se estenderem às grandes cidades marroquinas, exigindo liberdades e reformas políticas.

A coisa e o nome

A expressão Primaveras Árabes deve ser conjugada no plural, disse alguém. Não são um fenómeno único, global ou regional, mas uma agregação de revoltas que, obedecendo a agendas nacionais, se difundiram por contágio. Não foram um movimento pan-árabe. Todas arvoraram bandeiras nacionais e invocam referências nacionais. Tiveram, sim, um marcado carácter geracional, com os jovens na primeira linha.

Não nasceram por geração espontânea. Pelo Magrebe fora, houve nos anos anteriores “revoltas de fome”. Na Tunísia, tinha acabado de haver uma greve de mineiros, afogada em sangue. Em vários países tinha havido protestos contra fraudes eleitorais.

As revoltas precisam de nomes. A tentativa de designar o movimento tunisino como “revolução do jasmim”, copiando as “revoluções coloridas” de 2004 e 2005, não resultou. Foi no Cairo, na Praça Tahrir, que os jornalistas terão inventado um nome à altura da dimensão histórica do movimento: Primaveras Árabes. Era uma referência às revoluções de 1848, a Primavera dos Povos, que se alastraram por quase toda a Europa, com reivindicações democráticas, sociais ou nacionalistas, que foram fundidas no que se cria ser uma “vaga revolucionária”. Primavera evoca renascimento. Por isso, embora nascidas no Inverno, as revoltas de 2011 tinham de ser primaveris.

Houve uma declarada confusão entre as redes sociais como instrumento de mobilização e as mesmas redes como causa. Dizia-se: “Sem redes sociais as Primaveras Árabes não teriam existido.” Em 1848, uma vaga de revoltas e revoluções espalhou-se pela Europa graças ao mesmo fenómeno do contágio e sem redes sociais. O mesmo acontecerá no fim dos anos 1960 e em tantas outras situações.

Havia temas comuns, como a persistência de regimes autocráticos, ditadores há décadas no poder, a visibilidade da corrupção ou uma imensa frustração social, particularmente aguda entre as novas gerações, mais cultas, mais informadas e remetidas ao desemprego.

A nota mais interessante é outra. Se foram os repórteres que inventaram o nome, foi a Al-Jazira quem transformou a revolução tunisina num modelo a copiar. A televisão não cria os acontecimentos, apenas os acelera. Explicou na altura o analista americano Marc Lynch: “A noção de que há uma luta comum através do mundo árabe é algo que a Al-Jazira ajudou a criar.”

A partir do momento em que se difunde esta consciência comum, acentua-se a radicalização dos movimentos. Entretanto, chega a hora das provações.

A Tunísia é o único país em que a revolução alcança o seu objectivo – uma democracia parlamentar. Em Marrocos e na Jordânia, os monarcas conseguem recuperar o controlo com promessas e algumas reformas. O mesmo se passa na Argélia.

No Egipto, o movimento “sem líderes” não é capaz de elaborar um programa. Será a bem implantada Irmandade Muçulmana quem vai preencher o vazio e vencer as eleições. Depois, o fantasma do islamismo vai permitir o seu isolamento. Apoiados pelos manifestantes da Praça Tahrir, os militares destituem o primeiro-ministro islamista, Mohamed Morsi.

A Tunísia era um Estado policial em que os militares estavam separados do poder. Por isso lhes foi fácil abandonar Ben Ali. O regime egípcio era o inverso. A legitimidade residia no Exército desde a revolução nacionalista de 1952. Era a mais prestigiada instituição nacional.

A Líbia é um caso excepcional. Não há Primavera, mas uma disputa entre chefes regionais e tribais, que degenera em guerra civil e dará lugar a uma inglória intervenção ocidental. Morreu Khadafi, mas a Líbia, país sem Estado, permanece no caos.

A Síria é outra história. O que começou como uma revolta contra um regime opressivo rapidamente se transformou numa guerra civil sectária e, depois, num “conflito por procuração” – envolvendo o Irão e a Arábia Saudita, o Qatar ou a Turquia – em que se disputava a hegemonia regional.

Balanço impossível

Muitos analistas fazem um balanço catastrófico das Primaveras Árabes, que falharam a democratização, deram lugar a guerras civis e novas ditaduras, deixando pelo caminho os destroços de países como a Líbia e a Síria.

O balanço depende sempre do momento em que é feito. Em 2011, faziam-se balanços optimistas. Três anos depois, o mundo árabe estava em profunda depressão. “A civilização árabe, tal como a conhecemos, desapareceu”, escrevia em 2014 o jornalista libanês Hisham Melhem, da televisão Al-Arabiya. “O mundo árabe é hoje mais violento, instável, fragmentado e conduzido pelo extremismo – extremismo dos governantes e dos opositores – do que em qualquer outro momento desde a derrocada do Império Otomano, há um século.”

Os árabes da geração de Melhem tinham sido educados na resistência ao imperialismo e aos “bárbaros de exterior”. Tudo mudou. “Os bárbaros já estão dentro das nossas portas, falam a nossa língua e estão bem entrincheirados na cidade. (…) O Daesh, tal como a Al-Qaeda, é uma criação cancerosa do enfermo corpo político árabe.”

Em Janeiro e Fevereiro de 2011, os ocidentais viam-se confrontados com um quadro muito diferente desta crónica de agonia. A espontaneidade das revoltas, a maciça participação dos jovens, a imponência das manifestações e a não-violência marcavam o apogeu do que parecia uma onda revolucionária. Se foi fugaz o ano de 2011, a experiência da euforia deixou a sua marca na memória colectiva.

A grande maioria dos especialistas no mundo árabe foi surpreendida por estas revoltas. Sabiam que os regimes árabes era impopulares e corruptos, incapazes de responder aos problemas políticos, económicos ou demográficos. Terão sobrestimado a solidez do poder de Ben Ali ou Mubarak. Mas podiam os especialistas prever o que se passou?

Como todas as revoluções, as Primaveras Árabes irromperam de surpresa. Se foi breve a Primavera de 2011, também “os invernos de hoje” não devem ser tomados como definitivos. “A História é livre e imprevisível como próprio homem”, gostava de dizer Raymond Aron.