Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Polícia usa canhões de água e gás lacrimogéneo para conter protestos violentos em Hong Kong

Manifestantes atiraram cocktails molotov e pedras para edifícios governamentais e queimaram uma faixa comemorativa da fundação da República Popular da China.

A violência voltou a tomar conta de Hong Kong, durante uma nova manifestação contra o governo local este domingo.

Dezenas de milhares de pessoas desafiaram a proibição das autoridades locais e voltaram a marchar pelo centro da metrópole. Há 15 semanas consecutivas que são organizadas manifestações a exigir reformas democráticas no território chinês de administração especial.

Ao início da noite, um grupo de manifestantes atirou cocktails molotov e pedras na direcção de edifícios governamentais na zona de Admiralty, no centro de Hong Kong. A polícia respondeu com recurso a canhões de água e a gás lacrimogéneo para dispersar a multidão. A certa altura, algumas pessoas incendiaram uma faixa comemorativa do 70.º aniversário da fundação da República Popular da China, que se assinala a 1 de Outubro.

Antes disso, os manifestantes apelam ao território a que pertenceram desde meados do século XIX para exercer pressão para que a autonomia da cidade seja mantida com base nos acordos feitos entre o Reino Unido e a China em 1997, quando a China recuperou a soberania. Concentraram-se em frente ao edifício do consulado britânico para pedir ao Governo de Londres que apoie as suas exigências. Alguns levavam bandeiras do Reino Unido e entoaram o hino.

“Não nos rendemos”, “Deus proteja a rainha”, “Reino Unido salva Hong Kong”, entoaram os manifestantes, enquanto agitaram bandeiras britânicas. Nos cartazes, descreve o Guardian, lia-se “SOS Hong Kong” e citações de Winston Churchill como: “Vamos enfrentar a tempestade da guerra e sobreviver à ameaça da tirania – se necessário durante anos, se necessário sozinhos”.

Pequim tem criticado duramente os protestos, que diz serem incentivados por potências estrangeiras que querem promover a desintegração do território. Em cima da mesa continua a possibilidade de uma intervenção directa das forças militares chinesas para pôr cobro à instabilidade no território, mas o Governo só o quer fazer em último recurso – os custos para a imagem externa da China são o principal receio em Pequim.

A mensagem dos manifestantes é inequívoca. Nada menos do que o cumprimento das suas exigências irá pacificar a cidade, que é também uma das mais importantes praças financeiras do mundo, nem que para isso o movimento de protesto passe a adoptar tácticas mais violentas. “Se falharmos desta vez, não teremos uma segunda oportunidade”, disse ao Guardian o estudante de 24 anos, Gerald Chan, um dos participantes na manifestação deste domingo. “A nossa sociedade civil será reprimida pelo Partido Comunista Chinês”, avisa.

A tentativa do governo local em fazer aprovar uma lei que iria autorizar a extradição de suspeitos de crimes para a China foi o rastilho que desencadeou a mais grave crise política e social em Hong Kong desde a transferência da soberania para Pequim, em 1997. Depois de vários avanços e recuos por parte dos dirigentes pró-China, a chefe-executiva, Carrie Lam, anunciou no início do mês o abandono definitivo do projecto legislativo.

Porém, nos últimos meses, o movimento de protesto alargou o seu âmbito e veio resgatar reivindicações antigas dos sectores pró-democracia em Hong Kong, como a aplicação do sufrágio directo para escolher o governo. Os manifestantes também querem uma amnistia para os detidos durante os protestos e que as autoridades lancem uma investigação independente à violência policial.

Para muitos, a prioridade é não repetir os erros da “revolução dos guarda-chuvas” de 2014, o último movimento de protesto promovido pelos sectores pró-democráticos que acabou por não ver nenhuma das suas reivindicações atendidas.