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Entrevista

"Podíamos acabar com todo o terrorismo se retirássemos às pessoas todas as suas liberdades cívicas"

Neil Shortland coordenou uma equipa que passou dois anos a criar uma base de dados com todas as quase 200 pessoas condenadas nos EUA por envolvimento com a Al Qaeda. Quando terminou, o Estado Islâmico já era a principal ameaça do terrorismo islâmico.

Neil Shortland Hugo Delgado/NFACTOS

Neil Shortland, director pedagógico do Centro para os Estudos de Terrorismo e Segurança e professor na Universidade de Massachussets em Lowell, nos Estados Unidos, coordenou uma equipa que passou dois anos a criar uma base de dados com todas as quase 200 pessoas condenadas no país por envolvimento com a Al Qaeda. Quando terminou o trabalho, o Estado Islâmico já se tinha tornado a principal ameaça do terrorismo islâmico. “Não podemos estudar o terrorismo tão rápido quanto a velocidade a que ele muda”, defende o especialista que esta semana esteve em Braga, onde foi um dos formadores da Escola de Verão em Criminologia na Universidade do Minho. Ainda assim, entende que é preciso entender melhor os terroristas. Os “veteranos” das batalhas na Síria e no Iraque são a próxima grande ameaça.

O ponto de partida para a sua investigação foi a ideia de que, apesar do esforço dedicado a identificar e deter terroristas e apoiantes do terrorismo islâmico, não foi feito o suficiente para perceber o que, de facto, fizeram estas pessoas quando se envolveram em actividades terroristas. Precisamos de saber mais sobre elas?
Há questões centrais no terrorismo a que não se está a responder. Não sabemos quem, porquê e como se envolve nas actividades terroristas. O que no nosso centro de estudos queremos fazer é olhar para as diferenças dentro desse grupo e entre essas pessoas. Quando se começarem a identificar essas diferenças, então podemos começar a entender as questões sobre quem apresenta maiores riscos, quem tem mais probabilidades de se afastar das actividades terroristas ou de fazer escalar as suas acções. A única forma de entendermos as diferenças entre os terroristas é olhando para as diferenças entre aquilo que eles fazem.

Podemos dizer que há diferentes perfis de terroristas?
Não há um perfil do terrorista. Tem-se tentado fazer um perfil de um grupo que é diverso. Do mesmo modo, não há um perfil que ligue todos os médicos: um cirurgião é diferente de um pediatra ou de um obstetra. É isso que nós tentamos fazer: distinguir entre quem vai realizar um ataque, alguém que vai apoiar quem vai realizar um ataque ou alguém envolvido num negócio que produz dinheiro para financiar estas actividades. Podemos olhar para os papéis que eles desempenham e chegar a perfis mais consistentes. Mas o esforço de criar um perfil de todo um grupo é um desperdício.

É por isso que há numerosos casos de atentados terroristas cometidos por pessoas que estavam debaixo do radar das autoridades, mas ainda assim conseguiram escapar.
Essas pessoas não fizeram nada durante três meses e portanto as autoridades pensaram que não havia nenhum problema com elas. Talvez tenham tomado a decisão certa. A questão é que não sabemos como avaliar estas situações, porque não sabemos como se comporta uma pessoa de alto risco.

Quanto mais complexo se torna um ataque, maior a probabilidade de ele ser detectado. Mas se há alguém que decide num determinado dia pegar numa faca e matar, não se pode prever ou travar isso. Não é algo para o qual possamos fazer uma avaliação de risco. Nos últimos 12 meses vemos uma larga escala de ataques coordenados, metade dos quais aconteceu, o que é um falhanço das agências de segurança. Mas o seu falhanço tem que ser levado em conta com a imensa quantidade de pessoas com que eles estão a lidar. Em países como a França, a lista de pessoas de risco é de 400 ou 500 pessoas, mas dessa lista talvez um venha a fazer alguma coisa.

Há uma solução?
É preciso entender melhor os terroristas. Não fazemos ideia do que significa quando as pessoas têm experiências diferentes e estão envolvidas em diferentes tipos de actividades terroristas. Temos que chegar a isso para que, quando as pessoas regressem, consigamos ter alguma compreensão do que elas fizeram e de que forma é que isso aumenta ou diminuiu a probabilidade de se envolverem em actividades terroristas. Temos que diferenciar dentro do grupo. Estamos feitos, se tivermos que lidar com 500 pessoas em que só uma vai fazer alguma coisa. Ninguém consegue lidar com essas probabilidades.

Por que motivo há um número crescente de ataques terroristas?
As organizações terroristas precisam de ser relevantes e de ter presença constante na consciência do público. Por isso, valorizam mais fazer coisas do que a sua escala ou grandeza. Há hoje mais terrorismo, mas os ataques tornaram-se menos letais. Nos últimos dez anos, passámos de grandes operações simultâneas para ataques com cutelos e facas ou bombas caseiras. Isso aconteceu porque os terroristas evoluíram, como resposta à própria evolução das formas de actuação das agências de segurança, mas evoluíram para uma versão menos letal do que a anterior.

Acredita que esta vai ser a tendência nos próximos anos?
Não, creio que haverá mais ataques e mais letais. Há o chamado “efeito veteranos”. Quando alguém vai lutar numa força estrangeira, como está a acontecer com muitas pessoas que se alistaram no Estado Islâmico, ao regressarem aos seus países têm maior tendência em envolver-se num ataque terrorista. Olhemos para os números na Europa. Há perto de um milhar de pessoas que foram lutar no Iraque e na Síria, 30% dos quais regressaram. Portanto, cerca de 300 pessoas terão regressado. Sabemos também que uma em cada dez pessoas que regressam envolvem-se num ataque terrorista. Portanto, há hoje 30 veteranos do Estado Islâmico dentro da Europa. Se estes veteranos se envolverem num ataque terrorista, é mais provável que este seja letal, porque são pessoas treinadas e com experiências. Isto é preocupante.

É possível manter essas pessoas debaixo de vigilância?
É possível, mas é preciso ter em conta a quantidade de pessoas que seriam necessárias, mais a quantidade de tempo e o dinheiro que isso custa. De modo a vigiar todas as pessoas que, em França, foram à Síria, seria necessária uma força policial maior do que toda a força policial francesa. Não temos recursos para vigiar toda a gente.

Com o Estado Islâmico mudou a forma de actuação dos jihadistas. Em que medida é que isso é também um desafio para o seu trabalho como investigador?
Para fazer investigação precisamos de dados. Eu tinha uma base de dados de cerca de 200 membros da Al Qaeda, que foram trabalhados durante dois anos por uma equipa de 100 estudantes. É muito trabalho envolvido. Quando terminámos de trabalhar os nossos dados, a Al Qaeda já não era a principal preocupação. O problema com o terrorismo é que não o podemos estudar tão rápido quanto a velocidade a que ele muda.

Conseguiu chegar a um tipologia de terroristas que possa ser útil hoje para compreender o Estado Islâmico?
Isso seria possível, mas o problema seria: quantas tipologias teríamos? Vou dar um exemplo: havia uma célula terrorista em Nova Iorque há cerca de três anos, constituída por quatro pessoas: um informador do FBI, que era também o seu líder, dois ex-condenados sem dinheiro e uma pessoa que era mentalmente instável. Quão diferentes são estas pessoas? Todos têm psicologias diferentes, motivações diferentes, perfis diferentes. Portanto, podemos chegar a um ponto em que existem demasiados perfis.

Portanto, a resposta é não?
Podíamos apresentar tipologias mas como é que eu sei que a minha tipologia para pessoas envolvidas na Al Qaeda nos EUA corresponde à tipologia de pessoas envolvidas com o EI nos EUA? Será que esse perfil é transferível para pessoas do Estado Islâmico que viajam para o estrangeiro ou para o que acontece na Europa? É preciso ter muito cuidado com estes perfis, porque se eles forem aplicados de forma errada criam ainda mais problemas. As investigações criminais cometem erros enormes porque aplicaram de forma inapropriada os resultados de investigações científicas.

Como se garante o equilíbrio entre as liberdades civis e o combate ao terrorismo?
Podíamos acabar com todo o terrorismo se retirássemos às pessoas todas as suas liberdades civis. É óbvio que ninguém quer isso. Pessoalmente, penso que a solução não é tentar parar o terrorismo, porque isso não vai acontecer. Eu penso que a chave é reduzirmos a nossa reacção ao terrorismo, sendo menos alarmistas e tendo menos medo deles. Quando os estudantes norte-americanos estão a estudar fora do país, por exemplo, não querem saber de questões de segurança. Já nos EUA, toda a gente está alarmada e pensa que o perigo pode estar na porta ao lado. Não penso que isso seja bom, na verdade, pode até ser pior. O equilíbrio não virá de retirarmos liberdades civis, mas de uma maior resiliência da sociedade. O terrorismo precisa de ser tratado como um outro qualquer crime. Um homicida não deve ter mais 200 referências nos media só porque grita pelo Estado Islâmico quando assassina alguém.

Como é que podemos ter a certeza de que os chamados “lobos solitários” são de facto terroristas e não pessoas com outro tipo de motivações ou até com uma doença psiquiátrica?
Muitas dessas pessoas tornaram-se conscientes que, ao apresentarem-se como terroristas, fazem com que toda a gente se preocupe mais. Há casos de atiradores nos EUA que tinham no bolso manifestos políticos em que diziam que não gostavam de Barack Obama. Isso é terrorismo? Tecnicamente, sim, mas ninguém o trata dessa forma. Da mesma forma como há atiradores que atacam sinagogas. Hoje em dia, a definição algo como terrorismo é ditado pelos media mais do que por qualquer definição teórica

É a sociedade que rotula os crimes como terroristas, mesmo que estes não o sejam per se?
Para que seja considerado terrorismo, quem o comete tem que acreditar sinceramente que aquilo que vai fazer terá um efeito político. Esse julgamento é tremendamente difícil de fazer porque normalmente não sabemos o que está a acontecer dentro das suas cabeças. Essa confusão é especialmente complexa com os atiradores solitários, porque nos EUA há tantos exemplos desses.

Também houve uma grande confusão nos ataques de Orlando [contra uma discoteca da comunidade LGBTI] à volta das motivações do seu autor.
E não se tratou de terrorismo, mas de um crime de ódio. Essa distinção torna-se ainda mais difícil quando olhamos para a extrema-direita: quando se trata de alguém de extrema-direita, como se desenha a linha que separa um crime de ódio de um acto de terrorismo?

A sua investigação foi baseada em dados dos EUA, mas quando olha para os atentados na Europa, que tipo de comparações é possível fazer?
Há grandes diferenças. Por exemplo, os ataques de Bruxelas e Paris foram ligados directamente ao Estado Islâmico, porque aquelas pessoas tinham estado lá. Não temos nenhum exemplo desses nos EUA. Mas também há grandes semelhanças. Tem-se falado muito [do bairro de Bruxelas] de Molenbbek. Áreas socialmente isoladas, com baixos índices socio-económicos e um grande desligamento com a sociedade não são uma situação ímpar na Europa. As três cidades onde foram feitos mais esforços para combater actividades extremistas nos EUA são Boston, Mineapolis e Los Angeles. Em Mineapolis, há uma zona da cidade que é exactamente igual a Molenbeek. É aí onde as ideologias podem florescer, onde é possível fazer o recrutamento.

O “Brexit” pode tornar-se um problema na coordenação entre as autoridades do Reino Unido e da União Europeia no combate ao terrorismo?
Creio que se aprendeu com os ataques anteriores que é necessário partilhar informações entre os países e as suas agências de segurança. Esteja ou não o Reino Unido na União Europeia, as agências vão continuar a partilhar informações. Elas já trabalham conjuntamente há 15 anos.

Mesmo que o divórcio seja feito?
As pessoas preocupam-se mais com a sua segurança do que em estar ou não estar na União Europeia.