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Análise

Persas e americanos: um atoleiro estratégico

Estamos perante duas estratégias de tensão que, se não redundarem em escalada e evitarem os famosos erros de cálculo, podem culminar numa negociação.

A partir de 7 de Julho, o Irão poderá ultrapassar os limites do seu stock de urânio pouco enriquecido, violando uma cláusula do acordo nuclear de 2015, e aumentar ligeiramente o nível de enriquecimento. Mas não denunciará o acordo. Para a maioria dos observadores, esta ameaça faz parte da calculada estratégia de alto risco que Teerão escolheu para preparar uma negociação com os Estados Unidos. Os persas têm uma milenar cultura política.

“Isto não significa o começo de uma guerra com a América. Antes de negociações com os Estados Unidos, o Irão precisa de uma narrativa de sucesso”, resume Ray Takeyh, do Council on Foreign Relations. Ao mesmo tempo, os iranianos declaravam repudiar quaisquer negociações “com uma espada suspensa sobre a cabeça”. A República Islâmica não pode “perder a face”, sob risco de desabamento do regime.

A semana passada foi marcada por “jogos de guerra” no Golfo, em que ambas as partes fizeram gala em mostrar contenção. Feitas as contas, o Irão conseguiu fazer passar parcialmente a sua mensagem: a “catástrofe” pode acontecer. Ou, como escreve a Economist, “uma guerra indesejada não é necessariamente uma guerra improvável.”

Nas cerimónias de sexta-feira, 21, em Teerão, o influente pregador Ali Akbari usou uma velha máxima: “Os inimigos também sabem que se começarem uma guerra, não a poderão parar.” Sabe-se como as guerras começam mas não como acabam. A arte está na interpretação das palavras de Akbari: pode aplicar-se também aos responsáveis iranianos.

Esta semana continuou marcada pelo temor de guerra mas também pela discussão da forma de a evitar, ou seja, sobre cenários negociais. “Para mim, é claro que se anunciam conversações entre os Estados Unidos e o Irão”, escreve Takeyh, um analista irano-americano próximo dos meios da Defesa. Isto não quererá dizer baixa de tensão. Será antes o prelúdio de meses de meses de alto risco.

Do lado do Irão

É altura de olhar o que se passa no Irão e que, em larga medida, condiciona a sua conduta política. A “campanha de pressão máxima”, o bloqueio económico imposto por Trump, actua no contexto de uma grave crise interna.

O sociólogo iraniano Mohammed Fazeli declarou em 2018, numa conferência de um think tank pró-governamental, que o país enfrenta uma “convergência de crises” – económica, social, política, ambiental e geopolítica – sem igual “em qualquer outro país do mundo”.

Em 2017 e 2018, o Irão conheceu maciços protestos, desta vez entre a chamada “classe média pobre”, ou seja assalariados, e não entre as classes médias liberais dos grandes centros urbanos. Preocuparam o poder porque não só vinham de uma tradicional base de apoio do regime como não pouparam “os pilares ideológicos da República Islâmica”.

“A República Islâmica enfrenta três crises­ – política, sócio-económica e ecológica – todas elas dramáticas”, corrobora Ali Fattolah-Nejad, analista iraniano da Brookings Institution. Para lá do protesto da “nova classe média pobre”, o país é devastado por uma gravíssima crise ecológica que acentuou a desertificação e tornará metade do país inabitável dentro de uma década. Para cúmulo, houve as catastróficas inundações de Março-Abril.

No plano político, está em causa “a arte de usar e abusar das crises externas para consolidar o poder domesticamente. A longevidade da República Islâmica pode ser descrita como a combinação de factores internos e externos, muitas vezes correlacionados.” A revolução produziu sentimentos nacionalistas que os governantes islâmicos exploraram. O mesmo aconteceu com a invasão iraquiana e guerra que durou oito anos.

Frisa Fattolah-Nejad que esta retórica é hoje menos poderosa, tanto mais que “a oligarquia política e económica limita os espaços” a outros sectores da sociedade e “o sofisticado autoritarismo do sistema político bloqueia qualquer reforma séria”.

Outro aspecto maior do sistema é “a estrutura de poder bipolar”, uma espécie de face de Janus, fundamental na condução da política externa. O Presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros são responsáveis pela política externa, mas dividem as atribuições com o “governo paralelo” do Guia Supremo, o ayatollah Khamenei, que dispõe dos Guardas da Revolução e, em especial, da Força Quds.

Há uma divisão dos papéis, aponta o analista Karim Sadjadpour: Qasem Suleimani, chefe da Força Quds, “serve como espada de Khamenei” no Médio Oriente, enquanto o MNE, Muhammad Zarif, “serve de escudo de Khamenei, usando os seus talentos diplomáticos para bloquear a pressão política e económica ocidental”.

Esta dualidade perturba os estrangeiros. Se Khamenei toma, ou ratifica, as grandes decisões, é bom saber interpretar as suas intervenções. Ao Presidente, Hassan Rouhani, e ao MNE, cabe “mostrar o ramo de oliveira”. A Khamenei cabe dar a entender que veta qualquer negociação. “Mas isto é uma leitura errada de Khamenei, que rotineiramente denuncia em público o que apoia em privado”, explica Sadjadpour.

Apostar no colapso?

A proposta americana de negociações assenta actualmente nos “12 pontos” do secretário de Estado Mike Pompeo. Ligando a questão do nuclear à política regional de Teerão, significariam pura e simplesmente a capitulação iraniana: seria o suicídio da República Islâmica.

Os neo-conservadores sobreviventes, como o analista Reuel Marc Gerecht, sublinham que é exactamente a fraqueza do regime iraniano – “um regime exausto, talvez a caminho da extinção” ­– que aconselha redobrar as sanções. “Não tem capacidade para um conflito prolongado com uma superpotência.” Isto parece evidente, mas não em conta a capacidade de retaliação dos persas. O mesmo Gerecht garantia, em 2002: “Uma guerra no Iraque não desestabilizará o Médio Oriente.”

Contrapõe a analista Suzanne Maloney, outra especialista no Irão, do Council on Foreign Relations: “As contradições inerentes à actual abordagem americana criaram um atoleiro estratégico. A ‘pressão máxima’ provou ser insuficiente para provocar o colapso ou a capitulação.” Não eliminou a capacidade de Teerão resistir perante uma “ameaça existencial” ou de encontrar meios pesados de dissuasão perante os EUA. “Nem Washington nem Terrão podem prevalecer unilateralmente, ou inequivocamente, e as estratégias de ambas as partes colocam graves riscos ao seu adversário.” Também Maloney crê numa estreitíssima via para a negociação.

É insensato fazer cenários. O que temos perante os olhos são duas estratégias de tensão que, se não redundarem em escalada e evitarem os famosos erros de cálculo, podem culminar em negociação. E mais não sabemos.