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Reportagem

Marcha pelo Clima: os olhos do mundo estão a pressionar os líderes da COP

Organização da Marcha pelo Clima diz que mais de 500 mil pessoas desfilaram no centro de Madrid. Greta Thunberg abandonou o percurso a meio mas regressou ao palco, para discursar enquanto milhares ainda caminhavam.

A organização fala em mais de 500 mil participantes na Marcha do Clima esta sexta-feira, em Madrid Reuters

Os discursos no palco montado nos Nuevos Ministerios, em Madrid, já iam adiantados e ainda se marchava pelo clima na capital espanhola. Já tinha falado Javier Bardem, já tinha falado Greta Thunberg e ainda havia milhares de pessoas a caminhar, segurando cartazes e entoando cânticos. A organização fala em mais de 500 mil participantes, na manifestação que deixou um recado a quem, a poucos quilómetros, negoceia novos acordos com fortes implicações no futuro do planeta, e em concreto, evitar a subida da temperatura acima dos 1,5 graus Celsius.

Para os que estão reunidos na 25ª Convenção das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a mensagem chegou através de um pano pintado por 190 pessoas, a que deram o nome Os olhos do Mundo. “Os olhos do mundo estão postos em vocês. Não nos decepcionem”, avisou-se no palco.

Jovens e preocupados. São eles os grandes protagonistas da Marcha do Clima Reuters

Foram muitas cores, vozes, línguas e idades a encher as ruas de Madrid em nome da justiça climática. Greta Thunberg, a jovem de 16 anos transformada em estrela na luta contra as alterações climáticas, percorreu parte do trajecto e acabou por deixar as ruas, a conselho da polícia, mas regressou para fazer um breve discurso no palco montado no final do percurso.

“La niña”, como lhe chamam os espanhóis, repetiu as palavras que já lhe são familiares, arrancando aplausos aos que já tinham chegado, porque muitos dos outros nem sequer se aperceberam da sua presença, tão longe vinham ainda. “A esperança não está dentro do edifício da COP25, mas aqui, connosco”, disse, entusiasmando a multidão enquanto repetia: “São os povos que são a esperança. Vocês são a esperança. Precisamos de continuar, precisamos de manter o momentum.”

A quem governa, a jovem de 16 anos dirigiu-se no tom de aviso que já lhe é habitual. “A mudança não virá de quem está no poder. Mas das massas, de nós. Somos nós que vamos trazer a mudança. As pessoas no poder precisam de nos seguir, nós é que estamos a mostrar o caminho. Eles precisam de assumir as suas responsabilidades e de fazer o trabalho deles. Porque os nossos líderes estão a trair-nos e não vamos continuar a deixar que o façam. Dizemos, chega, agora. E a mudança vem aí, queiram ou não. Porque não temos opção”, disse, antes de se despedir, sob um imenso aplauso.

Foram mais os que não a ouviram do que aqueles que já tinham terminado a caminhada iniciada quase três horas, junto à estação de Atocha. Milhares de pessoas de todo o mundo, que aproveitaram o protesto para expor todo o tipo de problemas, da mineração, à devastação das florestas e ao fim do nuclear. Havia indígenas da América Latina, envergado trajes tradicionais, havia pessoas de máscara, havia crianças e velhos, criaturas do mar feitas com gaze e luzes, peixes sem corpo, planetas com uma chama a encimar-lhe a existência.

Até havia um enorme cartaz especialmente dedicado ao Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que Angel “Titiretero” (fabricante de marionetas, como se identifica), de 77 anos, criou, com várias imagens de animais, incluindo um urso polar. “Porque o que está a acontecer na Amazónia interessa a todo o mundo”, dizia.

O sentimento de globalidade vivia-se ali em todos os grupos que se juntaram ao longo do percurso. A maior parte espanhóis, mas muitos de outras partes do globo. Triana Wardani, de 33 anos, viajou da Indonésia para Espanha para participar na COP25, e levar aos interessados em ouvi-la notícias sobre a luta que a associação com que trabalha tem travado em defesa das mulheres. E também pelo fim da poluição causada pelos incêndios que, diz, acontece “todos os anos, desde há 22 anos, sem que os governos a consigam travar”. O resultado é quase um milhão de pessoas, diz, em 2019, com infecções respiratórias agudas. Ela estava ali para protestar contra as mudanças climáticas, mas sobretudo contra isso.

Foram muitas cores, vozes, línguas e idades a encher as ruas de Madrid em nome da justiça climática Reuters

A colombiana Saulay Perez, de 24 anos, está há poucos meses em Madrid a estudar, mas não sabe se vai regressar à Colômbia. “O país não está bem. É uma combinação de tudo, das alterações climáticas e do estado político”, diz, enquanto recorda que há rios da sua infância que hoje, por causa da seca, “já não existem”.

Maria José Esteban, 59 anos, é dali mesmo, da capital espanhola e suspira quando lhe perguntam se tem esperança que algo de bom saia da COP25. Mas não quer dizer que não. “Há muita gente que começa a pensar. Só por isso, já melhorou, mas ainda falta muito para a mudança. Nós é que temos de solucionar. Haja alguém que nos escute.”

De Portugal, como esperado, estiveram cerca de 200 pessoas, entre activistas e políticos. A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, em declarações aos jornalistas antes da marcha, salientou a importância da mobilização popular, na tentativa de fazer os políticos mudar e defendeu que há três pontos cruciais nesta COP25. “São precisos objectivos claros, vinculativos, que não se fiquem pelo mercado do carbono, porque não se negoceia o clima. Os mercados são para quem pode pagar para continuar a poluir. O objectivo não é esse. E é preciso defender a floresta tropical, a Amazónia e as outras”, disse.

Iris Gil, de 19 anos, era outra portuguesa entre os milhares que percorreram pacificamente as ruas do centro da capital espanhola, menos cheias da gente habitual, porque era feriado. Diz que se sentiu motivada a participar na marcha depois de ouvir uma palestra sobre desobediência civil, na Universidade de Coimbra, onde estuda agricultura biológica.

As preocupações com o clima já a fizeram avançar com algumas mudanças na sua vida. “Sou vegan há quatro anos e comecei a investigar muito sobre estes temas, o que me deixou com uma grande preocupação”. Quando terminar o curso quer viajar, numa carrinha movida a painéis solares, que a levem a vários santuários de protecção animal.

Leo Angel, de 8 anos, ainda não sabe o que quer fazer. Está na manifestação acompanhado pela mãe — uma irlandesa com quem ele fala em inglês, apesar de ser espanhol — e quando lhe perguntam por que está ali, pensa um segundo e responde: “Para impedir as pessoas de colocarem plásticos na água.” E mais? Ele diz que por mais nada, até a mãe o lembrar: “Então e os ursos polares?” Sim, também está ali pelos ursos polares”, lembra-se, finalmente.

Pacificamente, com muitas canções pelo meio e algumas intervenções na cabeça da marcha ao longo do trajecto, a manifestação foi terminando, muito lentamente, junto ao palco onde a brasileira Sônia Guajajara garantia que “estamos vivendo uma guerra global contra todos e todas que defendemos a Mãe Terra”, insistindo: “Não temos muito tempo, precisamos de agir agora.”

“Já” foi também o ultimato deixado pelo actor e activista Javier Bardem, quando exigiu as mudanças necessárias para alterar o rumo que, neste momento, está a levar o mundo para um aumento de temperatura acima dos 3 graus Celsius. “Temos só dez anos para travar as piores consequências do aquecimento global”, enfatizava.

À sua frente, milhares ainda marchavam.