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O ano em que as mulheres precisaram de Trump para se revoltarem

Foi um ano de paradoxos - no primeiro ano de presidência de Donald Trump, ele atacou os direitos reprodutivos e descredibilizou vítimas de assédio; e mobilizou activistas e até a eclosão do caso Weinstein. Trump galvanizou a revitalização da resistência feminina. Ou terá sido a grande ausente, Hillary Clinton, a catalisadora na derrota?

O nome do 45.º Presidente permeia grande parte dos acontecimentos e mobilizações que afectaram as mulheres no seu primeiro ano na Casa Branca TRACIE VAN AUKEN/EPA

Parece um paradoxo: sob alçada do Presidente que limitou o financiamento a instituições de planeamento familiar e é visto como uma ameaça aos direitos reprodutivos das americanas, que é acusado de assédio por 17 mulheres e visto como um rosto da misoginia, 2017 foi um ano de emergência e afirmação de momentos e movimentos femininos e feministas nos EUA. Sem o homem que derrotou aquela que seria a primeira Presidente dos Estados Unidos, teria havido uma Marcha das Mulheres, um #MeToo, um Time’s Up? “Afinal, às vezes, é preciso um vilão.”

Foi o que defendeu, há um ano, a autora e comentadora Rebecca Traister. “Muitas pessoas previram que as mulheres iam mudar a história política da América em Janeiro de 2017. Mas quase ninguém antecipava que o fariam como líderes da resistência”, postulou na revista New York a propósito da Marcha das Mulheres, “uma demonstração de solidariedade” que mobilizou milhões de pessoas em vários pontos do globo e que se tornou no primeiro grande momento da presidência Trump. O nome do 45.º Presidente permeia grande parte dos acontecimentos e mobilizações que afectaram as mulheres no seu primeiro ano na Casa Branca. Donald Trump é um contexto. 

Um filme do ano: “O movimento das mulheres tornou-se na ponta da lança da resistência à administração Trump”, escrevia o escritor canadiano Stephen Marche em Fevereiro no Guardian. “Parece haver mais activismo do que vi em anos”, dizia em Julho à CCN Debbie Walsh, directora do Center for American Women and Politics da Universidade Rutgers; “Não há dúvidas de que ter um predador sexual acusado na Casa Branca pende sobre tudo isto”, constatava a activista Jaclyn Friedman ao New York Times sobre o escândalo Weinstein.

“Tem sido um ano de canalizar, de recuperar o tempo perdido de activismo e de tentar fomentar a participação”, resumia há dias no New York Times Cecile Richards, presidente da Planned Parenthood, organização sem fins lucrativos que presta cuidados de saúde reprodutiva. No fundo, depois da eleição de Novembro de 2016, “parecia que tínhamos entrado numa nova Idade Média. Depois veio a onda de protestos feministas que nos transportou até ao actual momento de resistência contra o assédio e violência sexual”, rematava Sarah Leonard, autora de The Future We Want: Radical Ideas for a New Century, no The Nation.

Walsh é uma de muitos analistas que identifica a Marcha das Mulheres como catalisador de um ano de mobilização. Organizada sobretudo por jovens negras e latinas, apostava em convocar, ainda que prometendo melhorar na edição de 2018, diferentes temas como raça, imigração, direitos LGBTQ ou equidade salarial. Depois, aconteceria uma greve do trabalho feminino, a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, e a cultura fazia afirmações feministas no cinema e TV. A oposição repetida da senadora democrata Elizabeth Warren à nomeação de Jeff Sessions como procurador-geral tornava-se numa sensação feminista viral (“Nevertheless, she persisted”) e o voto feminino derrotava o republicano acusado de assediar sexualmente menores, Roy Moore, na corrida ao Senado.

Isto quando 2017 já se tinha tornado no ano do caso Weinstein, cujas investigações jornalísticas eram pontuadas por referências saturadas das vítimas à famosa frase do Presidente sobre como consegue “grab’em by the pussy”. Nascia o movimento de denúncia sintetizado no hashtag #MeToo, criado pela activista negra Tarana Burke, e ultrapassava-se Hollywood. Em Novembro, na revista Time, a carta aberta da Alianza Nacional de Campesinas punha 700 mil trabalhadoras agrícolas ao lado das estrelas, noutra demonstração de solidariedade entre mulheres e vítimas de assédio. A mesma revista substituiu a sua personalidade do ano de 2016, Donald Trump, por uma capa cheia das denunciantes dos crimes de assédio e violação como as figuras de 2017

A complexa realidade da igualdade de direitos joga-se na arena política e ela parece estar prestes a encher-se de mais mulheres. A comissão democrata de apoio à presença de mulheres nas corridas eleitorais EMILY’s List diz que, desde Novembro de 2016, 25 mil mulheres se inscreveram nos seus cursos sobre como concorrer a cargos públicos — nos dois anos anteriores foram 920. Em 2017 atingiu-se um número recorde de 22 senadoras nos EUA e este ano há mais 200 candidatas potenciais à Câmara dos Representantes do que em 2016, segundo a Universidade Rutgers.

Mas essas 22 senadoras são ainda menos de 20% do Senado e, como lembra a revista Slate, tantas vezes um dado momento foi proclamado “o ano da mulher” na política americana sem consequências duradouras.

E ao mesmo tempo, Trump é o primeiro Presidente em funções a falar presencialmente numa marcha anti-aborto, e embora não tenha concretizado muitas das suas promessas eleitorais para limitar os direitos reprodutivos, instaurou uma forte limitação ao financiamento de organizações ligadas à saúde que apoiem ou discutam o aborto. Nomeou o juiz Neil Gorsuch, crítico do direito à interrupção voluntária da gravidez, para o Supremo Tribunal. “Este ano assistiu a um momento de transformação na política sexual americana”, escreveu Susan Faludi no fim de Dezembro no New York Times. Mas muito está ainda por fazer, escreve a autora de Backlash: The Undeclared War Against American Women. Menos visível do que um caso de assédio ou uma marcha nas ruas, houve uma “bomba” legislativa, no Tax Cuts and Jobs Act, lembra, lei que diminui os direitos de quem recebe o salário mínimo — dois terços desses trabalhadores são mulheres. 

A resistência e os diferentes movimentos de mulheres estão longe da unanimidade, como se vê nas actuais divisões em torno do #MeToo, em que debate o rigor mas também, ideologicamente, sexo, género, limites e comportamentos. Durante esta presidência simbolicamente patriarcal ­ — “Trump é uma paródia, um simulacro de masculinidade”, caricatura o canadiano Stephen Marche —,  há também uma grande ausente.

Como constata Amy Chozick, autora do livro Chasing Hillary, sobre as campanhas eleitorais da senadora Clinton, “a sua derrota ajudou a inflamar o tipo de movimento que em tempos esteve posicionada para liderar, mas que hoje vê sobretudo das bancadas”. Será, afinal, Hillary Clinton, e não Trump, quem tem a responsabilidade de um ano de mobilização feminina?

Hillary não pode fazer parte do movimento #MeToo, como constatou Patti Solis Doyle, sua assessora entre 1991 e 2008, por causa da forma como as relações extraconjugais de Bill Clinton na Casa Branca e as queixas de assédio por parte do Presidente foram tratadas e diminuídas na época.

Aquela que há 16 anos consecutivos é a mulher mais admirada nos EUA nas sondagens Gallup e que viu 42% dos votos das mulheres americanas a ir para o milionário que a descreveu como “nasty woman”, é afinal um símbolo “imperfeito para a causa feminista”, escreveu há dias Chozick, jornalista de política do New York Times. “Hillary Clinton, a primeira mulher que teve uma oportunidade real de se tornar Presidente, finalmente desencadeou um despertar nacional entre as mulheres. O único senão? Ela fê-lo ao perder.”