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Legislativas na Ucrânia: nova vitória no horizonte do guião de Zelenskii

O partido do novo Presidente ucraniano deve ter uma votação histórica nas eleições deste domingo. Com um forte apoio no Parlamento, Zelenskii fica com caminho aberto para fazer reformas urgentes.

O partido do Presidente Volodimir Zelenskii deverá conseguir uma vitória expressiva nas eleições legislativas OLEG PETRASYUK / EPA

Em poucos meses, o antigo humorista Volodimir Zelenskii pode ascender ao estatuto de líder ucraniano com mais poder desde a independência, em 1991. Tudo aponta para que o seu partido recém-fundado, o Servo do Povo, seja o mais votado nas eleições legislativas deste domingo, dando-lhe condições de governabilidade sem precedentes.

As legislativas estão a ser interpretadas como uma continuação do embate eleitoral que marcou as presidenciais de Abril, quando Zelenskii venceu de forma retumbante o anterior Presidente, Petro Poroshenko, obtendo mais de 70% dos votos na segunda volta. A outrora improvável vitória de Zelenskii – um humorista e produtor televisivo de sucesso, mas sem qualquer experiência política – ancorou-se num discurso profundamente crítico das elites tradicionais, vistas pela generalidade da população como corruptas e ineficientes.

O esperado triunfo do partido presidencial corresponde ao “desejo dos ucranianos de mudar o jogo político”, explica ao PÚBLICO a jornalista Tetiana Ogarkova, do canal Hromadske, um dos poucos meios de comunicação independentes no país.

As sondagens atribuem ao partido Servo do Povo – baptizado com o nome da série de televisão que celebrizou Zelenskii no papel de Presidente fictício – perto de 50% das intenções de voto. Porém, será improvável que o partido presidencial consiga preencher mais de metade dos 450 lugares da Rada Suprema (na verdade, desde 2014 que apenas 423 lugares estão em disputa, uma vez que se mantêm vazios os lugares dos deputados da Crimeia e das regiões ocupadas no Donbass). Sendo provável que o Servo do Povo obtenha um bom resultado nos círculos proporcionais, nos círculos uninominais as hipóteses de sucesso são mais reduzidas.

O partido só começou a ganhar forma depois das eleições presidenciais, e teve pouco tempo para montar uma máquina eleitoral capaz de concorrer com as já estabelecidas. “Em muitos dos círculos uninominais há candidatos fortes, com muitos recursos, e as antigas elites têm boas possibilidades”, diz ao PÚBLICO o analista do Centro Carnegie Balasz Jarabik.

O parceiro de coligação natural do Servo do Povo é o Voz (Golos), outro partido anti-sistema fundado por uma celebridade, o músico Sviatoslav Vakarchuk, embora as sondagens não dêem como certa a sua entrada no Parlamento. Uma alternativa será a realização de acordos pontuais com alguns deputados eleitos pelos círculos uninominais para assegurar a maioria.

O partido em segundo lugar nas intenções de voto é a Plataforma de Oposição – Pela Vida, um partido pró-Moscovo que tem o apoio do oligarca Viktor Medvedchuk, amigo pessoal do Presidente russo, Vladimir Putin, que é padrinho de uma das suas filhas. A sua base de apoio coincide com o eleitorado do extinto Partido das Regiões, que chegou a ser um dos principais partidos do país, mas que foi fortemente debilitado pelo afastamento do presidente Viktor Ianukovitch, em 2014.

É expectável que a oposição ao futuro governo seja partilhada entre a formação pró-russa e os chamados “patriotas”, compostos pelos partidos de Poroshenko e da ex-primeira-ministra Iulia Timochenko, representantes da política tradicional e muito castigados nas urnas – cada um terá perto de 9%, segundo as sondagens. “Vão opor-se ao governo praticamente em todas as ocasiões, excepto talvez nas reformas económicas”, prevê Jarabik.

A leste algo de novo?

Em termos gerais, o novo governo não deverá desviar-se significativamente do rumo que vinha a ser seguido. Tal como Poroshenko, Zelenskii defende a integração da Ucrânia na União Europeia e na NATO. Nos primeiros dois meses de mandato, o Presidente fez visitas oficiais a Bruxelas, Berlim e Paris, sinalizando que pretende manter a direcção da política externa. Uma das propostas mais controversas do Servo do Povo, mas simultaneamente mais populares, é o fim da imunidade parlamentar. A aprovação desta medida poderá definir o futuro do governo, considera Jarabik. “Se houver uma coligação com um partido dominante, isso dá mais margem para aprovar leis, mas lutar contra a corrupção também implica vontade política para prender pessoas”, observa o analista.

Já as relações com Moscovo podem sofrer alterações. Zelenskii já adiantou que pretende dialogar directamente com Putin, e a sua abordagem ao conflito no Donbass (no Leste separatista da Ucrânia), que se arrasta há cinco anos e já causou a morte a mais de 13 mil pessoas, diverge ligeiramente do seu antecessor. “O foco da política de Zelenskii é humanitário, admitindo o aspecto cívico do conflito, e de que não se trata apenas de uma agressão russa, mas que também existem ucranianos a combater do outro lado”, diz Jarabik. As suas prioridades passam pela garantia de pequenos passos, como trocas de prisioneiros, tal como ocorreu na sexta-feira, e por uma reintegração dos territórios separatistas de forma pacífica.

Uma das principais promessas de Zelenskii é a redução do preço do gás natural, um bem de primeira necessidade para os ucranianos e que há décadas é usado como arma política. Para o conseguir, o novo governo terá de falar directamente com Moscovo, explica o analista do Carnegie. “Não comprar gás directamente à Rússia era visto como uma vitória para o governo de Poroshenko”, diz Jarabik. A nova abordagem, diz, levanta obrigatoriamente uma questão: “Poderá Zelenskii gastar capital político nisso e convencer as pessoas de que é mais importante reduzir o preço do gás do que continuar a lutar contra a Rússia?”

Ter uma bancada numerosa na Rada abre novas possibilidades ao governo para lançar reformas políticas e económicas que todos dizem ser urgentes na Ucrânia. Mas a política local é traiçoeira, armadilhada e instável. O percurso da Ucrânia no período pós-independência é feito de um ciclo quase interminável de rupturas seguidas de decepções e ninguém arrisca dizer que agora será diferente. Jarabik não exclui a hipótese de haver, por exemplo, quebras da disciplina partidária, especialmente quando o grupo parlamentar do Servo do Povo terá deputados sem qualquer passado político.

“É óbvio que há um risco de que isso aconteça, mas estes tipos estão a escrever História, portanto vamos dar-lhes o benefício da dúvida”, comenta o analista. “Pelo menos durante os primeiros cem dias.”

O advogado do oligarca

Um dos principais testes a Zelenskii e ao novo governo é a relação com o oligarca Igor Kolomoiski. Durante a campanha eleitoral, Poroshenko e a oposição ao humorista não se cansaram de apontar a hipocrisia de Zelenskii em denunciar a influência dos oligarcas sobre a política ucraniana, sugerindo que Kolomoiski era o verdadeiro mentor da sua candidatura.

O empresário é proprietário do canal que emitia a série protagonizada por Zelenskii e tem razões fortes para se querer vingar de Poroshenko. Em 2016, o Governo decretou a nacionalização do PrivatBank, o maior banco privado do país na época, que era detido por Kolomoiski, acusando-o de ter sido usado para lavagem de dinheiro. O principal receio é de que Zelenskii interfira no processo de nacionalização, que ainda está nos tribunais, para favorecer o oligarca, mas o Presidente já garantiu que nada irá fazer.

“Os media ucranianos têm feito o seu trabalho, escrutinando Zelenskii e, se houvesse algum indício de influência, já se saberia”, diz Jarabik, que considera as suspeitas lançadas a propósito de Kolomoiski uma “estratégia eleitoral de Poroshenko”.

A nomeação do ex-advogado do empresário, Andrei Bogdan, como chefe do gabinete presidencial fez soar os alarmes, mas o especialista do Carnegie não considera tratar-se de um reflexo da influência de Kolomoiski. “[Bogdan] não é uma criatura de Kolomoiski, acho que terá sido Kolomoiski a necessitar dos seus serviços, e não o contrário.”

Tetiana Ogarkova recorda que Zelenskii se tem reunido com vários oligarcas nos últimos meses, talvez com o intuito de expandir o seu leque de opções. No entanto, avisa a jornalista, é certo que Kolomoiski irá tentar explorar os seus laços com o Presidente. “Veremos quem é mais forte: se os planos de Kolomoiskii, ou o desejo de Zelenskii de ser independente, se é que esse desejo existe.”