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Entrevista

Ninguém contava que a questão de Leste-Oeste ainda fosse hoje relevante na Alemanha

Marianne Birthler, opositora ao regime da ex-RDA, política depois da unificação, e comissária dos arquivos da Stasi, nota os desafios que a reunificação trouxe aos alemães de Leste.

Pessoas que viveram em ditadura tinham, talvez, expectativas erradas sobre uma sociedade livre e democrática Rui Gaudêncio/PÚBLICO

Há 30 anos, antes da queda do muro, falava numa manifestação não autorizada na Alexanderplatz, em Berlim. Hoje vai falar nas celebrações na Porta de Brandeburgo. Marianne Birthler conversou com o PÚBLICO na semana passada, quando esteve em Lisboa para uma conferência no Goethe-Institut.

Como vê hoje as diferenças entre Leste e Oeste?
Há 30 anos que estamos num processo de unificação. Pessoas que tinham vivido em dois sistemas políticos e de sociedade totalmente diferentes vivem agora no mesmo país. Foi pedida uma enorme capacidade de adaptação aos alemães de Leste, para quem mudou quase tudo. Muitas mudanças foram boas, mas houve tensão e desafios, por exemplo quando desapareceu a profissão que muitos tinham.

[Na ex-RDA] havia certezas de que se teria escolas para as crianças, por exemplo. Algumas das mudanças [da reunificação] levaram a que muitos alemães de Leste passassem a viver num stress permanente.
Sim, mesmo que a maioria estivesse, claro, muito contente porque o muro caiu, e queria a reunificação. Mas em termos práticos foi difícil para muita gente. Houve alguns que desenvolveram um sentimento, real ou percepcionado, de que eram cidadãos de segunda. E é uma realidade que no Leste ainda ganham menos, que as pensões de reforma ainda são mais baixas, que têm menos dinheiro disponível. E que estão pouco presentes em posições de liderança também.

Esse é um dos factores para o sucesso particular da AfD [Alternativa para a Alemanha, direita radical] no Leste?
É um dos factores. O primeiro penso que está no passado: pessoas que durante décadas viveram em ditadura simplesmente não conheceram a democracia. Tinham, talvez, expectativas erradas sobre o funcionamento de uma sociedade livre e democrática, ficaram desapontadas porque nem tudo aconteceu como esperavam. O regime nazi também era visto de uma maneira própria na RDA (era-se antifascista por decreto, os nazis estavam todos no lado ocidental, se perguntassem, Hitler era um alemão ocidental). Há motivos variados, mas é preciso ver que também noutros países do mundo há partidos e políticos de extrema-direita e direita populista com muito sucesso. Não estamos sozinhos nisto.

O modo de lembrar a queda do muro e as celebrações do aniversário têm sido diferentes ao longo dos anos. Como vê essa mudança?
Concordo, as coisas são vivas, e vão mudando conforme, por exemplo, as perguntas que a próxima geração também tem. É como uma cebola, quando é descascada, vamos vendo novas camadas, a cada dois anos aparece um aspecto novo. Acho que é bom sinal que a história não esteja cristalizada e se diga, “foi assim e acabou”. O que acho interessante neste momento é que durante muito tempo se falou das vítimas e da oposição, por um lado, e dos carrascos, por outro. E a grande maioria, que está entre eles, foi um pouco ignorada, e isso mudou. Há um livro muito popular, de Ilko-Sascha Kowalczuk, Die Übernahme (“A Tomada”, no sentido de takeover), que se concentra na massa de pessoas que simplesmente nem eram do partido, nem estavam nas manifestações da oposição. E há uns anos fala-se mais sobre estas pessoas.

Deu recentemente um exemplo sobre a relevância de se ser de Leste ou de Ocidente para a sua neta. É importante ainda hoje?
A minha neta mais velha tem 21 anos e estuda em Cottbus, numa cidade do Leste, e perguntei-lhe se, para ela, amigos e colegas, na casa que partilham, esta questão do Leste e do Ocidente ainda é relevante. E ela disse que sim, que é uma das primeiras perguntas que se faz quando se conhece alguém novo. Não sei se podemos generalizar a partir daqui, e claro que estamos a falar de Cottbus, e não de uma cidade da parte ocidental como Munique. Mas sim, no ambiente dela ainda é relevante.

Foi uma surpresa para si?
Sim, foi. Há 30 anos não contávamos que o tema fosse significativo durante tanto tempo. Mas é claro, a geração que nasceu depois do fim da RDA, apesar de não ter conhecido a RDA, tem a socialização nas suas casas, à hora de jantar.

Como vê a situação política actual? O que se passa com o SPD é como que uma pequena tragédia…
Vejo mesmo como uma tragédia. O Partido Social Democrata teve sempre um papel importante na Alemanha e gostava também que tivesse no futuro, e se continuar assim tão fraco, ninguém se deve contentar com isso. Nunca votei no SPD, voto na Aliança 90/Verdes, mas não gosto de ver o partido nesta situação.

Também a CDU enfrenta os seus próprios problemas. Serão os Verdes o partido estável de hoje?
[Ri-se] Há diferenças regionais, no Leste sempre foram mais fracos, mas olhando para o conjunto, são um partido cada vez mais estabelecido, respeitado. Por um lado, tem a ver com o tema. Há mais gente a estender à política a sua preocupação com o clima. Também tem a ver com as pessoas, que são mais pragmáticas e já não tão dogmáticas e ideológicas, e, claro, com trabalho que tem vindo a ser feito há décadas.