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Netanyahu e Gantz em Washington para conhecer o “negócio do século”

Netanyahu teve “duas palavras para Trump: muito obrigado”. Palestinianos recusam iniciativa diplomática norte-americana.

KEVIN LAMARQUE/Reuters

É uma estreia: um primeiro-ministro israelita vai a Washington ouvir do Presidente dos EUA, Donald Trump, um plano de paz que ninguém sabe o que implica. Outra estreia: em vésperas de eleições em Israel, o candidato que concorre contra o primeiro-ministro também vai encontrar-se com o Presidente americano. E outra ainda: o plano não vai ser apresentado aos palestinianos, que não foram convidados.

A divulgação do plano norte-americano já não era esperada – a janela habitual fechara-se, com vários observadores a notarem como nenhum Presidente americano em pré-campanha iria focar-se num processo de paz no Médio Oriente. Agora, vários analistas sublinham a coincidência da divulgação do plano com dois processos, um nos EUA, do julgamento no Senado do Presidente norte-americano, Donald Trump, e outro, em Israel, da discussão sobre o pedido de imunidade de Benjamin Netanyahu que enfrenta uma acusação judicial de corrupção. O julgamento de Trump está na fase final, a discussão de uma comissão para avaliar a imunidade do primeiro-ministro acontece precisamente esta terça-feira no Parlamento israelita.

Um diplomata israelita disse à jornalista Noga Tarnopolsky que “ninguém viu uma palavra do plano” de paz israelo-palestiniano, que tem divulgação oficial marcada para esta terça-feira numa conferência de imprensa com Trump e Netanyahu. Em Israel, os media especulavam que estabeleceria a soberania israelita sobre a maioria dos colonatos judaicos na Cisjordânia, e sobre toda a cidade de Jerusalém, e que preveria a criação de um Estado palestiniano sob certas condições difíceis de cumprir num futuro próximo.

Quanto ao estranho convite de Trump a Gantz, há várias versões. Uma diz que Trump quer despolitizar ao máximo o assunto, daí apresentá-lo aos dois homens que poderão chefiar Israel após as eleições de 2 de Março (tendo em conta que já ficaram empatados duas vezes antes e esta é a terceira eleição, a situação é particular). Outra diz que foi um pedido de Netanyahu, ansioso por estender uma armadilha no caminho do rival. Gantz ainda considerou não ir a Washington e acusar Trump de querer influenciar as eleições em Israel, mas acabou por comparecer.

Seis semanas

Espera-se que a Casa Branca, diz ainda uma fonte ao diário Haaretz, apresente uma espécie de ultimato aos responsáveis israelitas: “Têm seis semanas para pôr este plano a funcionar, se o quiserem”, cita o jornal israelita.

Netanyahu e Trump falaram brevemente aos jornalistas. Trump disse acreditar que ambos os líderes iriam gostar do plano e que os palestinianos iriam acabar por o aceitar. “Acho que vai ter uma hipótese”, disse.

Netanyahu disse ter “duas palavras para Trump: muito obrigado”. Pelas “sanções tremendas ao Irão”, pela mudança da embaixada americana para Jerusalém, e tudo o que o Presidente americano tem feito deixar as vidas israelitas “mais fortes do que nunca”. “Esta pode ser a oportunidade do século”, disse ainda Netanyahu, ecoando a expressão pela qual o plano de Trump, o negócio ou acordo do século (deal of the century), ficou conhecido.

Já o responsável palestiniano Saeb Erekat chamou ao plano “a fraude do século”, já que não houve convite a qualquer responsável palestiniano e o contributo do outro lado do conflito parece ter sido ignorado.

A Autoridade Palestiniana recusa contactos com a Administração Trump depois de esta ter declarado, em Dezembro de 2017, que os EUA consideravam Jerusalém como capital de Israel, uma posição contra o resto do mundo, que em grande maioria defende que essa é uma questão a ser definida em negociações, porque Jerusalém Oriental é reivindicada pelos palestinianos para sua capital.

Líderes palestinianos voltaram, agora, a ameaçar desfazer a Autoridade Palestiniana, estrutura de governo criada após os Acordos de Oslo de 1993, que não só dá uma certa normalidade ao território como permite que haja acção dos serviços de segurança palestinianos, em cooperação com Israel, evitando ataques no Estado hebraico. A ameaça de desmantelar a AP tem sido feita várias vezes nos últimos anos.

Saeb Erekat juntou outra potencial consequência no caso de o Governo israelita começar a anexação de território palestiniano, “além do fim dos Acordos de Oslo, [quer dizer] que irão abrir-se as portas para ‘uma pessoa, um voto’ do rio Jordão ao Mediterrâneo”. Este tem sido um dos argumentos para a separação entre Israel e Palestina e criação de um Estado palestiniano: que um só Estado teria, a médio prazo, uma maioria palestiniana. Israel perderia então o seu carácter de Estado judaico ou passaria a ter uma maioria de cidadãos de segunda classe.

Se para um plano de paz são precisos dois lados, o plano de Trump pode ter grandes consequências mesmo que apenas um lado o cumpra, diz no Jerusalem Post a jornalista Lahav Harkov: “É uma luz verde para Israel levar a cabo acções unilaterais”, e para “não só anexar território, mas fazê-lo já”.